A volta do pecado de 'A vida como ela é'

Fiel às mulheres, Sérgio Porto mapeia tipos como a recatada ou a ardilosa

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2010 | 00h00

No estúdio. O animado reencontro de Daniel Filho, Sônia Braga e Antônio Fagundes rendeu muito papo e boas risadas          

 

 

 

Passaram-se 43 anos, e, como era de se supor, levando-se em conta que a série As Cariocas foi atualizada para o século 21, do original de Sérgio Porto (1923-1968) restaram apenas A Desinibida do Grajaú e A Noiva do Catete. A Grã-Fina de Copacabana. A Donzela da Televisão, A Currada de Madureira e A Desquitada da Tijuca ficaram de fora; deram lugar, pelas mãos de Euclydes Marinho e outros roteiristas, a oito textos novinhos.

O humor cínico e a verve do cronista, de pseudônimo Stanislaw Ponte Preta - saudado por Jorge Amado, quando do lançamento de As Cariocas, como "o recriador da vida carioca, dono e senhor de sua língua viva, dos sentimentos, dos dramas, das alegrias, desesperos e tristezas da gente carioca" -, estarão na tela, diz Daniel Filho, que divide a direção com Amora Mautner e Cris D"Amato.

"O jeito irônico e gozador que existe no Sérgio/Stanislaw é o molho desses contos. Comédias de comportamento são de todas as épocas", acredita Daniel, para quem voltar a trabalhar com Sônia Braga e Antônio Fagundes "é uma alegria". "Continua a mesma química. Pena que foram apenas dois dias de gravação."

Casada há 30 anos, Júlia, A Adúltera da Urca, descrita pelo narrador como "de uma fidelidade à prova de bala", mulher que, "como o metrô, nunca saía da linha", subitamente se vê às voltas com a desconfiança do marido, certo de que está sendo passado para trás. O telespectador também é tomado pela dúvida. O clima lembra o de A Vida Como Ela É..., série com texto de Nelson Rodrigues, também com adaptação de Euclydes Marinho e direção de Daniel Filho.

Além de Sônia, Fernanda Torres e Cintia Rosa, Daniel chamou algumas das atrizes da nova geração de estrelas da Globo: Alinne Moraes é Nádia, A Noiva do Catete; Paola Oliveira, Clarissa, A Atormentada da Tijuca; Deborah Secco, Alice, A Suicida da Lapa. Adriana Esteves faz Celi, A Vingativa do Méier, e Alessandra Negrini, Marta, A Iludida de Copacabana. O elenco completo tem 150 nomes. A série já está toda pronta - o último "corta!" foi semana passada. Para gravá-la, o diretor optou pelo uso da supercâmera Red, de alta definição, a mesma de seus filmes Tempos de Paz e Chico Xavier.

É curioso pensar que A Desinibida do Grajaú, vivida num Caso Especial de 1994 pela ex-pantera Andrea Guerra, que causava furor ao aparecer de microshort, dessa vez caiu no colo da comportadinha Grazi Massafera.O papel de A Traída da Barra coube à apresentadora Angélica - que, a propósito, vai contracenar com o marido, Luciano Huck, como já fizera no cinema, antes do casamento. O detalhe: na vida real, o casal mora na mesma Barra.

Desavergonhadas, recatadas, adúlteras, "corneadas", ardilosas, inocentes. As personagens vão refletir as múltiplas facetas femininas que Sérgio Porto - um "perito em mulher", como é apresentado na primeira edição do livro - mapeou. A personalidade delas dialoga com a geografia de seus bairros, a alma das ruas por que passam.

Em A Noiva do Catete, por exemplo, antes de apresentar Luci Maria Simões, 24 anos, solteira, "carioca e bonitinha", o autor fala da "velha Rua do Catete", "a conservar ainda alguns sobradões de outrora, que resistem heroicos à fúria imobiliária". Luci (na TV, Nádia) parece uma mocinha solitária, para quem a única companhia constante é a do gatinho Pelé. Mas logo se descobre que seu pudor é de fachada.

Quando Marlene, a desinibida (que agora se chama Michele), se mudou para o Grajaú, "não houve homem das redondezas que não botasse os olhos nela", "tão apetitosa era". "Loura, saudável e bela, era moça moderna, talvez moderna demais para o bairro do Grajaú". Na série, entram bairros que praticamente inexistiam nos anos 60, como a Barra, e regiões que muito pouco se pareciam com o que se vê hoje, como o Morro da Mangueira, a nova Lapa e Ipanema.

 

O cronista do Rio

As Cariocas é um dos livros mais conhecidos de Sérgio Porto, comparado, por suas crônicas, a Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, e chamado de herdeiro de Machado de Assis. As palavras são do baiano Jorge Amado no prefácio de 1967.

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