Steve Ludlum/The New York Times
Steve Ludlum/The New York Times

Abc do terror

A primeira década do século 21 começou mal, anunciando o primeiro século do terceiro milênio como um tempo de catástrofes. Os atentados terroristas ao World Trade Center de Nova York, em 11 de setembro de 2001, pareceram de tal modo uma obra de ficção que a literatura mal conseguiu escapar de sua zona de influência. Dois grandes livros se destacam sobre o assunto, o primeiro do colunista da revista The New Yorker, Lawrence Wright, O Vulto das Torres (2006), e o segundo escrito por outro americano, Don DeLillo, Homem em Queda (2007). Ambos, na década, reforçam a desconfiança de que a ficção jamais será como antes. Se ficou impossível escrever poesia depois de Hiroshima, fica ainda mais difícil conservar em formol o antigo romance - gênero derivado da epopeia - na era do livro digital. Nem satírico, nem cínico, o romance da década do terror nasce como uma espécie de peça jornalística transfigurada em literatura. Don DeLillo é Lawrence Wright reinterpretado em ficção.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2010 | 00h00

Grandes autores que começaram a ser mais lidos na década, como Corman McCarthy, não por outra razão, seguiram a trilha de Don DeLillo na escolha de temas ligados à realidade imediata. McCarthy e DeLillo são contemporâneos. Estão perto dos 80 anos. O primeiro, ex-militar, é três anos mais velho. De Lillo nasceu numa família católica do Bronx e cresceu nas ruas falando uma mistura de inglês e italiano. Em Homem em Queda, ele toma como referência a cobertura jornalística do fotógrafo Richard Drew (Associated Press) dos atentados do 11 de setembro. Drew fez uma foto que correu mundo, a de um homem em queda livre pulando do topo da torre norte do World Trade Center. Descobriu-se, mais tarde, que se tratava de Jonathan Briely, funcionário do restaurante do WTC que, sendo asmático, preferiu pular a morrer sem ar.

Sobrevivência. Don DeLillo imagina, em Homem em Queda, um advogado sobrevivente do WTC que tenta retomar a rotina após a convalescença. Sua vida, evidentemente, jamais será a mesma - como de resto, a nossa. O fim dessa história quem se encarrega de contar é Corman McCarthy no pós-apocalíptico A Estrada (2007), que se passa num planeta já devastado onde pai e filho tentam sobreviver depois do que parecer ter sido um cataclismo nuclear.

A politização da literatura e o revisionismo histórico marcaram definitivamente a primeira década do século, assim como a incorporação da experiência pessoal num romance de natureza autobiográfica disfarçada - a que se deu o nome de bioficção, ou autoficção, com o preferem outros. O americano Jonathan Littel, criado na França e agora morando em Barcelona, escreveu com certeza o livro da década, As Benevolentes. Até no título, Littel, que acabou de completar 43 anos, fez questão de enfatizar o caráter trágico de seu ambicioso livro (prêmio Goncourt).

Esse também é o nome de uma tragédia de Ésquilo (As Fúrias, ou Erínias, sobre as deusas encarregadas de castigar os crimes, que em grego são as "benevolentes"). Littel fez trabalhos humanitários durante a guerra do Afeganistão (deflagrada após o 11 de setembro). Constatou que não poderia traduzir o que viu em linguagem literária. O escritor, judeu, assumiu, então, o papel de um oficial nazista em seu livro para examinar a natureza do mal. No papel do oficial Maximilam Aue, ele assume sua monstruosidade e diz a uma certa altura que não pediu para ser assassino. Só queria fazer literatura.

A questão ética volta, enfim, a rondar as páginas literárias após o desbunde amoral pós-moderno dos anos 1980 e 1990. O inglês Ian McEwan se consagra na nova década um corsário moral e o sul-africano J. M. Coetzee faz da experiência pessoal um romance exemplar, misturando memória, ficção e erudição numa narrativa em terceira pessoa para criticar o novo barbarismo que surge justamente com os atos terroristas.

Ian McEwan, que já tem 30 anos de carreira, escreveu um livro extraordinário sobre culpa, Reparação (2001), publicado justamente no ano em que caíram as torres gêmeas. Mesmo sem se referir ao fato, ele fala da irreversibilidade trágica dos erros do passado. Reparação trata da tentativa de uma velha senhora expiar a culpa de ter incriminado um homem quando era uma imatura e invejosa aspirante a escritora. Tanto McEwan como Coetzee - em Diário de um Ano Ruim principalmente - são introspectivos e desconfiados sobre a possível reconciliação entre indivíduo e sociedade.

Biográfico. Outro grande escritor que vai buscar em suas memórias material para seus livros é o Nobel turco Orhan Pamuk. Ele também ajudou a formatar o novo romance com livros como Neve, em que o confronto de fundamentalistas e ateus numa pequena cidade turca serve como metáfora do grau de irracionalismo que fez surgir na década vozes poderosas como a da escritora Ayaaan Hirsi Ali, cuja biografia intelectual, Infiel, é um retrato apavorante de uma Somália ainda mergulhada no obscurantismo e na intolerância, dois dos temas mais frequentes na literatura da década.

A década foi também dos escritores de língua espanhola. O chileno Roberto Bolaño (1953- 2003) foi elevado à categoria de Borges nos EUA com seus livros que mesclam crônica política e referências autoparódicas. Humor e metalinguagem também marcam a literatura do escritor espanhol Enrique Vila-Matas, erudito que faz da citação seu maior recurso. Outro nome da Espanha que deve ser lembrado é o de Javier Marias. Entre os portugueses, um nome se destaca entre tantos, o de Gonçalo M. Tavares.

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