A voz do radical chic

Livro reproduz última - e rara - entrevista de Leonard Bernstein

João Marcos Coelho - especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

10 de novembro de 2013 | 02h14

Ninguém utilizou de modo mais eficiente e revolucionário as novas técnicas de comunicação da segunda metade do século 20 do que Leonard Bernstein (1918-1990). Durante catorze anos, ampliou de modo espetacular as plateias de música clássica nos Estados Unidos comandando a série de televisão Young People's Concerts; esmiuçou as mais diferentes facetas da arte musical em 53 programas de TV da série Omnibus. Além disso, é o músico com maior número de registros em áudio e vídeo do século, cerca de 400.

Lenny, no entanto, só gostava da comunicação quando tinha controle absoluto sobre ela. Manejou a mídia e a opinião pública com o mesmo talento com que galvanizou músicos e plateia, totalmente seduzidos por sua regência teatral que, porém, jamais abdicou de elevada qualidade artística. Por isso, ninguém, igualmente, no mundo da música do século 20, teve sua vida particular mais devassada.

Maestro, compositor de concerto e da Broadway, autor de inúmeros livros de ensaios e comunicador, Bernstein foi a maior celebridade da música clássica no século. Ativista político, tem ficha extensa no FBI norte-americano por seu envolvimento com a esquerda ainda como estudante em Harvard. Quando deu um jantar para um grupo de Panteras Negras em seu elegantíssimo apartamento da Park Avenue em Manhattan, um jornalista clandestino registrou tudo. Era Tom Wolfe, que se celebrizou a partir do artigo Radical Chic e chancelou em definitivo a celebridade do maestro, o primeiro americano a assumir a direção da Filarmônica de Nova York. Democrata até a medula, Lenny foi íntimo dos Kennedy e abriu publicamente sua condição homossexual, mas mantendo o casamento com a chilena Felicia Montealegre até a morte dela, em 1978.

Deu raras entrevistas jornalísticas. Em novembro de 1989, um ano antes de sua morte, abriu exceção para Jonathan Cott, um dos mais respeitados jornalistas da revista Rolling Stone. Eles conversaram durante doze horas ininterruptas na casa de campo do maestro em Connecticut. O material daria um livro, pensou Cott. Mas naquele momento foi obrigado a fazer uma edição enxuta de 8 mil palavras para a revista.

Pois agora ela finalmente está sendo publicada nos Estados Unidos na íntegra, em livro. Cott não diz, mas provavelmente teve seu pedido de entrevista aceito por Lenny porque este lera seu livro Conversas com Glenn Gould. O pianista canadense era seu ídolo confesso. Por outro lado, Cott resolveu, nos últimos tempos, abrir seu baú de entrevistas jornalísticas de fôlego e publicá-las em livro. Em seguida a este Dinner with Lenny , ele também lança Susan Sontag - The Complete Rolling Stone Interview.

De fato, Cott obteve uma entrevista excepcional, que ultrapassa largamente o nível jornalístico e ilumina aspectos do DNA musical de Lenny e sobretudo passagens importantes de sua carreira até agora desconhecidas. Que Lenny era desbocado, já se sabia. Mas na entrevista pululam expressões como "Richard-Fucking-Nixon" (nas gravações de Watergate, este chama o maestro de "son of a bitch"). Em outro momento, indeciso entre reger ou não a décima sinfonia, que Mahler deixou inacabada, confessou a um colega que "só tenho uma pergunta: será que ela vai me proporcionar um orgasmo?"

Todo mundo sabe, por exemplo, que Lenny convidou Michael Jackson para assistir a um concerto com a Filarmônica de Nova York: o astro pop foi ao camarim ao final do concerto e recebeu um abraço e um selinho nos lábios. Um tempo depois, quando foi convidado a reger um concerto papal no Vaticano em 1973 diante do papa Paulo VI, um amigo passou-lhe este telegrama: "Lembre-se: o anel, não os lábios".

Mas ninguém sabia que logo após um concerto no Carnegie Hall, onde regeu a Nona Sinfonia, Lenny foi comemorar na mais famosa e underground discoteca da época, o Studio 54. Cott, que assistiu ao concerto, ouviu da namorada que aquela performance da Nona tinha sido uma "sagração da alegria" e que precisavam comemorar dançando. Foram ao Studio 54, e a certa altura alguém os abalroou: era Lenny dançando.

Vodca e vinho. Musicalmente, a revelação mais interessante é a do disco preferido de Lenny, entre suas cerca de 400 gravações. Os músicos detestam apontar seu disco favorito, sua orquestra favorita. Lenny, alias, só concordou com a entrevista esclarecendo que não responderia a este tipo de pergunta. Capitulou na última pergunta, depois de doze horas regadas a vodca e vinho, com uma surpresa: é um registro de 1977, em que ele rege os 60 músicos de cordas da Filarmônica de Viena numa transcrição do Quarteto Opus 131 de Beethoven. Do lado pessoal, ele confessa candidamente que Alma Mahler, a viúva do compositor Gustav Mahler, quis levá-lo para a cama no Hotel Pierre, em Nova York .

Metralhadora giratória. Cott, agudo jornalista, arranca declarações que são granadas, nas gavetas dos elogios e dos insultos.

Desfila as maiores influências no finalzinho da entrevista: "Lao-tsé, Moisés, Cristo, Thomas Mann, Nabokov, Baudelaire, T. S. Eliot, Shakespeare, Rabelais..., mas, principalmente, meus alunos".

Sobre colegas de batuta, elogios a Sergei Koussevitzky, o maestro que o nomeou seu assistente em Tanglewood, ao lado, aliás, do brasileiro Eleazar de Carvalho ("meu grande Koussie"), Fritz Reiner ("meu grande mestre") e a Carlos Kleiber ("que gênio, ele é um mágico!"), mas dá uma porrada em Robert Craft, que grudou como um carrapato em Stravinski logo que este chegou aos EUA ("eu poderia matá-lo, ele estragou uma deliciosa reação entre Stravinsky e eu") e em Pierre Boulez, por criticar, sem dar nomes aos bois, sua interpretação de Mahler. Disse Boulez que a música de Mahler "exige um tipo de liberdade que precisa, por sua vez, da mais severa disciplina (...) todo o resto é histeria, que esvazia a música de seu profundo conteúdo". Lenny contra-ataca com vigor: "Não vou discutir isso. Boulez só está intelectualizando. E penso que este é um ataque direto a mim. (...) Você já ouviu Boulez em Schumann? Você é obrigado a sair da sala. Ele não ama esta música".

A ultima e importante correção histórica refere-se ao célebre concerto de 6 de abril de 1962 no Carnegie Hall, em que Lenny fez um discurso prévio ao público explicando que não concordava com os tempos extremamente lentos do solista Glenn Gould para o Concerto nº 1 de Brahms; respeitava, porém, o direito do pianista. Existe um CD com a gravação e o discurso do maestro. "Vou desfazer a lenda agora. A gravação da performance foi feita via transmissão de rádio no dia 6. Mas o primeiro concerto aconteceu na noite anterior, dia 5, em que o concerto foi executado muito mais lento, durou uma hora e meia. (...) No ensaio apenas com a orquestra, os músicos me perguntaram se eu estava louco ao reger tão lentamente (...) Disse-lhes que ninguém deveria rir ou protestar no concerto".

Além disso, a fala de Lenny foi previamente combinada com Gould. Detalhe decisivo: "a execução do dia 6 foi muito mais rápida, durou 50 e poucos minutos". A crítica quis intrigar maestro e pianista. Não conseguiram. Gould sempre foi ídolo de Lenny. A ponto de, ao enfrentar um impasse quando compunha, Lenny colocar a primeira versão das Variações Goldberg do canadense "para clarear as ideias (...); era a coisa mais linda que eu jamais ouvira".

Jonathan Cott extrai, nesta entrevista que se lê eletrizado como quem acompanha uma partida de xadrez, tudo que Lenny quis esconder. E conseguiu, ao menos até aquele jantar de novembro de 1989. As perguntas exatas levaram Lenny a baixar a guarda e explicar por que se considerava um maestro superior. Ele atribuía esta condição ao fato de ser um dublê - de maestro e compositor: "No pódio, tenho de me sentir como se fosse o compositor da obra que está sendo tocada, senão a performance não será boa. Tenho de me sentir como se estivesse inventando a obra naquele momento".  

Trecho

"Cott: Você encontrou-se ao menos uma vez com Alma Mahler?

Bernstein: Sim...

Ela tentou me levar para a cama. Muitos anos atrás ela estava hospedada no Hotel Pierre em Nova York - ela havia assistido a alguns de meus ensaios com a Orquestra Filarmônica de Nova York - e me convidou para um chá, que virou uma aquavit. Depois, ela me convidou para ver uma 'memorabilia' de seu marido em seu quarto...

Ela era gerações mais velha do que eu. Estava com o cabelo todo bagunçado e estava flertando como uma louca. Fiquei meia hora na sala de estar, um minuto ou dois no quarto. Ela era realmente como uma maravilhosa opereta vienense. Deve ter sido incrível na juventude…

Mas, em todo caso, Mahler não lhe dava atenção suficiente - e ela precisava muito ser satisfeita. Ele estava ocupado compondo a Sexta Sinfonia em sua pequena cabana, e ela se jogando de um lado para o outro da cama.

Mahler sentia-se terrivelmente culpado por tudo isso - daí o tema de "Alma" no Scherzo da Sexta Sinfonia(o tema, na verdade, está no primeiro movimento da sinfonia, e não no Scherzo); daí as margens da partitura da obra estarem cheias de exclamações como "Almschi, Almschi, por favor não me odeie, estou dançando com o diabo!" (estas anotações estão no manuscrito da décima sinfonia e não da sexta)."

"Dinner with Lenny"

Autor: Jonathan Cott

Editora: Oxford, 192 págs. (US$ 9,99 na versão para e-reader)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.