Aberta a 11.ª Documenta de Kassel

A 11.ª Documenta de Kassel, que abre hoje suas portas para o público na cidade alemã, começa em meio a algumas indagações e com a escolha sem precedentes de um curador não-europeu para uma mostra tão fechada. Com a curadoria de Okwui Enwezor, crítico nigeriano que vive em Nova York, essa 11.ª edição pode ser definida, sob todos os pontos de vista, como uma mostra política. Como confirmou-se na entrevista coletiva que lotou na quinta-feira o auditório e as galerias do Stadthalle - com mais de 2 mil jornalistas de todo o mundo -, parte dos trabalhos discute os resultados da globalização e discorre sobre o poderio e a ditadura imposta pelos modelos hegemônicos sobre identidades e tradições de territórios "colonizados", onde subexistem antagonismos e divergências culturais, religiosas, étnicas e ideológicas. Diferentemente dos anos 60, quando a arte reinterpretava os acontecimentos, hoje muitos artistas expõem cenas de atrocidades sem nenhuma contextualização. Eyal Sivan, israelense que mora em Paris, por exemplo, exibe um vídeo do massacre dos Tutsis em Ruanda, em 1996, como um mero comercial. Alguns trabalhos, com um discurso melhor articulado, deixam clara a inutilidade de certos processos políticos e sua capacidade transformadora da sociedade. É o caso da colombiana Doris Salcedo, cuja instalação conceitual - uma boa participação nesta Documenta, com uma sala repleta de mesas e cadeiras queimadas pelo fogo - faz alusão à bomba lançada pela polícia sobre guerrilheiros das Farc sem precisar usar nenhuma cena explícita. Outros propõem uma releitura de acontecimentos já discutidos à exaustão pela mídia tecendo um discurso político, mas não politizado, como o do chileno Alfredo Jaar, que mescla textos sobre ataque ao Afeganistão e a prisão de Madela. Assim, antropologia, tradição, filosofia e política se misturam a alguns resgates poéticos e inventivos. Shirin Neshat, por exemplo, reincorpora a noção de mitologia à natureza. As redes globais abrem novas perspectivas de discussão e o reflexo disso está na nova demografia de identidades que toma conta de Kassel, onde nomes consagrados se misturam a uma legião de desconhecidos do circuito de mostras criado na cidade alemã. A mostra se espalha pelo museu Fridericianum, Orangerie, Karlsaue, Documenta Halle, Kulturbahnhoff (antiga estação de trem) e pela Binding-Brauerei (fábrica de cerveja desativada). Em edições passadas, a Documenta de Kassel mantinha uma atitude arrogante, estabelecendo - mesmo que subliminarmente - o que deveria circular no mercado e o que poderia ser classificado ou não como arte internacional. Hoje mais flexível, permitiu que seu conceito fosse discutido em quatro continentes ao longo de debates a que o curador intitulou de plataformas. As discussões começaram em março deste ano, em Berlim e Viena, e se estenderam por Nova Délhi (Índia), Santa Lúcia (Caribe), chegando a Freetown (Sierra Leoa), Johannesburgo (África do Sul), Kinshasa (Zaire) e Lagos (Nigéria). A Documenta 11 é considerada a quinta plataforma, o resultado formal desses fóruns. Nem tudo saiu como previsto, segundo a declaração do próprio curador. Uma exposição dessa envergadura também significa conviver com as múltiplas versões de um tema. Seu grande mérito é promover a articulação entre os paradigmas da produção de arte atual com as concepções filosóficas e estéticas vigentes. Dois brasileiros, Cildo Meirelles e Artur Barrio, representam essa heterogeneidade, mas com qualidade. Meireles dessacraliza mais uma vez a obra de arte colocando a indústria a serviço da arte. Dez carrinhos de sorvete espalhados pela cidade, com três sabores, água natural, água salgada e água doce, vendidos a um euro cada um (R$ 2,50) transformam o quase nada em poema industrial efêmero. Há na performance uma crítica à banalização da sociedade industrializada. Com 300 quilos de pães, vinho e café, Barrio propõe uma reflexão sobre as instituições que abrigam as exposições e a produção contemporânea de arte. A cartografia da arte contemporânea tem sido também o resultado do embate entre esses binômios. A multidisciplinaridade está contida no conceito geral da Documenta e se reflete em escolhas tão díspares como a do Grupo Amos, da República do Congo, um dos mais radicais engajamentos artísticos na luta pela justiça social, que se expressa por meio de vídeos, fotos, pinturas e emissões de rádio espalhadas pela exposição. Ou a de Kutlug Ataman, da Turquia, que retrata o submundo da prostituição. Pavel Braila, da Romênia, que discute em vídeo e performance a descontextualização do leste europeu dentro de uma nova transnacionalidade, também faz parte deste grupo. A idéia de que toda grande mostra precisa de monstros sagrados aqui cai por terra. Louise Bourgeois, a dama da arte contemporânea, aparece discreta com mais um desdobramento de outros trabalhos realmente expressivos. Ainda é cedo para avaliar os caminhos que a Documenta 11 pode apontar. Ao contrário das edições anteriores, em tudo estava praticamente previsto.História que o Brasil acompanha - Nenhuma outra exposição de arte tem o poder da Documenta, que continua sendo a mais influente do circuito internacional. Sua história começa em 1955, numa pequena cidade de 200 mil habitantes. Construída no rico Estado de Essen, a 300 quilômetros de Berlim, Kassel foi a residência de verão de Frederico II e, desde sua primeira edição, elegeu o palácio Friedericianum como seu espaço principal, entre vários outros por onde se espalha. A Documenta foi criada por Arnold Bode, inexpressivo pintor local, mas respeitado professor da Universidade de Kassel, o homem que lutou pela idéia de transformar a arte alemã em produto contemporâneo, respeitado e invejado. Sua primeira edição, em 1955, fez parte do Bundesgartenschau (Exposição de Horticultura da Alemanha Federal), que naquele ano ocorreu em Kassel. A edição inaugural foi palco do primeiro encontro entre artistas alemães e de outros países depois da 2.ª Guerra. Ao contrário do que foi divulgado amplamente em 1991, por ocasião da Documenta 9, quando se afirmava que os brasileiros finalmente chegavam a Kassel, já em 1955 o Brasil teve um artista selecionado: Ernesto de Fiori. Nascido em Roma, ele imigrou em meados da década de 30 para São Paulo e tornou-se um dos nomes mais expressivos da arte brasileira nos anos 40. A Documenta, que nasceu quadrienal e depois passou a ser realizada de cinco em cinco anos, teve em sua segunda edição dois cariocas: Fayga Ostrower e Arthur Luiz Piza, que participaram com gravuras no mesmo espaço em que estavam expostas as obras de Picasso, Miró, Kandinski, Max Ernst e Marino Marini. Fayga ainda comemorava o sucesso alcançado um ano antes na Bienal de Veneza de 1958, quando recebeu o grande prêmio de gravura com duas águas-tintas e duas xilogravuras. As duas primeiras edições da Documenta podem ser consideradas heróicas porque foram realizadas sobre as ruínas de uma Alemanha destruída pela guerra. No ano de 1964, as vésperas de novas mudanças no cenário político em alguns países, a Documenta começa a se firmar e mais uma vez o Brasil está presente, agora com Almir da Silva Mavignier, um pintor reconhecido dentro do movimento da optical art. Especial - Quatro anos depois, Mavignier volta a ser convidado e a Documenta abre espaço também para as esculturas de Sérgio Camargo, homenageado com sala especial. A montagem de seu espaço teve a participação especial da gravadora Maria Bonomi, uma entusiasta da obra de Camargo e, na época, já reconhecida e premiada internacionalmente. Até esta edição, o professor Bode esteve à frente da Documenta. O ano de 1972 é emblemático para a exposição, quando Harald Szeeman, crítico suíço, assume a curadoria da Documenta 5 e Bode é "aposentado" da mostra. Szeeman foi o responsável pela guinada e pelo respeito alcançado pela Documenta. O Brasil volta em 1977 com a obra do cineasta Leon Hirszman, num ano concorrido na área de cinema (segmento que compareceu algumas vezes). Ele esteve lado a lado com diretores de peso como Claude Chabrol, Alain Resnais, François Truffaut, Rainer Fassbinder, Jean-Luc Godard, entre outros. Na década de 80, os brasileiros não foram lembrados pelos curadores Rudi Fuchs (1982) e Manfred Schneckenburg (1987), embora ambos tenham estado na Bienal de São Paulo. No entanto, em 1991 o Brasil reaparece com José Resende, Cildo Meireles, Waltércio Caldas, Jac Leirner e Saint Clair Cemin, gaúcho residente em Nova York. Equivocadamente os cinco foram festejados pela imprensa do Rio e de São Paulo como os primeiros brasileiros a participarem da mostra. Até mesmo um dos curadores da Documenta daquele ano, Bart de Baere, afirmou, numa entrevista concedida no Brasil, que Documenta jamais havia mostrado obras de artistas latino-americanos. No entanto, se publicássemos os nomes de todos os participantes do continente, teríamos uma lista considerável. Com sucesso, estiveram por lá em 1997 Tunga, Hélio Oiticica e Lygia Clark - os dois últimos com salas especiais. No mesmo ano, foram convidados Cabelo, jovem artista carioca, e Öyvind Fahlström, nascido em São Paulo e que viveu na Europa. Agora, o milênio começa com Cildo Meireles, convidado pela segunda vez, e Artur Barrio.

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