Epitacio Pessoa/AE
Epitacio Pessoa/AE

A volta dos que se calaram

Tata Amaral fala de Hoje, filme sobre a ditadura militar vista pelos que não verbalizaram o horror vivenciado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2011 | 00h00

Tata Amaral é a primeira a reconhecer e sorrir - "Meu set é muito chique." E é verdade. O fotógrafo de cena acaba de ser selecionado para uma mostra paralela na Bienal de Veneza. Não representa pouca coisa, mas Ding Musa não é exceção. O fotógrafo Jacob Solitrenick, a diretora de arte Vera Hamburger, o elenco (Denise Fraga e o uruguaio César Troncoso, de O Banheiro do Papa), são muitos os talentos, a par da própria diretora, que prometem fazer de Hoje um acontecimento. Um filme que se chama Hoje? Tata terminou ontem as filmagens em São Paulo e hoje participa de um pitching em Paulínia. Com unhas e dentes, garra e paixão, ela defende seu filme, que ainda necessita de recursos para ser finalizado. Por três semanas e meia, ela filmou em São Paulo, num decor praticamente único, um apartamento na Av. São Luiz. Agora, em Paulínia, ela vende a ideia de Hoje para conseguir finalizá-lo em estúdio. As cenas em Paulínia são fundamentais.

Na sexta (passada), quando o repórter do Estado visitou o set na Av. São Luiz, a cena parecia simples. Denise e Troncoso dialogam e, mais do que isso, brigam na cozinha do apartamento. Parece briga de casal, mas a diretora explica que a cena é essencial em Hoje. Acrescenta um dado e faz um pedido - o repórter não deve explicitar a natureza da cena sob pena de rebelar o twist sobre o qual repousa o filme inteiro. Estranha matéria. Sobre um filme e uma cena que deve permanecer nebulosa.

Mas vamos ao que interessa. Tata Amaral dispensa apresentações. É das mais talentosas diretoras de sua geração. Filmes como Um Céu de Estrelas e Através da Janela estabeleceram sua reputação. O relativo fracasso de Antonia foi um acidente de percurso e nem se pode falar de fracasso. O filme não foi bem de bilheteria, mas quem disse que esse é o único recurso de avaliação de uma produção? Antonia participou de festivais no País e exterior, virou série de TV.

Tata agora aborda os anos de chumbo. Ela já o fez numa série de TV, na Cultura. Hoje conta a história de Vera (Denise Fraga), que ganha indenização pelo desaparecimento do companheiro, durante os anos de chumbo da ditadura militar. Ela compra o apartamento da Av. São Luiz. No dia em que está se mudando, o marido reaparece. Como lidar com essa nova situação? Não é só o ambiente, o apartamento, que é concentracionário. Os personagens também são reduzidos. Dois carregadores, que fazem a mudança, a síndica do prédio. Denise é Vera, mas Vera também é Ana Maria, um nome de guerra (durante a guerrilha). O marido é Luiz, mas também é Carlos. O confronto é intenso. A diretora explica:

"Hoje é um filme que contesta os limites do realismo no cinema. Até aqui, tenho filmado sempre em locações, e Hoje não foge à regra. Mas preciso dessas cenas em estúdio, que ainda pretendo filmar em Paulínia. Elas vão dar outra textura ao relator." O cinema brasileiro tem feito muitos filmes sobre os anos de chumbo, mas os críticos e espectadores vão concordar que ainda falta o grande filme sobre o período - algo como o argentino O Segredo dos Seus Olhos, vencedor do Oscar. Tata explica o diferencial de Hoje - "Há filmes sobre a guerrilha e a repressão. Mas poucos, ou nenhum, aborda o tema que me proponho a enfocar aqui. Hoje é sobre os que calaram. José Genoino disse uma coisa interessante - na prisão, muitos companheiros, ele inclusive, tiveram tempo de verbalizar o horror, e isso os preparou para retomar a vida. Os que silenciaram, como foi o seu retorno? É o drama, a tragédia de Vera, agravada pela volta de Luiz. O que significa essa volta? Um desejo da mulher? Uma punição?"

Tata não trabalha sobre argumento original. O roteiro lhe foi sugerido por um texto de Fernando Bonassi. Ela conta que a história a atingiu como um raio. "Numa cena, eu precisava de uma carta que o marido teria escrito para Vera. Saquei de uma carta que Sergei, o pai de Caru, escreveu para mim." Sergei foi o primeiro marido de Tata, morto muito jovem. Caru, filha da diretora - e agora integrante da equipe de produção -, tinha 3 meses quando o pai morreu. O detalhe pode parecer insignificante, mas sintetiza o grau de envolvimento de Tata com o projeto. A história virou pessoal e, por isso, ela está ansiosa com a apresentação de hoje em Paulínia. Ela quer terminar logo o filme. "É uma história necessária, visceral." Tata manteve a ação em 1998. Se a transportasse para a atualidade, outras questões teriam surgido. A própria presidente Dilma Rousseff acha que essa questão da repressão do regime militar não está resolvida. "Não se trata de revanchismo", diz Tata. "A tortura é um crime de lesa humanidade. Se você encontrar um nazista, vai silenciar? Não, vai denunciar porque ele cometeu um crime hediondo, que extrapola uma pessoa e atinge a consciência da humanidade inteira. Hoje trata dessas questões. Pode parecer muito amplo, e muito ambicioso, mas é um tema que ainda precisa ser tratado."

O clima no set, nesse finzinho de rodagem, é peculiar. "Terminar um filme é sempre difícil", diz a diretora. "A gente forma uma família, convive junto, é sempre uma ruptura." Hoje não nasce com a promessa de vir a ser um blockbuster, mas um filme de autora. A expectativa é de que seja tão bom, ou até melhor, que os melhores filmes de Tata Amaral.Denise Fraga estah encantada com seu encontro com Tata Amaral.

QUEM É

TATA AMARAL

CINEASTA

Paulistana nascida em 19 de setembro de 1960, Tata Amaral é considerada uma das mais importantes cineastas brasileiras a partir da década de 1990. Entre suas obras estão Um Céu de Estrelas (1997), várias vezes premiada no Brasil e no ex-terior, Através da Janela (2000) e Antônia (2006), longa que virou série da Globo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.