A volta por cima de Chico Anysio, no horário nobre

Aos 71 anos, 55 de carreira, 45 na televisão, Chico Anysio coleciona personagens. São 208 no total, de acordo com suas próprias contas. Os desafetos também são muitos, graças ao estilo falastrão. Mas, se o poder que já deteve na Globo minguou na mesma proporção que o apelo de programas como A Escolinha do Professor Raimundo, fora do ar desde o início do ano, restaram os amigos e parentes do mundo artístico, que não pretendem deixá-lo sem trabalho.Em família, Chico acaba de gravar o episódio Loucos de Pedra da série Brava Gente, sob a direção da sobrinha Cininha de Paula. Na história, que vai ao ar em maio, Chico vive um detetive. Será um aperitivo para o que vem depois: o artista plástico Agostino na próxima novela das oito, Esperança, de Benedito Ruy Barbosa, que estréia dia 17 de junho."O Chico é um dos atores mais importantes da tevê brasileira", justifica Benedito, cuja última novela, Terra Nostra, também contou com sua presença. Foi uma participação pequena. Chico fazia o velho Josué, pai do personagem homônimo de João Alba, que se suicidava ao perder no jogo a fazenda da família.O papel dramático pode ter surpreendido o público, mas não profissionais como o cineasta Cacá Diegues, que considera Chico excelente e, por isso, o escalou para interpretar o Zé Esteves de Tieta do Agreste. Mesmo depois de 25 anos sem filmar - o último trabalho no cinema tinha sido O Doce Esporte do Sexo, do irmão Zelito Viana - a interpretação rendeu prêmios de melhor ator coadjuvante no Brasil e no exterior. Também gerou o convite para viver o cego de O Mistério do Boi Surubim, num Brava Gente do fim do ano passado, outra breve aparição fora dos humorísticos.Desta vez, porém, Chico pretende fazer a novela inteira. "Isso vai depender do Benedito, mas, enquanto ele estiver gostando, eu fico", diz, anunciando dedicação exclusiva. Faz um mês e meio que ele não grava sequer o quadro de Alberto Roberto no Zorra Total. "Parei porque deixei crescer a barba para compor o Agostino. Já usei tanta barba postiça mudando de cara para os personagens que, se fizesse o mesmo na novela, não ia parecer real", explica.De visual novo, o ator aguarda o regresso do diretor Luiz Fernando Carvalho da Itália, onde grava cenas dos primeiros capítulos, para entrar em estúdio no Projac. "Meu personagem é quem abriga o Toni (Reynaldo Gianecchini) no Brasil quando ele vem fazer a América, nos anos 30", diz. Agostino vai funcionar também como cupido, incentivando o romance entre o jovem italiano e a judia Camille, personagem de Ana Paula Arósio.Pintor e escultor, o italiano contará com a habilidade verdadeira do intérprete na hora de produzir seus quadros em cena. "Eu mesmo farei as telas." Pela escultura, Chico não se interessa tanto. Se aparecer alguma na novela, o que é muito provável, será de outro artista. "Mas vou aprender os rudimentos para poder convencer nas cenas em que ele estiver trabalhando", conta. Quem sabe não descobre outro talento?Escritor e diplomata - O Chico escritor está em plena atividade. Acaba de lançar seu 17.º livro, O Canalha, pela Editora Globo. Nele, Chico percorre a história do Brasil de 1945 a 2001, sempre através das aventuras de um protagonista fictício, Genival, o próprio. "Sempre há canalhas nos governos e eu sintetizei todos eles num só. O Genival participa de tudo, mandou a Zélia fazer o Plano Collor e falou para o JK transferir a capital para Brasília", antecipa.Quem desconfia de que Chico aproveita para dar uma amenizada na barra da ex-mulher não se engana. Embora não se dêem bem - "Foi o único casamento que eu terminei. Os outros acabaram por iniciativa das mulheres", diz - ele e a ex-ministra da Economia do governo Collor têm dois filhos, Rodrigo, de 9 anos, e Vitória, de 7, e é até natural que o pai tente protegê-los. Pelo menos, desta vez o fez com mais diplomacia que há dois anos, quando, na ânsia de ajudar Nizzo Netto, arrumou briga com metade dos diretores da Globo.Talvez por isso Chico não queira mais assumir este tipo de responsabilidade. Casado pela sexta vez com a fisoterapeuta Malga de Paula, de 31 anos, e pai também de Lug, Ricardo, Bruno e Cícero, ele não pretende ter mais filhos."Cheguei a pensar em congelar meu esperma, para o caso de a Malga querer ter filhos depois. Como ela diz que não vai mudar de idéia, desisti", revela.Também anda evitando confusão. Tem contrato com a Globo até 2004 e espera renová-lo. "Apesar das brigas, é da Globo que eu gosto. Sinto falta de um humorístico. O humor é muito importante para mim. Mas nem considero propostas de outras emissoras. Não pretendo sair de onde estou", avisa.

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