A VOZ COMO GUIA

Do repertório coral à criação atual, o maestro Celso Antunes recusa rótulos

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

10 Março 2013 | 02h10

O célebre solo de fagote com que Igor Stravinski abre a Sagração da Primavera se impõe sobre o som da orquestra e nos leva de volta à origem da peça que é ensaiada na tarde de quarta-feira na Sala São Paulo: Sacre du Sacre, uma homenagem do brasileiro Marlos Nobre ao centenário da obra com que o autor russo, em 1913, sacudiu o establishment musical francês. Com a partitura em mãos, Nobre acompanha da plateia vazia a execução. Silêncio. E o maestro Celso Antunes se volta para ele. "Marlos, as pausas estão ok? Era isso?" O compositor acena positivamente, e caminha até o palco. Os dois observam a partitura, conversam. A música volta a soar. O autor levanta o polegar em sinal afirmativo.

A estreia da peça de Nobre é apenas um dos pontos nevrálgicos do repertório que Antunes, novo regente associado da Osesp, interpretou com o grupo desde o início do ano, sempre ligado à música brasileira. Em fevereiro, gravou um disco todo dedicado à obra de Almeida Prado, com as suítes feitas a partir da Sinfonia dos Orixás e de Estudos sobre Paris e a Fantasia Concertante para Violino e Orquestra; no dia 3, à frente do coro, estreou O Canto de Phoebus, de Edson Zampronha; e, hoje, comandando a Orquestra de Câmara da Osesp, faz a primeira audição mundial do Concerto para Viola e Cordas, de Vagner Cunha.

"É muito trabalho, mas feito com um prazer enorme", diz Antunes, entre o ensaio com a Osesp e seu conjunto de câmara, na tarde de quarta. "A peça do Marlos tem enorme complexidade, mas é de uma força impressionante." A conversa segue para o tema da modernidade. No programa que apresentou desde quinta, Antunes regeu, além de Nobre, peças de Camargo Guarnieri, Shostakovich e Borodin (leia ao lado). "Eu vejo um espelho nessas obras. Temos um autor moderno brasileiro e um mais antigo, que é o Guarnieri; e, de outro lado, Shostakovich, paradigma da modernidade russa, e um outro que está mais ligado ao passado, Borodin. Há muitos paralelos que podem surgir daí."

A música nova tem sido um eixo do trabalho de Antunes - no ano passado, por exemplo, trabalhou com o New Ensemble, em Amsterdã, em um projeto que levantou obras de 90 compositores brasileiros contemporâneos. Mas ele se sente à vontade tanto ao trilhar os caminhos da música nova quanto ao reinterpretar os clássicos de Monteverdi ou Bach. Mais do que isso - não vê por que precisa optar entre os dois universos. E a incapacidade, reconhecida e celebrada, de se decidir tornou-se uma das principais marcas de sua trajetória.

Nascido em São Paulo, o maestro começou na música pelo violão. "Iniciação musical de menina era o piano, de menino, o violão. Mas eu não via nada demais naquilo. Estudar música? Queria mesmo era jogar bola." A mudança ocorreu aos 14 anos, em São Caetano do Sul, quando cantou em um coro pela primeira vez, regido por Lutero Rodrigues. "Aquilo mexeu comigo. Eu me lembro até hoje: uma missa de Mozart, a primeira que ele escreveu. E de repente eu descobria que sabia cantar. E logo comecei a participar de tudo quanto era coro."

O violão, há muito abandonado, deu lugar ao violoncelo. E ao canto. E à regência. Antunes foi estudar na USP, largou o curso, foi ser aluno e assistente de Jamil Maluf na Sinfônica Municipal Jovem (hoje Orquestra Experimental de Repertório). "Mas eu nunca perdi a consciência das minhas limitações, sabia que havia muito a corrigir ainda. E resolvi que precisava lidar com isso lá fora, o que fiz com uma bolsa de estudos na Alemanha. Era para ficar um ano, acabei ficando três."

Na Europa, Antunes - sempre ligado ao canto - acabou se transformando em autoridade na música coral. À frente de grupos como o Coro da Rádio da Holanda, trabalhou - e gravou - com maestros como Simon Rattle, Zubin Mehta, ou Mariss Janssons. Foi indicado para o Grammy em 2010 por um CD com obras de Joaquim Turina e, no ano passado, seu disco com o conjunto holandês lhe rendeu a posição de finalista do prêmio da revista Grammophone. No Brasil, ele comandou a Camerata Fukuda.

"Você não tem ideia de quantas vezes ouvi de agentes: Celso, você precisa se decidir - você quer ser regente de coro ou regente sinfônico? Mas até hoje eu consegui escapar, fico escorregando como sabão. E uma coisa ajuda na outra. Monteverdi é uma lição na hora de tocar Borodin, e vice-versa. O que aprendo regendo um coro uso com uma orquestra. São dois mundos que as pessoas dividem, mas são uma coisa só."

A diversidade ele faz questão de manter também no que diz respeito ao repertório. Só evita obras para as quais não se julga pronto. E é particularmente honesto sobre isso. "Há coisas em que não coloco a mão. As sinfonias de Bruckner, por exemplo, eu não as entendo, não posso regê-las. O último Wagner, Parsifal? Nem pensar! Mahler? Eu me recusei muitas vezes até me sentir pronto para começar, no ano passado, aqui com a Osesp, com a Canção da Terra. A vida do músico é um constante aprendizado, não vejo nada de errado nisso."

Regente associado da Osesp, ele se define mais como um "principal regente convidado", disposto a "colaborar com o desenvolvimento de um grupo que tem um futuro brilhante". "Quero incluir elementos que permitam à orquestra fervilhar", diz. Monteverdi, Haydn, Mozart, Bach. "São autores que podem ajudar a orquestra a construir sua marca. Faremos isso."

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