'A Volta para Casa' trata de assuntos sombrios com inteligência

Espetáculo tem direção de Regina Duarte

Jefferson Del Rios, O Estado de S. Paulo

02 Dezembro 2014 | 02h05

Regina Duarte reuniu intérpretes vigorosos em A Volta para Casa, espetáculo que espelha tragédias políticas da atualidade. O tema duro das guerras é contado com o humor estranho de Mátei Visniec. Nascido na Romênia, em 1956, ele é geralmente associado ao Teatro do Absurdo, mas, ao contrário do conterrâneo Eugene Ionesco, ligado ao contraditório ou inexplicável existencial, Visniec faz política. O seu absurdo, como o do tcheco Václav Havel, é parte de uma cultura regional (Kafka nasceu e viveu em Praga), mas também surgiu da necessidade de contornar com metáforas surrealistas a tenebrosa ditadura estalinistas de Nicolae Ceausescu.

Toda Europa Central, além das Guerras Mundiais, é ainda vítima de lutas separatistas (agora mesmo, na Ucrânia) e ódios étnico-religiosos que vêm do fundo do tempo. Quando Ismail Kadaré, da Albânia, escreveu o romance O General do Exército Morto, o crítico Robert Escarpit, um homem que se arriscou na Resistência Francesa, comentou que "todo país tem pelo menos dois rostos: o da lenda e o da verdade". Neste enredo, um militar italiano tem a missão de exumar os restos mortais dos soldados italianos que ocuparam o solo albanês na última guerra. Fantasia e verdade em Kadaré, como delírio e verdade nos soldados de Mátei Visniec. Todos morreram e querem voltar para casa. Através das roupas e maquiagem, lembram bonecos e figuras de caixinha de música.

A Volta para Casa não menciona a Romênia (que tem a maior comunidade cigana da Europa e sérios atritos com eles) porque o tema abrange o mundo, excetuando as poucas ilhas de paz da atualidade. Está subtendido no texto o esfacelamento da ex-Iugoslávia quando as partes em conflito, sobretudo cristãos e muçulmanos, praticaram genocídio com requintes de barbaridade geralmente atribuída aos pobres e esquecidos países africanos.

O mesmo aconteceu com o separatismo de Kosovo da pequena Albânia de Kadaré e em toda franja do que foi a União Soviética: Chechênia, Ossétia do Sul, Abecásia. Bombardeios, massacres em massa, deportações. Mortos sem casa, mortos que o espetáculo expõe com uma linguagem calculadamente exagerada e de espantosa verdade. Impossível não rir com as imagens de Visniec, mas é inevitável levá-las a sério. Porque o inferno palestino-israelense continua, como prosseguem as degolas dos assassinos do "Estado Islâmico" no Oriente Médio, as armas químicas do ditador da Síria contra seu povo, assim como a ameaça de um ministro israelense de reduzir o Líbano "à idade da pedra".

É complexo tocar teatralmente em assuntos sombrios com inteligência, sentido humanista e ganho estético. Visniec usa a linguagem para criar imagens contraditórias, provocações melancolicamente poéticas e um tipo de graça que deve ter exigido bastante de tradutora Luiza Jatobá traduzindo provavelmente do francês (o autor vive na França desde 1987). A clareza em expor ideias ao mesmo tempo contraditórias e dar a elas um sentido ideológico e filosófico com um estilo original são os méritos do dramaturgo.

Um elenco apressado faria um pastelão de humor negro, mas Regina Duarte, como diretora, foi mais alto e mais longe. Usou todo seu domínio da palavra no teatro, cinema e televisão (são tons e ritmos de fala diferentes) para elaborar um discurso preciso. A força verbal é a base da representação (um exemplo: os mortos explicam o que é ter uma bala cravada no coração). A movimentação do elenco numeroso (18 personagens aparecendo e desaparecendo no palco) cria uma sensação de tensão e perigo em uma montagem visualmente simples (cenário), mas figurinos de impacto.

A música poderia ter mais peso emocional - a inquietante composição de Anton Karas do filme O Terceiro Homem, de Carol Reed, com Orson Welles, é o que vem à memória. A unidade do conjunto é outro ponto forte da direção. Em um grupo recém-criado e com uma proposta de pesquisa cênica, é sutil que a estreia se faça sem destaques ou solos especiais. Todo estão bons na reconstituição da massa anônima das vítimas de todas as guerras mesmo as não declaradas, mas reais. Merecem apoio para prosseguir o trabalho no qual Regina Duarte, atriz consagrada, volta como diretora segura às suas origens teatrais.

A VOLTA PARA CASA

Teatro MuBE Nova Cultural.
Rua Alemanha , 221, Jd. Europa, 
4301-7521. 6ª, 21h30; sáb.,
23h30. R$ 50/ R$ 60. Até 6/12

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