ABL premia ensaio de Alencastro

No próximo dia 9 de agosto, a Academia Brasileira de Letras entrega ao historiador Luiz Felipe de Alencastro o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, por O Trato dos Viventes (Companhia das Letras, 525 págs., R$ 36). Alencastro, assim, integra um time que inclui nomes como o também historiador Evaldo Cabral de Melo, o crítico teatral Décio de Almeida Prado e o crítico literário Wilson Martins, todos eles também homenageados com o prêmio.No primeiro semestre deste ano, o historiador também passou a fazer parte do seleto grupo de professores titulares da Sorbonne, em Paris. Assumiu a cátedra de História do Brasil, criada em 1985 e que foi ocupada por Kátia Mattoso, autora de Bahia - Século XIX.Publicado no ano passado, O Trato dos Viventes tem como subtítulo Formação do Brasil no Atlântico Sul. Para Alencastro, é impossível entender o Brasil nos séculos 16 e 17 sem pensar no continente africano - e, especialmente, em Angola. O sistema de exploração açucareiro implantado no Brasil colônia dependia da mão-de-obra escrava traficada a partir da África. E é a existência de engenhos no Brasil que explica uma colonização na África praticamente que apenas comercial - em que o principal "produto" negociado eram o negros. Assim, o País nasce mais nas águas do Atlântico do que no penetrar o continente, numa relação que nem sempre passava por Portugal, a metrópole."O sistema só aparece quando alguém se intromete - no século 17, esse alguém é a Holanda, com as ocupações na Bahia e em Pernambuco", explica. "É como um atol: pensa-se que são ilhas isoladas, mas você percebe que são a mesma coisa quando tem um terremoto; o século 17 tem histórias regionais, naquele momento não dá para fazer uma história do Brasil, dá para fazer uma história do Atlântico Sul", afirma.Espaço colonial - "Eu talvez devesse ter sido até mais radical, não falar de colônia, mas de espaço colonial: na verdade, trata-se de pegar as 15 capitanias, subtrair 4 (Piauí, Maranhão, Rio Grande do Norte e Pará) e adicionar outro espaço, que é Angola", argumenta o historiador.Em O Trato dos Viventes, Alencastro também observa que, de 1500 a 1930-40 - por mais de quatro séculos, portanto -, o sistema de ocupação do território pressupôs a importação da mão-de-obra, seja de escravos, seja de trabalhadores livres europeus. Só depois, o fluxo de mão-de-obra passa a ser interno, e o Ministério do Trabalho getulista assume o papel de "supergato", que na segunda metade do século 19 assumira o Ministério da Agricultura."Encontrei um eixo interpretativo e isso me permitiu atravessar todo esse período", explicou Alencastro, na semana passada, num café em Higienópolis, onde falou com a reportagem. Segundo ele, o prêmio da ABL é especialmente bem-vindo porque demonstra que a obra está ultrapassando a barreira dos especialistas. "Toda a preocupação de quem escreve um livro destes é não ficar restrito a um público especializado."Para isso, entretanto, Alencastro não fez exatamente concessões. Seu livro combina uma análise geral com fatos específicos, aquilo que chama de eixo interpretativo com pequenas histórias, garimpadas por outros pesquisadores e pelo próprio autor. As fontes são sempre citadas, e as referências ultrapassam a casa da centena em todos os capítulos."Há uma complexidade especial em escrever história, que é realizar a fusão do documento e da narrativa; Manuel Bandeira dizia que Sérgio Buarque tinha o estilo dos relatórios de província de São Paulo dos séculos 18 e 19, e isso me marcou muito: tentei deixar o estilo do século 17 penetrar na documentação", justifica. Por outro lado, na sua opinião, o historiador tem um "pacto com o leitor", que pressupõe a verificação da fonte.Alencastro pretende dar continuidade ao livro analisando os séculos 18, 19 e início do 20. "Não sei se vou fazer dois ou três volumes", explica ele. "Se forem apenas dois volumes, o segundo se chamará O Fardo dos Bacharéis, que é o título de um artigo que publiquei na revista do Cebrap."O fardo dos bacharéis, no caso, é a herança de uma ideologia pombalina transmitida aos governantes do Império. Para eles, uma das tarefas dos altos funcionários do Estado era civilizar a sociedade, que havia sido desorganizada pela escravidão, que embrutecia o senhor e o escravo. Antes, no entanto, Alencastro deve escrever, para a editora francesa Gallimard, uma história geral da escravidão moderna.Cronologia - Alencastro defende uma espécie de alteração na periodização da história brasileira. "Na historiografia brasileira, há uma data duplamente canônica, que é 1808: porque a Corte vem para o Rio de Janeiro, criando um centro racionalizador do espaço nacional, e porque a hegemonia inglesa substitui a portuguesa no comércio externo, com a abertura dos portos."O problema é que, apesar dessa abertura dos portos, a Inglaterra, no mesmo ano de 1808, deixa de participar do tráfico de escravos, que continuou sendo um importante componente da balança de pagamentos. "A grande data é 1850, porque já abre a crise da escravidão, e não a Lei do Ventre Livre (1871); o espaço colonial se mantém até essa data", diz.Alencastro é autor de um texto, incluído na coleção História da Vida Privada, que mostra que o excedente na balança de pagamentos com o fim do tráfico possibilitará a importação de badulaques que vão fazer a festa do segundo reinado. O Rio passa a ter uma enorme proporção de pianos por habitante à época, por exemplo.Em vez de pensar em Independência e numa data (1822), portanto, o historiador discute sobre um período mais longo, que chama de extração do Brasil do sistema colonial português, um processo que se conclui apenas em 1850. "Isso que eu tentei mostrar: para entender o século 19, é preciso estudar o século 17."Depois de 1850, o Brasil esqueceu Angola, e talvez por isso seja tão difícil pensar o País sem os contornos atuais.A partir desse momento, os portugueses iniciam uma nova colonização na África, quando se torna possível reproduzir o modelo de exploração utilizado no Brasil em Angola - porque já não havia um mercado produtor "bombeando gente", numa expressão de Alencastro.

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