Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

A volta por cima de Ney Latorraca

Um ano depois de chegar perto da morte, ator estará na TV e no teatro

Roberta Pennafort - Rio, O Estado de S. Paulo

15 de dezembro de 2013 | 11h00

“Tem gente que nasceu coadjuvante. Eu sou protagonista em qualquer situação. É uma atitude diante da vida.” Mesmo dita em tom de gracejo, a afirmação soaria arrogante vinda de qualquer um – menos de Ney Latorraca. Um ano depois de receber alta de uma internação da qual quase não voltou, o ator, que faz 70 anos em 2014, 50 de carreira, é a figura central de dois projetos, um na TV e outro no teatro, que têm lhe renovado o prazer de viver e de atuar.

Quarta-feira que vem, vai ao ar, na Globo, Alexandre e Outros Heróis, especial dirigido por Luiz Fernando Carvalho e adaptado de dois contos de Graciliano Ramos. Já depois do carnaval, ele estreia, em São Paulo, a peça Entredentes, de Gerald Thomas, com a qual deve viajar pelo Brasil e a América Latina.

“A melhor coisa é você voltar ao trabalho fazendo o que mais gosta. É o grande remédio. Eu venho da literatura adaptada, de Anarquistas, Graças a Deus, Rabo de Saia... Toda vez que eu faço, os livros voltam a ser vendidos”, conta Ney, que falou ao Estado num passeio pela Lagoa Rodrigo de Freitas, onde vive, na semana passada.

A “volta” a que Ney se refere não é só ao trabalho, mas à vida que conhecia até outubro de 2012. Foi quando ele se internou para operar a vesícula, um procedimento simples que acabou mal. Depois de ir para o quarto e vislumbrar a alta, teve uma infecção generalizada e acabou no Centro de Terapia Intensiva. A classe e o público se assustaram, já que Ney vende saúde desde que parou de fumar e passou a se exercitar, há uma década.

“Quando me contaram o que tinha passado, fiquei assustado. O que mais me impressionou foi tomar seis anestesias gerais e minha memória não ter sido afetada. Você muda totalmente seus valores depois disso, dá uma guinada de 700 graus. Só não consigo ficar calmo. Gosto de chegar cedo aos lugares (no local da entrevista, apareceu meia hora antes), já ganhei diploma de ‘parabéns, você pagou seu IPTU um ano antes!’. Sou uma úlcera”, brinca.

Dia 11 fez um ano que ele chegou em casa – 15 quilos mais magro e com muita fisioterapia pela frente. Assim que teve condições mínimas, voltou à rotina diária de caminhadas ao redor da Lagoa (faz oito quilômetros em pouco mais de uma hora, um ritmo bom para um senhor com histórico de quatro décadas de tabagismo) e ao Projac e já foi para Nova York ensaiar com Gerald.

“Claro que temi pela vida dele. Temi e senti na pele, na alma. Foram três dias sem dormir, sem comer ou algo assim. Fiquei completamente ligado nele”, conta o diretor. “Como o dirigi várias vezes e como nos encontramos em cinco ou seis países do mundo, sei muito dele e muito dele estará na peça.”

Os dois haviam se encontrado em Londres pouco antes da hospitalização. A peça, que começara a ser escrita pouco antes, se passa no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Ney vive um papel mediúnico.

Ator e diretor estiveram juntos em três espetáculos nos últimos 27 anos, e havia muito, queriam voltar a trabalhar juntos. “A pergunta do texto é: por que estamos fazendo essa peça? Pra que fazer teatro? Gosto de trabalhar com pessoas como o Luiz Fernando Carvalho, como o Gerald, que me acrescentam. E o Gerald trabalhou com quem? Sérgio Britto, Fernanda Montenegro, Ney Latorraca...”

A entrevista foi no quiosque da Lagoa que Ney considera sua segunda casa. “As pessoas enlouqueceram ao me ver de volta aqui. Um dia, estava aqui neste banco e uma senhora se ajoelhou e beijou minha mão.”

Mesmo de boné e óculos escuros ele é reconhecido. Pai e filhas turistas lhe pedem uma foto e ele não só posa, como puxa papo. “O caminhão de lixo passa e o lixeiro grita: ‘Seu Neyla!’ Sou de parar o trânsito, literalmente! Nasci para ser capa”.

Alexandre e Seus Heróis foi gravado em Pão de Açúcar, cidade de 25 mil habitantes do sertão de Alagoas (Estado de Graciliano, homenageado em seus 60 anos de morte). A estada não teve intercorrências médicas. “Não hesitei em aceitar. É uma história genial, li quando tinha 15 anos e me marcou”, lembra Ney, que faz um Alexandre de tom épico e quixotesco.

O personagem é um talentoso contador de histórias que encanta a todos que as escutam. “É muito bom poder contar histórias brasileiras às crianças, sem precisar usar Brancas de Neve”, defende o ator.

“Ninguém sabe ou domina tudo, essa é a lição do Ney, revelada o tempo todo enquanto se oferece para dentro de uma cena”, louva Luiz Fernando Carvalho. “Nesse sentido, ele se aproxima de Alexandre, que tem uma necessidade vital de imaginar e contar suas histórias, e que sem essa possibilidade estaria morto, vencido pelo excesso de materialismo do mundo.”

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