A volta dos dinossauros da música eletrônica

Para relacionar meia dúzia de dinossauros do rock não precisa conhecer muito de música. Qualquer desavisado sabe assoviar pelo menos um hit de Rolling Stones, Pink Floyd, Paul McCartney, AC/DC ou Bruce Springsteen.

Claudia Assef & Eletrônica, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

A música eletrônica também tem a sua turma de dinossauros, artistas que conquistaram rugas no rosto em busca da batida perfeita. Impossível começar essa lista sem falar dos alemães do Kraftwerk. Eles são o equivalente dos Beatles para o rock. Na estrada desde 1970, o Kraftwerk ("usina de força", em alemão) é certamente o maior responsável pela popularização da música eletrônica, trabalho que os quatro "operários" do grupo sempre levaram muito a sério. De seu misterioso estúdio Kling Klang, em Dusseldorf, os alemães mandaram para o globo exatamente o que estavam produzindo: música feita por máquinas. Ou, como dizia o autoexplicativo disco de 1978 Man Machine: máquinas de carne e osso.

Hoje, com apenas um dos integrantes da formação original (Ralph Hütter), o Kraftwerk continua fazendo turnês (em 2009 tocaram no Brasil, abrindo para o Radiohead), mas raramente lança novas músicas. Em dezembro do ano passado, a EMI botou no mercado (claro que não no Brasil) um pacote luxuoso com sete discos remasterizados dos homens robôs.

Trocando em miúdos, para quem está chegando agora na música eletrônica e acha que Lady Gaga inventou os timbres eletrônicos que filtram sua voz, um toque: ouça Kraftwerk o quanto antes! Um bom começo para mergulhar na história do grupo é assistir ao documentário Kraftwerk and the Electronic Revolution, lançado em 2008, disponibilizado na íntegra no YouTube (em 18 partes!).

Se em 2010 o Kraftwerk parece ter ido tirar uma de suas habituais sestas - eles se retiram de cena para recarregar as baterias de vez em quando - outros dinossauros da eletrônica ressurgiram com novos trabalhos.

A dupla inglesa Chemical Brothers acaba de lançar seu sétimo álbum de estúdio, Further. Parece que foi ontem, mas lá se vão 15 anos desde que Tom Rowlands e Ed Simons juntaram psicodelia e graves potentes a serviço da pista de dança, criando as bases para o nascimento de um dos estilos mais populares da música eletrônica dos anos 90, o big beat. Further, o novo disco, traz o Chemical Brothers fazendo uma espécie de autoplágio, utilizando-se da fórmula que eles mesmos criaram. Por exemplo, uma das novas músicas, Another World, soa como uma versão estendida de Star Guitar, hit de 2002.

Ouvindo o disco melhor dá pra achar referências a várias fases do próprio Chemical Brothers. Prova de que a música eletrônica, a exemplo do rock, também já tem idade e relevância suficientes para manter-se viva bebendo nas próprias referências. Dinossauro, sim. Mas com estilo próprio.

O Underworld, responsável por um dos maiores hits que a música eletrônica já produziu até hoje, Born Slippy (aquela da trilha do filme Trainspotting), também mostra em 2010 que está em ótima forma, apesar dos mais de 20 anos de estrada. Em maio último, eles lançaram o novo single, Scribble, com download gratuito pela internet (para baixar é só entrar no www.underworldlive.com). A música é um delicioso aperitivo do 8º disco do Underworld, Barking, que será lançado em setembro. Dinossauro, sim. Velho, jamais.

Formada na Inglaterra em 1987 pelos irmãos Phil e Paul Hartnoll, a dupla Orbital circulou em palcos dos mais respeitados do mundo todo na década de 90 - esteve até no Brasil, em 99, onde tocou no saudoso Free Jazz Festival. O estouro veio com o single Chime, de 1989, música que motivou a reunião dos irmãos Harnoll no ano passado para a celebração dos 20 anos do hit. No próximo dia 20, o Orbital lança o primeiro material inédito em seis anos e até o final do verão europeu está com a agenda lotada de shows. Em abril, se apresentaram como headliners do festival americano Coachella e no próximo dia 27 são atração aguardadíssima do mega Glastonburry, na Inglaterra. Dinossauro, sim. Ultrapassado, não.

Leftfield. Mesmo sem lançar álbum novo, outro pterodáctilo dos beats eletrônicos que aterrissa na cena em 2010 é o duo Leftfield. Formado pelo DJ e músico Paul Daley e pelo produtor Neil Barnes, o Leftfield ganhou público e crítica no final dos anos 80/começo dos 90 ao fundir house com dub e reggae. Depois de 10 anos parado, o Leftfield volta representado por um dos integrantes da dupla original, Neil Barnes, e lotado de datas em festivais importantes, como o Benicassim, que acontece em 18 de julho, na Espanha, e o Creamfields, em agosto, na Inglaterra. Com agenda cheia, o Leftfield mostra que prestígio ainda conta neste mundo de modismos passageiros.

CLAUDIA ASSEF É AUTORA DO LIVRO E DO BLOG TODO DJ JÁ SAMBOU E TAMBÉM EDITORA EXECUTIVA DO PORTAL VÍRGULAP

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