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Abobrinhas

Que proveito pensava tirar da informação de que Bing Crosby era daltônico?

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2021 | 03h00

A gente é o que a gente guarda na memória ou anotou por escrito. Walter Benjamin não escreveu exatamente isso, mas foi mais ou menos isso que depreendi do que ele revelou sobre sua mania de anotar ideias próprias e alheias. 

Vítima do mesmo vício, mais disseminado que o tabagismo e o alcoolismo entre quem vive de escrever, frequentemente me deparo com anotações feitas e entesouradas ao léu que não me recordo de haver utilizado nas abobrinhas que, vez por outra, escrevo para relaxar meu espírito e o de quem me distingue com sua leitura. 

Várias pareciam destinadas a reflexões que, na melhor das hipóteses, restaram embrionárias e, com o passar do tempo e o acúmulo de mofo, algo enigmáticas e esotéricas, quando não irremediavelmente incompreensíveis. Não consigo atinar com o objetivo final de certos apontamentos. 

Seriam os dois parágrafos que encontrei sobre a cadela Lassie o preâmbulo de uma divagação a respeito de cães e outros animais da tela? 

Que proveito pensava tirar da informação de que Bing Crosby era daltônico, Rex Harrison zarolho e Clark Gable incomodava-se com suas orelhas de abano? Talvez um artigo sobre a fragilidade humana se juntássemos essas anomalias às hemorroidas de Napoleão e Karl Max, a sífilis de Baudelaire e os 11 dedos de Ana Bolena, igualmente consignados nos meus canhenhos. 

Lassie foi a collie mais famosa do mundo, mas não era uma cadela. Suas sucessoras tampouco. Já Leo, o leão da Metro, não tinha como enganar: era macho mesmo – mas se chamava Slats. O cachorro da RCA Victor também era macho e, ao contrário de Lassie e Leo, não teve sucessores, reinou sozinho diante daquele gramofone e dispensou nome artístico: era Nipper em casa e no batente. 

Cruza de bull terrier com fox-terrier, Nipper nasceu em Bristol, na Inglaterra, 20 anos antes de ali vir à luz um gracioso menino chamado Archibald Alexander Leach, que vocês já conheceram com o nome artístico de Cary Grant. Nipper passava horas sentado diante de um fonógrafo, à espera de um som, o que muito facilitou o trabalho de imortalizá-lo num quadro que virou gravura publicitária, por acaso pintado no ano da invenção do cinema, quando o mascote da RCA Victor tinha 11 anos de idade e ainda faltavam nove anos para Archibald Leach levar o seu primeiro tapa na bunda, se numa maternidade ou no recesso do lar, não anotei. Suspeitava-se que Nipper acreditava pertencer a seu dono, Francis Barraud, todas as vozes que saíam do gramofone. Daí seu eterno plantão diante do aparelho. Daí o slogan “His master voice” (a voz do dono).

Quem se interessaria por saber que o cérebro de Marilyn Monroe pesava um quilo e 439 gramas e isso nada tinha a ver com o seu surpreendente QI? E, se tivesse, o que deduzir, além da certeza de que peso também não é documento? A propósito, Marilyn tinha 168 de QI, quociente superior aos de Galileu (145), Darwin e Isaac Newton (135) e Copérnico (105), a se acreditar nos dados divulgados por um estudo da Universidade Stanford. 

Qual a importância dessas informações? Não sei, talvez nenhuma, mas eu as guardei – e delas agora me sirvo para distraí-lo, hypocrite lecteur.

No mesmo dia de 1933 em que os heróis dos quadrinhos Lone Ranger (no Brasil, Zorro) e Tonto estreavam no rádio (com a abertura de Guilherme Tell, de Rossini), Hitler tomava posse como chanceler da Alemanha. Era um episódio de Lone Ranger que o casal Rosenberg ouvia pelo rádio, em 17 de julho de 1950, quando agentes do FBI bateram à porta com um mandado de prisão para os donos da casa por espionagem atômica, dissabor que culminaria com Julius e Ethel torrados numa cadeira elétrica. Façam as ilações cabíveis e descabidas.

Chaplin ainda trabalhava na trupe de Fred Karno quando foi a Paris para uma série de apresentações teatrais. Certa noite, um cavalheiro procurou-o no camarim. Ficara impressionado com as pantomimas do ator, sapecou-lhe dois beijos nas bochechas e foi embora. Seu nome? Claude Debussy. Chaplin orgulhava-se à beça desse episódio (quem não?), sobretudo porque também fez, ou melhor, faria sucesso como compositor. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’, ENTRE OUTROS

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