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A voz que grita para romper o silêncio

A Voz Adormecida, sobre a guerra civil, soma-se aos filmes de Pablo Berger e Pedro Almodóvar para retratar a Espanha

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2013 | 02h17

É raro que duas produções espanholas, e dois filmes indicados para o Goya, o Oscar da Espanha, tenham estreias quase simultâneas no País. É mais raro ainda que já exista um terceiro filme espanhol em cartaz, mas este é de Pedro Almodóvar, Amantes Passageiros, um nome que virou grife de aceitação internacional. Branca de Neve, de Pablo Berger, ganhou os principais goyas do ano, incluindo melhor filme e direção. A Voz Adormecida, de Benito Zambrano, concorreu em nove categorias e ganhou três, incluindo melhor atriz revelação para Maria León. O filme de Berger é melhor, mas há que ver A Voz Adormecida, para entender um pouco a realidade da Espanha, pós-Guerra Civil.

Luiz Buñuel definia-se como ateu, graças a Deus. E no monumental O Tempo e o Vento, o escritor gaúcho Erico Verissimo mostra o republicano ateu que foi lutar nas Brigadas Internacionais e voltou para Santa Fé (a cidade fictícia criada pelo autor). Ele conta como viu Dolores Ibárruri, a Passionária, famosa líder comunista, conclamar as multidões. É um relato tão fervoroso que o racional Tio Bicho observa que Vasco teve ali sua visão de Nossa Senhora.

Zambrano mostra mulheres confinadas numa cadeia após a vitória do generalíssimo Franco, na Guerra Civil. Caudilho de Deus pela glória da Espanha, Franco teve aliados muito fortes na Igreja e no latifúndio. Ao se instalar no poder, fez uma operação de limpeza. Simulacros de julgamentos, que levavam invariavelmente à pena de morte, produziram centenas, milhares de fuzilamentos. E, pelos anos e décadas seguintes, Franco empenhou-se em impedir que o século 20 chegasse à Espanha. Mais que a vitória ideológica da direita, foi a vitória do atraso.

A Voz Adormecida tenta dar conta desse momento, pós-derrota republicana. Começa numa prisão, onde mulheres são chamadas para a morte. O filme é sobre as que vão ficando, na cadeia e fora. Mostra homens, mas é fundamentalmente sobre mulheres. Duas irmãs, interpretadas por Maria León e Inma Cuesta. A primeira chega do interior para ficar perto da segunda, que está presa, e grávida. As presas são submetidas a um regime brutal. A madre superiora, que chama as comunistas de 'basura' (lixo), é o demo. Zambrano não deixa margem à dúvida sobre o partido que está tomando - é o dos derrotados e, neste sentido, alguns críticos já viram A Voz Adormecida como uma espécie de resposta a There Will Be Dragons, de Roland Joffé, com Rodrigo Santoro, sobre o criador da Opus Dei. Pode-se discutir a qualidade do filme de Joffé, mas é reducionismo dizer que o filme dele toma o partido da direita (e dos vencedores). Desde seu primeiro longa, Os Gritos do Silêncio, e depois através de A Missão e O Início do Fim, Joffé tem filmado perdedores, sempre atraído por questões de consciência. Zambrano não deixa de tratar do mesmo tema, por outro viés ou, até, quem sabe, como contraponto.

A irmã que chega é católica praticante, a outra é uma republicana fervorosa, que esteve envolvida em ações de resistência. São como as duas faces de uma Espanha que não deveria ter chegado ao confronto, pois aquela foi, afinal, uma guerra fratricida. Maria León de alguma forma toma partido - por amor à irmã, ao militante republicano (que também vai preso). A irmã não abre mão de suas convicções, não transige com sua consciência. Ao invés de se curvar, resiste. Não batiza a filha recém-nascida, não pede perdão por seus pecados - "Que pecados?". Seu último grito é pela República.

O filme tem o formato de um novelão, como se Zambrano criasse cenas extremas para levar o espectador à indignação, ou ao choro. O diretor não mente, pode ser que seja, ou é, parcial, um direito seu. Ele, ou seu produtor, talvez não acreditem muito na capacidade de discernimento do público, e o filme se abre com um letreiro de dedicatória às mães e esposas que choraram seus mortos em silêncio, e o filme busca agora romper o silêncio. O letreiro é redundante, somente coloca em letra impressa aquilo de que o filme trata - e que o mais distraído espectador identifica.

As melhores cenas são aquelas que escapam ao maniqueísmo e procuram retratar as pessoas como são, na sua ambivalência. A madre tenta forçar as detentas a beijarem o pé da estátua do Menino Jesus. Cria-se uma situação de tensão e violência, ela diz algo cruel e recua, consciente de que foi longe demais. Na mesa da família burguesa, em que o pai e os irmãos brigam - de novo a Espanha dividida -, o choro silencioso da mãe mostra que mulheres sofreram de ambos os lados. A representação desse sofrimento é a carcereira, que ajuda as irmãs. Não é um grande filme - grandes são suas atrizes. Mas é bom ver A Voz Adormecida, pelas questões que levanta - éticas, estéticas, políticas.

TALVEZ NÃO SEJA UM GRANDE FILME, MAS É UM FILME DE GRANDES ATRIZES

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