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Priscila Prade/Divulgação
Priscila Prade/Divulgação

Abismo entre gerações

Algumas variações pontuam 'Três Dias de Chuva', em uma astuta decisão do diretor

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2013 | 02h17

Quando começava a traduzir e adaptar a peça Três Dias de Chuva, Jô Soares encantou-se com um versão moderna da canção Que Será, Será, criada por Jay Livingston e Ray Evans em 1956 e eternizada na voz de Doris Day. "Era num ritmo mais suingado, que me interessou muito", conta Jô que, ao lado do músico Duda Queiros, começou a pesquisar até descobrir que havia mais de uma dezena de versões, de rap e hip-hop até valsa.

Algumas dessas variações pontuam a montagem, em uma astuta decisão do diretor -, afinal, Que Será, Será é uma canção que expressa o sentimento fatalista para eventos que estão fora do controle. Também um estado de resignação sobre algo pouco agradável já ocorrido. "Mas decidi não usar a versão com a Doris Day para aumentar o suspense", diverte-se Jô.

Ele conta que enfrentou um demorado, mas delicioso, trabalho de tradução. Em um primeiro momento, evitando referências que eram mais conhecidas dos americanos, como a atriz americana Tallulah Bankhead (1902-1968), provavelmente lembrada apenas por fãs inveterados, como o próprio Jô Soares, que a trocou por Blanche Dubois, famosa personagem de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams. Outra mudança na versão nacional foi a exclusão dos nomes de arquitetos - o tradutor concentrou-se na mítica figura de Frank Lloyd Wright (1867-1959).

Para comprovar a eficiência da estrutura do texto, o diretor fez uma experiência e inverteu a ordem da peça em um ensaio, encenando o segundo ato antes que o primeiro, ou seja mostrando antes os acontecimentos de 1960 e depois suas consequências, em 1995. Com isso, conseguiu verificar o sentido cronológico do enredo. De volta à sequência correta, com o quebra-cabeça novamente embaralhado, Jô constatou a engenhosidade do texto de Greenberg, especialmente ao mostrar a incapacidade dos filhos de compreender o passado dos pais. "O que era verdade no primeiro ato pode se tornar um grande engano no segundo", disse.

Ainda em sua pesquisa, Jô preocupou-se com detalhes de época - não apenas da década de 1960, mas principalmente dos anos 1990. É que se trata justamente do momento em que o mundo deu uma guinada espetacular, graças ao avanço da tecnologia que ali dava os primeiros passos. Assim, a mais moderna forma de se comunicar já era pelo celular, mas, em um determinando momento, Carolina Ferraz saca um modelo enorme, pré-histórico, com antena.

"Em outro momento, quando um personagem pergunta o significado de uma palavra, coloquei, como resposta, uma frase hoje já habitual: 'Dá um Google!'. Mas, na época, a internet ainda era incipiente e não existiam sites de busca - a solução foi a tradicional: 'Procura num dicionário'."

Ao decidir o rumo da direção, Jô Soares preferiu o realismo. Mas não ao pé da letra: "O teatro é uma arte que propõe um pacto com o espectador de acreditar na realidade vivida no palco. Assim, embora chova durante três dias, não se vê, de fato, a água caindo - mesmo assim, ninguém na plateia deverá duvidar do temporal".

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