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A volta do malandro

Biografia de Moreira da Silva ganha nova edição após quase duas décadas

Lucas Nobile, Especial para O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2013 | 02h15

Em meio ao debate nacional sobre o projeto de lei que pode liberar a publicação de biografias sem autorização, o relançamento de um livro 17 anos após sua primeira edição surge como um contraponto em toda a discussão. Trata-se de Moreira da Silva - O Último dos Malandros, biografia de um dos pioneiros do samba de breque, escrita por Alexandre Augusto.

A obra, finalizada em 1996, foi lançada no mesmo ano pela editora Record, com autorização por escrito do próprio Moreira da Silva (1902-2000), que nunca pediu ao autor para ler os originais antes da publicação. Na próxima semana, o livro retorna às lojas pela Sonora Editora, com o aval da família do biografado.

Mesmo com todas as liberações de Moreira e de seus herdeiros, a biografia está longe de ser chapa-branca, ou seja, de traçar um retrato do cantor e compositor apenas com suas qualidades e feitos, como se ele fosse um herói. Pelo contrário. O livro, que presta uma homenagem ao consolidador do samba de breque e apresenta seu cancioneiro para as novas gerações, relata passagens da vida privada de Moreira fundamentais para entender seu processo criativo e sua carreira.

Ao contar a trajetória do músico, que teve sucessos eternizados em sua voz, como Na Subida do Morro, Acertei no Milhar, O Rei do Gatilho, Amigo Urso, Olha o Padilha!, entre outros, a biografia apresenta os altos e baixos da carreira do artista. Ainda que o biografado, vivo durante a realização do livro, tenha tentado seduzir o autor com suas versões para algumas histórias.

Armadilha. "O fato de Moreira estar vivo e de eu ter convivido com ele foi uma enorme vantagem. Mas ele não tinha muita paciência, mentia muito e obviamente valorizava apenas a parte boa. Tive de fugir dessa armadilha. Dei sorte de cair nas graças de um antigo parceiro dele chamado Aidran de Carvalho, o Carvalhinho, que me contou os bastidores e muitos segredos do Kid", diz Alexandre Augusto sobre o biografado, conhecido e citado em suas canções como Kid Morengueira.

O livro fala de doenças venéreas contraídas por Moreira em sua juventude nos cabarés do Rio, da esterilidade do sambista (que teve uma filha adotiva, Marli), dos sambas comprados (algo comum naquele período) de autores como Wilson Baptista (1913-1968) e Geraldo Pereira (1918-1955), por exemplo, de incontáveis casos extraconjugais (não à toa, a biografia mostra que o samba 1.296 Mulheres, de Moreira, versava sobre ele mesmo, não sobre um personagem).

A obra trata ainda das escapadas do compositor nos turnos de motorista de ambulância como funcionário público, do câncer de próstata do sambista e de uma suposta turnê por Portugal em troca de favores sexuais ao cantor português Manoel Monteiro, entre outros episódios.

Com extenso trabalho de pesquisa de Alexandre Augusto, a biografia reforça a espontaneidade de um Moreira sem papas na língua ao se referir, por exemplo, a figuras de quem ele não gostava. "O Caetano é de araque, porque criticou o Ary Barroso na minha frente. Além disso, é bissexual. Não sou em quem diz isso, mas o mundo", diz Moreira em passagem da biografia que cita entrevista do sambista ao Jornal do Brasil, em 1992.

Homenagem. "Na primeira edição, tanto o Moreira quanto a filha autorizaram a publicação, leram com certeza e nunca implicaram com nada. Até porque o livro é muito preciso, não é uma obra sensacionalista. É uma grande homenagem a Moreira e a sua época. Obviamente todo ser humano tem várias facetas, e é isso que o livro tenta contar o mais fielmente possível", conta o biógrafo.

Logo após concluir o livro sobre Moreira da Silva, o autor, que hoje mora em Londres, tinha a ideia de tocar outro projeto: uma biografia de Glauber Rocha (1939-1981). Mas abriu mão da empreitada ao perceber que sofreria impedimentos dos herdeiros do cineasta baiano. "Intuí que teria problemas com a família dele. Seria muito frustrante passar anos nessa pesquisa e ver meu trabalho proibido. Simplesmente desisti", diz Alexandre Augusto.

No posfácio de Moreira da Silva- O Último dos Malandros, escrito para esta reedição, Alexandre Augusto escreve que recebeu apenas um pedido feito pela filha do sambista ainda para a primeira publicação, em 1996. Como Moreira ainda estava vivo, ela pediu que o autor não tratasse do câncer de próstata do músico no livro para não "chocá-lo". O pedido foi atendido e o biógrafo evitou usar a palavra no texto, "embora desconfiasse que ele no fundo apenas fingia não saber da doença".

"Acho que as boas biografias autorizadas serão feitas por jornalistas ou pesquisadores sérios, que terão confiança do biografado ou de seus herdeiros, e também do público leitor. Um profissional sério saberá negociar editorialmente sua obra, não vai querer assinar uma biografia chapa-branca. A conciliação é o melhor caminho para todos", diz Marcelo Fróes, um dos sócios-proprietários da Sonora Editora.

MOREIRA DA SILVA  O ÚLTIMO DOS MALANDROS

Autor: Alexandre Augusto

Editora: Sonora Editora (304 págs., R$ 39,90)

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