A voz que não saiu

Uma nova biografia detalha: a mesma sensibilidade que fez de Sinatra um gênio também lhe trouxe uma angústia sem fim

Francisco Quinteiro Pires ESPECIAL PARA O ESTADO NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

A sensibilidade é um dote perigoso. Apesar de tratada como atributo, a capacidade de sentir demais pode ser um atalho para o abismo, com o qual um dos cantores mais famosos do século 20 sempre flertou. "Frank Sinatra sentia tudo profundamente", diz James Kaplan, "e essa sensibilidade extraordinária fez com que sua carreira fosse brilhante e sua vida, miserável".

Escritor norte-americano, Kaplan exerce uma paixão zelosa por Francis Albert Sinatra. Sobra nele o que falta aos biógrafos do Blue Eyes: empatia. Os livros sobre "um dos artistas mais comentados da história", segundo Kaplan, tem o sensacionalismo como barreira contra a verdade. "Nenhuma das muitas biografias lançadas traz o gênio musical de Sinatra para o primeiro plano." É mais sedutor falar do comportamento odioso.

As fofocas, Kaplan notou, prevaleciam nas biografias, mas eram evitadas por músicos que conviveram com Sinatra e que ele conheceu em um jantar festivo de 2004, na Califórnia. O domínio sobrenatural da própria voz veio à tona. O resultado da descoberta realizada naquela noite é Frank: The Voice (Doubleday, 800 págs., US$ 35, sem previsão de sair no Brasil). A volumosa biografia se arroga uma tarefa complicada - compreender o que Frank Sinatra sentiu e pensou entre 1915 e 1954. Restrito, o período é simbólico. Começa no nascimento em Hoboken, Nova Jersey, e termina no renascimento do artista para o sucesso. "Por conta da associação com a máfia, do abandono da família para ficar com Ava Gardner e da mudança do gosto musical dos EUA, no início dos anos 1950 ele viu a própria carreira definhar até a morte."

O corpo e a mente do cantor de hábitos desregrados estavam em frangalhos. Mesmo irritado com o próprio comportamento, agravado pelas noites mal dormidas e pelas bebedeiras incessantes, Sinatra estava condenado a repetir erros e agir como uma criança mimada. Era incapaz de compreender que o mundo frustra sem dó os desejos de um indivíduo. "Ele sentia uma impaciência assustadora consigo mesmo e com os músicos se não realizasse à perfeição o que se julgava capaz", diz Kaplan. "Os momentos de calma e prazer eram raros." Quem se relacionasse com ele tinha de aceitá-lo.

Ao Estado, o biógrafo lembra um exemplo da arrogância de Sinatra ocorrido nos anos 1960, portanto fora do escopo de Frank: The Voice. "Em Las Vegas, ele partiu para cima de Carl Cohen, administrador do Sands Casino, porque Cohen não queria estender um crédito maior para o jogo. O funcionário do cassino era avantajado e, no revide, arrancou dois dentes do cantor. Ao perguntarem o que aprendera sobre o incidente, Sinatra respondeu: "Nunca brigue com um judeu no deserto"".

Um década antes, porém, Sinatra deu uma indispensável trégua a si mesmo. Em 1954, ele havia recebido o Oscar de melhor ator coadjuvante pela atuação em A Um Passo da Eternidade. Na mesma época, a contratação pela Capitol Records, gravadora de Los Angeles, proporcionou o encontro com o arranjador Nelson Riddle. Segundo Kaplan, os músicos da Costa Oeste eram mais dóceis que os pares da Costa Leste, atitude que facilitava o relacionamento com estrelas temperamentais. O fato é que Riddle concebeu os arranjos a serviço de The Voice. "Qual arranjador é louco de lutar contra a voz de Sinatra? Deem ao cantor espaço para respirar. Quando ele descansa, existe a possibilidade de o arranjador se sobressair", dizia Riddle. Na arte e na vida, Sinatra precisava reinar absoluto.

O segredo estava em associar a batida das canções ao que Riddle chama de "ritmo do coração", algo abundante no intérprete descendente de italianos. Kaplan considera fundamental analisar as origens do cantor para entender o estilo interpretativo. Nascido em 12 de dezembro de 1915, Sinatra foi criado por uma mãe dominadora e um pai passivo. Dolly Sinatra é comparada pelo biógrafo às mães italianas de perfil mafioso retratadas em romances do ficcionista Mario Puzo. Certa vez, o cantor admitiu sentir medo de duas pessoas somente, sendo uma delas a mãe, que fez de tudo, até praticar abortos ilegais, para elevar o nível econômico da família.

Os italianos, lembra Kaplan, eram tratados como seres inferiores nos EUA. Esse preconceito causou cicatrizes tão profundas na alma de Sinatra quanto o parto a fórceps no corpo franzino. A diferença é que das primeiras ele jamais se envergonhou - não aceitou anglicizar o nome artístico, apesar do risco de rejeição pelo mercado. O orgulho das raízes explica a admiração pela máfia, motivo de muitos problemas para o artista. Magricela, Sinatra gostava de se comportar como machão. E o mafioso era exemplo bem acabado de valentia, característica ausente no pai.

Frank Sinatra se casou com Nancy, filha de italianos. Mas exerceu poucas vezes o papel de marido fiel - as exceções foram os momentos que o casal gastou para conceber os três filhos.

No começo dos anos 1940, Sinatra incorporou a lição mais valiosa de Bing Crosby: ser um homem comum ao cantar. Crosby se destacou pela interpretação oblíqua e irônica, segundo Kaplan. Sem rodeios, Sinatra exibia fragilidade tendo consciência de que ela era forte arma de sedução. Ao transmitir vulnerabilidade, causou histeria nas jovens.

Para o biógrafo, Sinatra aprendeu com Billie Holiday a acessar o sentido das composições. "A arte de interpretar uma canção e a capacidade mágica de emocionar o ouvinte foram ensinadas por Billie." Na Rua 52 de Manhattan, onde a cantora se apresentava, o jovem percebeu ser possível transformar experiências reais em entonações comoventes. Ele adquiriu o hábito de falar - antes de cantar - as letras para entender o ponto de vista do compositor. Assim, a canção era tratada como um poema.

Sinatra desfrutou à vontade o sexo oposto até a atriz Ava Gardner aterrissar em seus braços, nos anos 1950. Kaplan poderia ter mencionado a atriz de Hollywood como outra pessoa a temer. Sinatra teve o azar de encontrar em Ava um indivíduo tão livre quanto ele. Frank: The Voice retrata essa mulher de beleza estonteante como o pior pesadelo do intérprete. E seu grande amor.

QUEM É

JAMES KAPLAN

BIÓGRAFO

Kaplan é um ensaísta badalado nos EUA. Além de perfis para a New Yorker, New York Times Magazine, Vanity Fair e Esquire, ele escreveu os best-sellers You Cannot Be Serious e Dean & Me. Tem como referência as biografias Eminent Victorians, de Lytton Strachey, e Fathers and Sons, de Alexander Waugh.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.