Marcos de Paula/AE-18/10/2010
Marcos de Paula/AE-18/10/2010

A volta por cima de Beth Carvalho

Em casa por 18 meses, refém da coluna, ela faz apresentação amanhã

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2011 | 00h00

"Ansiosa" não é bem a palavra, Beth Carvalho explica. Ela está, sim, é "superanimada" para voltar para onde não queria ter saído. Amanhã à noite, depois de 18 meses reclusa, recuperando-se, em repouso absoluto, de duas cirurgias na coluna - a última apresentação foi na gravação do DVD de Dona Ivone Lara, no finado Canecão, em agosto de 2009, uma semana antes da primeira intervenção -, a cantora retoma seu lugar nos palcos, numa roda de samba das suas. Cantará sentada.

"Eu "tô" esperando por isso há muito tempo!", contou Beth na terça-feira, por telefone. "Tive que ficar de cama. Não fiquei deprimida, mas não sei de onde tirei tanta paciência e tanto bom humor. Só mesmo com a ajuda da família e dos meus amigos, que fizeram pagode aqui em casa pra mim."

Ela agradece a alguns dos afilhados artísticos que se engajaram nessa vigília durante o resguardo: Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Almir Guineto, Marquinhos PQD, Serginho Meriti, "os meninos" do grupo Fundo de Quintal... E também aos fãs que enviaram mensagens reconfortantes e esperançosas pela internet.

A permanência na cama (quando se sentava, sentia dores fortes) estendeu-se muito além da expectativa inicial de Beth - deitada desde janeiro de 2010, ela chegou a fazer piada em entrevistas dadas no meio do ano: "Estou pensando em fazer um show que vai se chamar "Na cama com Beth Carvalho"".

Mais para o fim do ano, a sambista, que em maio faz 65 anos, chegou a ser vista em eventos, sempre de cadeira de rodas: em outubro, durante a campanha eleitoral, esteve no ato de artistas pró-Dilma Rousseff; em dezembro, assistiu ao show de Zeca, que havia dedicado o CD Vida da Minha Vida à "madrinha"; em janeiro, fez questão de comparecer à posse da nova presidente e ao aniversário de 50 anos do Cacique de Ramos, grupo cujos compositores revelou em seus discos. Mas nada de cantar sobre um palco.

O repouso fez-se necessário para que o sacro, o osso da base da coluna que sofreu fissura, se calcificasse. Dois parafusos foram implantados - e isso faz da cantora "além de interplanetária, uma mulher biônica" (Beth brinca com o fato de sua voz em Coisinha do Pai ter sido tocada para "acordar" jipes em Marte, em missão da Nasa, em 1997).

Com muita fisioterapia, cinco horas por dia, de segunda a sexta-feira, Beth está bem melhor. Sente-se "curada pelo samba". Já dirige seu carro, que tem câmbio automático, perto de sua casa, no bairro de São Conrado. Anda pouco, e de muletas.

No palco do Sesc Rio Noites Cariocas, no armazém 4 do Píer Mauá, no porto do Rio, ficará no centro da mesa que vai reunir músicos amigos (serão dez à sua volta). "Estou muito feliz e emocionada por reencontrar meus músicos. Essa força é que me leva de volta para o palco", ela diz. Este será o último show da série, iniciada há três fins de semana.

Repertório. O público pode esperar marcos de seus 45 anos de carreira, como Coisinha do Pai (Jorge Aragão/ Almir Guineto/ Luiz Carlos), Vou Festejar (Jorge Aragão/ Dida/ Neoci), As Rosas Não Falam (Cartola), 1.800 Colinas (Gracia do Salgueiro), Ainda É Tempo pra Ser Feliz (Arlindo Cruz/ Sombra/ Sombrinha) e músicas de Nelson Cavaquinho, o centenário de 2011, como Folhas Secas, Minha Festa (ambas com o parceiro Guilherme de Brito).

Ela selecionou também um pot-pourri de velhos sambas de carnaval, como Eu Agora Sou Feliz (Jamelão/ Mestre Gato), Se Eu Errei (Risadinha/ Humberto Carvalho/ Edu Rocha), Recordar É Viver (Aldacir Louro/ Aloísio Martins/ José Macedo) e Pra Seu Governo (Haroldo Lobo/ Milton de Oliveira) - este, um de seus primeiros sucessos, faixa-título de seu terceiro disco de samba, de 1974 (relançado em outubro, remasterizado, na caixa Primeiras Andanças - Os 10 Primeiros Anos, do selo Discobertas).

Homenagem. O repertório tem também os sambas-enredo de que ela mais gosta, desses que continuam na memória do povo por muitos carnavais. Não só da sua Mangueira, mas também da União da Ilha, Império Serrano, Imperatriz, Vila Isabel, Salgueiro, Mocidade... (Neste carnaval, apesar da fragilidade física, Beth a princípio, vai desfilar na Mangueira, fazendo sua própria homenagem a Nelson, compositor que tanto cantou, e enredo deste ano da Verde e Rosa.)

Beth guarda uma surpresa para a abertura da noite: uma música nunca cantada e que "tem tudo a ver" com este momento de renascimento para a vida artística. Não, não é Volta por Cima. "O show tem esse caráter mesmo. A gente só dá valor às coisas quando perde."

Ainda este ano, ela quer gravar e lançar um novo CD, que vai se chamar Brasileiríssima. A produção é de Rildo Hora - é o resgate de uma parceria que vem dos anos 70. A escolha de repertório tinha começado antes da longa pausa e agora está sendo retomada.

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