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Abrigos

O que distingue os abrigos de hoje dos abrigos de antes é que durante a Guerra Fria os alçapões para proteger as famílias eram camuflados, para nenhum vizinho tentar se meter, e os abrigos de hoje podem até ter porteiro

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

18 de agosto de 2019 | 02h00

Frequentei uma escola americana, em Washington, há mais ou menos 200 anos. A intervalos faziam um ensaio antinuclear na escola: iam todos os alunos para o porão, onde ficavam algum tempo, muitos certamente se perguntando por que a União Soviética desperdiçaria um míssil para destruir a Theodore Roosevelt High School.

Era a época mais quente da Guerra Fria, um período que gerou questões morais inéditas nos Estados Unidos, como se era ético ou perdoável um cidadão que tivesse construído no seu jardim um abrigo antiaéreo, para proteger sua família de um ataque nuclear, matar um vizinho que tentasse invadir o abrigo atrás da mesma proteção para sua família. Se me lembro bem, o consenso nacional era que o vizinho imprudente se virasse. 

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Os abrigos antiaéreos variavam de tamanho, sofisticação e expectativa sobre a duração da ameaça. Os mais otimistas imaginavam que sairiam dos refúgios para reconstruir a América, que obviamente sobreviveria à troca de foguetes depois de aniquilar a Rússia. Para os mais pessimistas, o que sobraria de uma guerra nuclear era inimaginável.

Alguém disse que a Terceira Guerra Mundial seria disputada com pedras e tacapes, num mundo calcinado em que só prevaleceriam os mais ferozes. Numa guerra final entre os ocupantes dos abrigos poupados do horror, venceriam os que tivessem estocado mais água e aprendido a se alimentar de minhocas e insetos – radioativos, claro. E mesmo estes não durariam muito.

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Um recente New York Times publicou uma matéria sobre abrigos modernos, que se transformaram num grande negócio, nos Estados Unidos. Segundo o Times, tem gente fazendo fortunas construindo e vendendo abrigos, principalmente nos Estados do Meio-Oeste americano, onde a paranoia é um meio de vida e o que o autor da matéria chama (tradução imprecisa) de “capitalistas apocalípticos” se multiplicam, vendendo proteção do fim do mundo.

Os abrigos atuais vêm de tamanhos e atrativos variáveis, do confortável ao luxuoso. Há abrigos de muitos andares para os compradores esperarem o apocalipse sem sacrificar seus estilos de vida, abrigos com piscina, teatro, cancha de tênis...

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A grande diferença entre os abrigos da Guerra Fria e os atuais é que os inimigos de então eram conhecidos, eram os malditos comunistas e seus mísseis nucleares pairando sobre nossa escola, uma ameaça identificável da qual se abrigar e contra a qual lutar.

Hoje os inimigos são muitos e a ameaça do apocalipse não vem de fora, é interna. É da guerra inevitável entre brancos e marrons, a da invasão de imigrantes sujos, é a de judeus só esperando a vez de dominar o país. 

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Outra coisa que distingue os abrigos de hoje dos abrigos de antes é que durante a Guerra Fria os alçapões para proteger as famílias eram camuflados, para nenhum vizinho tentar se meter, e os abrigos de hoje podem até ter porteiro. 

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