ABL discute livro na era da Internet

Ler? O que, por que, como? E, agora, onde - ou melhor, em quê? Você já se deparou com esse problema, colocado exatamente dessa mesma forma? Será que se lembra se foi no jornal ou na Internet? O problema do futuro do livro e da palavra escrita numa sociedade globalizada e digitalizada chega agora à Academia Brasileira de Letras. Os imortais, que já foram tão impopulares por representarem o conservadorismo literário, rendem-se ao que há de mais atual no debate do mundo das letras. É no auditório da ABL, no centro do Rio de Janeiro (av. Presidente Wilson, 203), que ocorrem as discussões que começam amanhã e terminam na quarta-feira. O encontro O lugar do Livro: entre a Nação e o Mundo é promovido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) em parceria com a Fundação Biblioteca Nacional.Participam 25 personalidades. Do exterior, vêm teóricos da pós-modernidade como o italiano Gianni Vattimo e o francês Michel Maffesoli. Também estão previstas conferências com gente do porte do argentino naturalizado canadense Alberto Manguel, do indiano Homi K. Bhabha e do espanhol Rafael Argullol. Da ABL, está prevista a participação dos escritores Lygia Fagundes Telles e de Carlos Heitor Cony. A coordenação geral do encontro é dividida entre Eduardo Portella, presidente da Fundação Biblioteca Nacional e também membro da ABL, e Frances Albernaz, assistente da presidência da Conferência Geral da Unesco.A agenda desses três dias de debate é cheia. Nesta segunda-feira, há uma sessão inaugural às 11 horas. A programação segue com uma homenagem a Italo Calvino. Ao meio-dia Cony, Ziraldo, Lygia e Nizia Villaça tentam responder à pergunta: "O que acontecerá com o livro na Era Eletrônica?". Às 16h, Bhabha, Goretti Kyomuhendo (Uganda) e o ensaísta Sérgio Paulo Rouanet, numa mesa comandada por Muniz Sodré, têm a difícil tarefa de debater e quem sabe encontrar o lugar do livro no espaço da cultura.Nos dois dias seguintes, a programação começa às 10 horas e entra pela tarde. Portella afirma que o encontro, que vem sendo planejado há dois anos, tem duas vertentes: uma mais formuladora que se volta à questão das relações entre o que chama de "cultura do clique" e a cultura do livro. "Vamos discutir o percurso e a possibilidade de sobrevivência dessa cultura do livro, fazendo comparações inclusive com as experiências de sociedades orientais", diz Portella.No seu caminho mais prático, a reunião procurará debater o que muda na produção e na comercialização do livro, com o avanço dos meios eletrônicos. "Será que a Internet estreita ou alarga o futuro das livrarias?", pergunta Portella, antecipando um dos assuntos que serão debatidos no último dia, numa mesa mediada pelo professor de filosofia da Universidade de São Paulo Renato Janine Ribeiro e que contará com a participação de Maffesoli e de Milagros del Corral (Espanha).Janine, por exemplo, lembra que, "antigamente" (cinco anos atrás!) era quase impossível encontrar um livro do qual se sabia apenas o nome, mas não a editora e o autor. "Hoje, é só entrar numa livraria virtual." Esse é um exemplo a favor da tese de que a Internet ajuda a ampliar a cultura do livro, mas não é o único. Hoje, existe uma divisão entre as livrarias "reais" e as virtuais. Essa divisão pode vir a cair. O interior do Brasil, que tem uma baixa presença do setor livreiro, pode ver surgir um novo gênero de varejo: a livraria "meio virtual, meio real". A livraria seria uma espécie de minigráfica, com equipamentos capazes de "baixar" e imprimir livros depositados na forma de bytes. Esse tipo de comércio é visto como uma alternativa para os editores brasileiros, em especial para aqueles fora do eixo Rio-São Paulo.Outro fator a considerar é que a Internet continua a integrar, ainda, o reino da palavra escrita. O escritor mexicano Carlos Fuentes, por exemplo, em recente entrevista, lembrou que o e-mail trouxe de volta um velho hábito, que se considerava perdido: o de escrever cartas. A Internet também é ponto de encontro de editores, e ajuda a comercializar direitos e traduções. A própria Biblioteca Nacional já conta com uma biblioteca virtual de cem livros, e sonha com a digitalização completa de seu acervo.Um dos grandes desafios que a Biblioteca Nacional está buscando superar, explica ele, é o que chama de "transpor" os limites do prédio que fica no Rio. "Temos um serviço público, que não pode se comprazer apenas com a manutenção e a preservação." Se o mundo virtual parece não ser o ideal para as duas últimas tarefas, ele certamente é a mais prática e barata forma já inventada de distribuir conhecimento.

Agencia Estado,

27 de agosto de 2000 | 16h56

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