ABRE-ALAS ROCK'N'ROLL

Cinco bandas desconhecidas mas com talento de sobra para fazer de 2013 o ano em que 'aconteceram'

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2012 | 02h07

De quem vamos ouvir falar em 2013? Em termos de pop rock, essa é sempre uma questão tão complicada quanto adivinhar quando será o fim do mundo. Milhares de bandas surgem todo novo ano, e pouquíssimas vingam. Mas o C2+Música encara o desafio aqui de fazer umas apostinhas para o ano que começa.

Em primeiro lugar, uma delícia de art rock que vem de Minneapolis (Minnesota, EUA). Trata-se do Poliça (assim mesmo, com cedilha), liderado pela gatíssima Channy Leaneagh, e cujo teor das letras do único disco tem a ver com seu divórcio recente. Prescindindo da sedução das guitarras, com duas baterias e baixo marcadamente r&b, mais um uso deslavado do Auto-Tune na voz da sua cantora, a banda vem causando.

O grupo está sendo muito paparicado desde que lançou seu disco de estreia, Give Up the Ghost (produzido por Ryan Olson, do Gayngs). Gente como Jay-Z e Justin Vernon, do Bon Yver, se declararam fãs. Em 28 de janeiro, o Poliça inicia turnê mundial por Brisbane, na Nova Zelândia.

Fazem canções que evocam do pop de Cocteau Twins à pulsação do Ladytron, e sua disposição já contamina o universo pop, seduzindo telespectadores de programas como o de Jools Holland. Já os definiram das mais estapafúrdias maneiras, tipo "Fiona Apple como frontwoman do TV on the Radio" ou "uma Norah Jones acentuadamente digitalizada encara as coisas mais polirrítmicas do Radiohead".

Em entrevista recente, Channy Leaneagh riu ao ser instada a definir o som do grupo. "Deixa eu dar um gole aqui nessa margarita enquanto penso em alguma coisa", brincou. "Do meu ponto de vista, estou tentando me fundir aos outros três integrantes da banda e à música que criamos, produzindo uma força entre a gente que pode ser coesa e cativante", disse Channy.

Quanto ao mistério do nome esquisito da banda, que parece um grito de batida da PM no Recife ("Puliça! Ninguém se mexe!"), eles não esclarecem a origem do negócio. "E, como uma criança, o nome da banda tem um sentido literal, e daí há também o significado que só a mãe conhece que não pode ser repartido com ninguém."

No início do ano, em março, o festival Lollapalooza, no Jockey Club de São Paulo, recebe o novo projeto musical do produtor Diplo, o arrasa-quarteirão eletrônico Major Lazer. Acompanhado de um esquadrão dancehall, Diplo turbinou o velho Sound System, o dubstep e o reggae e o seu novo álbum, Free the Universe (lançamento previsto para 18 de fevereiro), está sendo esperando ansiosamente.

Diplo levou Jah para uma voltinha pelo espaço sideral desde 2009, quando lançou Guns Don't Kill People... Lazers Do. O disco do Major Lazer, que será a base do show no Brasil, tem participações da cantora Peaches, de Ezra Koenig (da banda Vampire Weekend), de Wyclef Jean, Bruno Mars, Ms. Dynamite e Shaggy, além de Amber Coffman (do Dirty Projectors). A faixa de abertura, You're No Good, tem como convidado o Santigold. Diplo andou produzindo também uma faixa para Snoop Lion (a persona reggae de Snoop Dogg).

O ultraparódico Taco Leg, mais uma bela banda que vem da Austrália, reativa o punk rock mais estridente da temporada. "Algumas pessoas gostam de vinho. Eu odeio vinho. Gosto demais de Coca-Cola. Algumas pessoas odeiam Coca-Cola. Algumas pessoas são vegetarianas. Outras são carnívoras. Algumas pessoas odeiam Bikini Kill. Outras acham Bikini Kill a melhor banda de todos os tempos. Algumas pessoas odeiam Taco Leg, e outras pensam que nós somos bons pra cacete e compram nosso disco", disse Andy Murray, líder da banda.

O nome do grupo foi tirado do livro Our Band Could Be Your Life: Scenes from the American Indie Underground 1981-1991, de Michael Azerrad. Trata das bandas de rock que viveram sob os anos Reagan nos EUA, como Mission of Burma, Butthole Surfers, The Minutemen, Sonic Youth, Black Flag, Big Black, Hüsker Dü, Fugazi, Minor Threat e Dinosaur Jr.

Com isso, o trio Taco Leg dá uma pista do tipo de som que lhes interessa. Mas, apesar da crueza punk, Andy Murray diz que se sente mais próximo do pop de Lady Gaga e Taylor Swift. "Acho que tento fazer as canções do Taco Legs de um jeito grudento, ou ter um riff memorável ou o que seja, algo que goste de ouvir. É provavelmente de onde isso vem, da influência pop. Vai mais direto ao ponto. É mais a busca de um 'gancho' do que a construção de alguma coisa. Por isso que não gosto de Radiohead ou Throbbing Gristle ou coisas do tipo, porque eu só quero ouvir música boa, sólida e com ganchos divertidos para você cantar em coro", afirmou Murray.

Em outra direção, mais inclinado para as brumas dos anos 1980, aparece o grupo Cold Pumas, em evidência por conta do lançamento do disco Persistent Malaise. Atmosferas típicas de bandas "dark" como Bauhaus e Joy Division pontuam suas canções, como a instrumental Beat Mystery. O pós-punk é seu berço natural, já que vêm de Brighton, Inglaterra. Mas parecem menos derivativos que Interpol e outros grupos da mesma cepa.

Jams sombrias e batida proeminente de baixo cobrem suas melodias, como se cruzassem o pioneiro kraut rock dos anos 1970 com a cena desesperançada de Manchester dos anos 1980. O lance é o transe. Também são um trio (composto pelos irmãos Oliver e Patrick Fisher e Dan Reeves), e seu barato é brincar com estruturas rítmicas que parecem básicas, repetitivas, mas são bastante complexas e constroem melodia de forma sutil, como faziam bandas como The Fall ou Durrutti Column, por exemplo.

De Wrexham, País de Gales (terra de bandas seminais como Super Furry Animals e Stereophonics), veio um dos grupos que dão mais esperança aos britânicos nesta temporada, o Gallops. Acabam de lançar o disco Yours Sincerely, Dr. Hardcore, que levou baldes de estrelas de todos os resenhistas do Reino Unido em 2012. O quarteto é formado por Mark Huckridge, Paul Maurice, Dave Morait e Bradley Whyte.

A estranheza causada por faixas como Miami Spider (usada num comercial na Alemanha) e Sonderhof vai conquistar o amante da bizarria instantaneamente. Low tech em efeitos e visionário na criação de melodias, lembra uma mistura de Flaming Lips com a banda croata Bambi Molesters. Nessa dá para apostar tranquilamente: canções como Jeff Leopard, do seu novíssimo disco, vão azeitar trilhas sonoras de garotos que não gostam de se parecer com nenhum outro do mundo todo.

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