A voz marginal de Anna Antonacci

Intérprete faz dois recitais com canções italianas e francesas na Sala São Paulo

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2010 | 00h00

"Minha carreira é marginal. E não estou nada preocupada com isso." Anna Caterina Antonacci é assim. Mezzo-soprano italiana radicada na França, não grava discos, recusou contrato do Metropolitan de Nova York e canta basicamente o que quer. "Quem manda é minha voz. Quanto ao mercado, não estou preocupada", disse ao Estado, na manhã de segunda-feira, em um hotel da cidade. Chegou no fim de semana e, amanhã e quinta, canta na Sala São Paulo, dentro da temporada da Sociedade de Cultura Artística.

Nascida em Ferrara, ela não seguiu o caminho tradicional percorrido por tantos cantores de ópera italianos. Começou no coro e, sem formação específica, foi aos poucos interpretando papéis solistas. A princípio, muito bel canto, Donizetti, Rossini. "Confesso que nunca foi meu repertório preferido, são papéis em que me sinto presa, são muitas as restrições e isso me passa uma sensação de que aquela é música velha, parada no tempo."

Para os operários de plantão, declarações como essa podem soar como heresia digna de punição nas fogueiras da tradição lírca, mas ela não parece preocupada. Com o tempo, encontrou os autores barrocos. E sentiu-se em casa. "É com eles que me sinto mais livre para interpretar, os textos são incríveis, o casamento com a música, tudo. Paradoxalmente, os barrocos me parecem incrivelmente modernos. E, como intérprete, a sensação de liberdade é única."

Nos dois recitais em São Paulo, em que será acompanhada pelo pianista Donald Sulzen, ela interpreta canções francesas e italianas. "Nasci na Itália, mas vivo na França e as duas culturas estão muito fortes dentro de mim. O que me atrai em especial é o casamento entre texto e música, essa harmonia tão difícil de ser conseguida. É o casamento entre Fauré e Verlaine, por exemplo, que me interessa, assim como o de Respighi com Bocaccio", diz. Atriz consagrada, ela encontra também nesse repertório espaço para a interpretação. "O repertório de canções é uma faceta muito interessante da carreira de um cantor. Não há uma história, mas momentos, recortes, pequenos episódios. E o desafio é fazer o público compreender cada palavra, sentir a atmosfera que nasce da união entre música e texto."

No palco lírico, o grande papel dos últimos tempos de Antonacci foi a cigana Carmen da ópera de Bizet. Ao lado do tenor Jonas Kauffman, a atuação no Covent Garden, em Londres, rendeu a ela comparações com Maria Callas pela imprensa britânica (o espetáculo está disponível em DVD). Na mesma época, a mezzo se indispôs com o Metropolitan de Nova York, maior casa de ópera do mundo. Eles a haviam contratado para cantar Dona Elvira, em Don Giovanni, mas a substituíram pela prima dona Angela Georghiu, e lhe ofereceram outros papéis na temporada. Antonacci não quis.

"Não estou preocupada em construir uma carreira, em montar uma estratégia de marketing que se adeque ao estado atual do business do canto. Tudo que fiz até hoje mostra isso. Minhas escolhas seguem apenas os critérios da minha voz e do meu envolvimento pessoal. Se um papel me interessa dramaticamente, então eu o quero. Busco a intensidade da interpretação, um caminho para que eu possa me exprimir", diz.

Por isso, avisa de cara que não tem interesse em papéis alemães, de Wagner ou Strauss - "Tem gente capaz de cantá-los com mais prazer e muito melhor do que eu, portanto, para quê?" A convite do maestro John Eliot Gardiner, está considerando a possibilidade de cantar Eboli, no Don Carlo, de Verdi. E Cassandra, em Les Troyens, de Berlioz. "Veremos."

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