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Abraham Lincoln vira caçador de vampiros no cinema

Autor usa vampiros para propor o que não deixa de ser uma metáfora séria sobre os EUA

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

10 de setembro de 2012 | 03h06

Seth Grahame-Smith virou um fenômeno editorial - e um dos autores mais vendidos do New York Times - graças à sua literatura, que muitos críticos consideram sub e rotularam de "mistureba". Depois de arrebentar nas listas de mais vendidos com Orgulho e Preconceito e Zumbis, reiventando o original de Jane Austen, ele se voltou para a História (com maiúscula) e fez o mais inesperado retrato do 16.º presidente dos EUA em Abraham Lincoln - Caçador de Vampiros. Embora não tenha firmado o manifesto da independência, Lincoln é considerado o verdadeiro pai da nação, o homem que colocou os EUA - a "América" - na modernidade. Ele fez isso ao lançar o Norte desenvolvido contra o Sul escravocrata na Guerra Civil. Pagou um alto preço - e foi morto por isso.

Grahame-Smith revelou em livro a dupla identidade do presidente - uma parte que estava ausente na cinebiografia que John Ford fez no começo dos anos 1940 (A Mocidade de Lincoln) e certamente também será ignorada por Steven Spielberg em seu épico intimista que estreia em novembro - com Daniel Day-Lewis na pele de Abe. A fantasia de Grahame-Smith, adotada pelo diretor Timur Bekmambetov no filme homônimo que estreou sexta-feira, é que Lincoln, como a Bela da Tarde, tinha dupla personalidade. Primeiro advogado e, depois, presidente, a persona pública. Nas sombras, caçador dos vampiros que ameaçam a América.

Nove entre dez críticos vão jurar que o filme, como o livro, é uma bobajada, que Grahame-Smith escreve mal e Bekmambetov filma pior ainda. Não é verdade. O filme é bem feito, e bem adaptado pelo próprio Grahame-Smith. Independentemente da qualidade do material, roteiristas profissionais deveriam ler o livro e ver o filme para ver como um autor escreve para diferentes mídias. Se há coisa que Grahame-Smith não tentou é ser fiel a si mesmo. Ele praticamente escreve outro livro sob a forma de roteiro, misturando - dentro da mistureba - personagens e situações e oferecendo a Bekmambetov cenas espetaculares, formatadas para o uso do 3-D, como o duelo de Lincoln com o vampiro no lombo dos cavalos em disparada.

Falta humor, reclamam os críticos. Com toda certeza, Bekmambetov não concebeu Abraham Lincoln como paródia, o que o livro de Grahame-Smith também não é. O Lincoln do livro e do filme, como o da realidade, é um garoto que cresce traumatizado pela morte da mãe e pela ambígua relação com o pai, a quem nunca respeitou. Só que, diferentemente do que registra a historiografia oficial, na fantasia do roteirista e do diretor a mãe é morta por um vampiro. O menino Abraham assiste à cena e resolve se vingar. Vira caçador - e matador - de vampiros, mas não seria tão eficiente na atividade não fora seu encontro com Henry.

É alma do filme e do livro, mesmo que vampiros, amaldiçoados pela danação eterna, não tenham alma. O próprio Henry é vampiro, ou foi transformado em um. Impossibilitado de fazer ele próprio a matança dos que destruíram sua vida - ao matar a mulher que amava -, ele instrui Abraham com todo seu conhecimento (e habilidade) para que o substitua nas caçadas. A arma - o machado, pois desde cedo o alto e desajeitado rapaz revela destreza na utilização do instrumento, como lenhador e carpinteiro. Abraham dispara o machado - e Bekmambetov filma a trajetória como filmava as balas disparadas por Joseph Gordon-Lewitt em O Procurado, por sua vez uma lição aprendida de Matrix, dos irmãos Wachowski.

Curiosa figura, esse Bekmambetov. Não é nem de longe o maior o maior autor da Rússia pós-comunista, posto que pertence ao Sergei Loznitsa de Minha Felicidade. Mas Bekmambetov compartilha com o colega mais talentoso a crítica ao czar Vladimir Putin. O que os diferencia, radicalmente, é o estilo - Timur filma pelo e para o visual, e foi o que o levou a Hollywood, após Guardiões da Noite. Aquele já era um estranho filme sobre caçadores (d)e vampiros, numa Rússia em que a derrocada do comunismo criara uma sub-raça de desempregados e inadaptados.

Na (re)interpretação histórica que Grahame-Smith e Bekmambetov fazem da Guerra Civil nos EUA, os vampiros encastelaram-se na sociedade sulista, num sistema - o escravagismo - que é, obviamente (e talvez até obviamente demais ), metaforizado. Eles sugam o sangue dos escravos em duplo sentido - para produzir riquezas e para se alimentar. É o que Lincoln quer destruir, e mais ainda após a perda do filho, que vem se somar à morte da mãe. A prata vai ser sua arma na batalha decisiva, na qual não apenas os vampiros serão derrotados como também se (re)construirá a nação. Nada disso é real. Ou melhor, tudo é real - sem a fantasia dos vampiros. E, à sua maneira, o filme é divertido, embora, para boas gargalhadas, a paródia de Drácula, Morto Mas Feliz, de Mel Brooks, possa fazer rir mais (mas é inferior como cinema).

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