A voz das oprimidas

Claudia Llosa aponta, em Loxoro, as dificuldades das minorias sexuais

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2012 | 03h09

Termina hoje o Festival de Cinema Latino-Americano, que, em sua sétima edição, trouxe a São Paulo convidados internacionais e filmes que, sem o foro especial, teriam permanecido eternamente inéditos, sem nunca chegar aos cinéfilos da cidade. Os críticos reclamam que o mercado está formatado para a produção de Hollywood - e até ambiciosas produções brasileiras, como A Hora e a Vez de Agusto Matraga, de Vinicius Coimbra, que venceu o Festival do Rio no ano passado, ou Corações Sujos, de Vicente Amorim, baseado no best seller de Fernando Morais, estão no aguardo de salas, quase um ano depois -, e no caso específico da produção em língua espanhola, ainda existe a barreira do idioma.

Um programa especial, com o significativo nome de Fronteiras, encerra hoje o Festival Latino no Cinesesc. É formado por curtas do Peru (Loxoro, de Claudia Llosa, 28 min), do México (72, de Jorge Michel Grau, 15 min), da Colômbia (A Sombrinha, de Simón Brand, 14 min) e do Brasil (A Teu Lado, Leve, de Flávia Moraes, 19 min). A diversidade de temas e línguas do programa serve de síntese para o que se propõe o festival: eliminar as fronteiras que entravam a comunicação e o conhecimento.

A fronteira também pode ter, e tem, um significado mais amplo. Como no filme de Claudia Llosa, Loxoro, que passa, coincidentemente, no mesmo dias em que a TV paga reprisa, à tarde, o longa anterior da autora peruana, sobrinha do escritor Mario Vargas Llosa. Com A Testa Assustada, Claudia ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2009. Com Loxoro, recebeu, em fevereiro, nas Berlinale, o Teddy Bear, o Urso gay, na categoria curta.

O título refere-se à língua falada pelos gays e transexuais do Peru. Numa sociedade machista e repressora, as pessoas 'diferentes' tendem a ser discriminadas - e o objetivo de Claudia é justamente tirar as aspas desse diferente, mostrando que, de perto, ninguém é normal e, nos sentimentos, nas necessidades afetivas e sexuais, somos todos muito mais próximos do que talvez gostaríamos.

Na época de sua premiação com o Urso de Ouro, falando sobre A Testa Assustada e sua personagem que introduz uma batata na vagina, para prevenir/impedir o estupro, Claudia chegou a definir o filme como uma metáfora do rompimento e acrescentou: "Um país reprimido (como o Peru) só pode se expressar por meio do inconsciente - seus medos, seus traumas, seus mitos". Psicanálise elementar - o corpo da mulher, a personagem interpretada por Magaly Soler, expressa o vazio que precisa ser preenchido. La Teta Assustada (o título em inglês é The Sorrow Milk) remete a um período recente da história peruana, quando guerrilheiros, até como intimidação, estupravam as mulheres índias nas pequenas cidades e aldeias. O corpo violado reagia e, após a gravidez, aos amamentar. As mulheres produziam um leite considerado ruim para os bebês.

Por que filma?, perguntou o repórter do Estado. "Para expressar nossa identidade, para colocar nossa cara na tela." Claudia poderia e, na verdade, deu a mesma explicação a propósito de Loxoro, quando seu filme foi apresentado na Berlinale. Loxoro foi produzido pela cadeia de TV a cabo TNT dentro de um projeto chamado Fronteiras.

No caso, o que o filme tenta devassar são as fronteiras internas, mostrando a segregação que gays e transexuais enfrentam em Lima - e, se enfrentam na capital, você pode imaginar que o preconceito é muito mais no interior do país. Loxoro conta a história de umas transexual que procura a filha que fugiu de casa e, muito provavelmente, está se prostituindo para sobreviver. Ela encontra figuras bizarras - aos olhos da normalidade relativa que rege as relações sociais -, La Pozo e El Oráculo.

O título refere-se à língua particular que falam essas pessoas. Como em La Teta Asustada, Claudia fez uma pesquisa acurada para penetrar nas sutilizas da comunidade GLBT. Na verdade, como ela disse, as personagens são fascinantes, até pelo estranhamento que produzem, mas o que a atraiu foi essa espécie de esperanto, a linguagem cifrada de que se valem para se comunicar, sem ser molestadas por ouvidos estranhos. La Teta Asustada nasceu de um livro que impressionou muito a diretora. Loxoro nasceu dessa linguagem da rua, um pouco chorada e o lamento, como o do leite produzido pela teta assustada, carrega uma dimensão de protesto em si mesma.

Ao repórter, Claudia Llosa disse que gostaria de ver surgirem muitas mulheres cineastas, não apenas no Peru, mas em toda América Latina. Essa militância é que move as duas transexuais de Loxoro (o filme) - Belissa Andia e Ariana Wésember -, no filme que transita pelas bordas do documentário e da ficção, exatamente como em A Teta Assustada. Claudia é muito atraída pelo mundo 'quéchua', pelas formas como as linguagem oral expressa um imaginário muito rico, enraizado na tradição. Mas, como ela reafirma, não quer ser uma diretora identificada somente com oi mundo andino. Loxoro já aponta para outros caminhos - e o seu objetivo é tornar o estranho familiar aos olhos de quem vê e ouve as queixas dessas transexuais.

A musicalidade dos diálogos e as canções são essenciais no cinema da diretora. Não foi por acaso que ela colocou uma cantora, Magaly Soler, no papel de Fausta, a protagonista de A Teta Assustada. "A música faz parte da nossa vida. Por meio do canto, o povo andino fala da sua dor. Funciona como um bálsamo, como o grito do povo quéchua que luta para sobreviver, a despeito de todas as adversidades. É a nossa tradição. Usamos mitos e velhas crenças para exorcizar o que nos faz mal."

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