A volta do jornal de bairro

Não sei se você está no Facebook. Se está, não preciso explicar nada. Se não está, basta dizer que é uma ferramenta da internet que coloca as pessoas em contato, permitindo-lhes trocar mensagens umas com as outras, independentemente de onde estão. Você vai formando um grupo de amigos. É possível conversar reservadamente com apenas um deles ou postar uma reflexão para todos. É como se estivesse numa festa com gente da sua vida toda, só que não dá para tocar em ninguém de forma física.

Matthew Shirts, O Estadao de S.Paulo

15 de março de 2010 | 00h00

Sei que já escrevi a respeito do fenômeno. Mas o resultado não me satisfez por inteiro. Vou tentar de novo, agora que Facebook - e eu - estamos um pouco mais maduros.

São 430 milhões de adeptos do Facebook, ou FB, ou Face, como é chamado no Brasil. Se fosse um país, acho que seria o terceiro ou quarto mais populoso do mundo. Dá mais ou menos a população do Brasil e dos Estados Unidos juntos - e a população só cresce.

No meu caso, é útil e agradável. Encontro velhos amigos americanos do tempo do colégio e da faculdade espalhados pelos Estados Unidos, parentes que não sabia existirem (mais a respeito deles daqui a pouco), leitores daqui do Caderno 2 e da National Geographic, colegas de trabalho, outros editores de outras edições da National Geographic espalhados também pelo mundo todo, meus primos, meu pai (sempre chegado numa tecnologia), primos, filhos e por aí vai. Como disse, é uma festa.

A descoberta dos parentes desconhecidos foi surpreendente. Venho da mais sólida estirpe "caipira" norte-americana. Gente simples. No século 19, muitos deles atravessaram os Estados Unidos a pé. Viraram pequenos fazendeiros. Trabalhadores de todo tipo. Exploraram e colonizaram o Velho Oeste. Como nos filmes. Para se ter uma ideia, fui ver, certa vez, um grafite que meu bisavô fez numas rochas no deserto - com tiros de espingarda.

Os netos e bisnetos desse povo todo me encontraram. Pois é, caipira norte-americano adora um Facebook. Esses meus parentes são excêntricos, pelo menos para meus padrões. Não vou entrar em detalhes, mas a experiência me deixou um tiquinho preocupado com a minha formação genética.

Facebook é movido a alta tecnologia. Não sei quantos servidores e cabos e engenheiros são necessários para garantir o acesso a 430 milhões de usuários 24 horas por dia no mundo todo, inclusive por celulares inteligentes. Mas garanto que é muita coisa.

E, no entanto, como diz o meu irmão Phil, o resultado acaba parecendo um jornal de bairro. Esse é o ponto. É isso que é curioso. Não interajo com 430 milhões de pessoas. Apenas com algumas centenas de amigos. Dessas, talvez 100 participem de forma ativa da conversa comigo.

Fico sabendo que a Vanessa se casou. Da frase esperta que Félix, filho da Bia, disse no café da manhã. Que meu irmão não consegue sair de Washington D.C. porque neva demais. Maurício vai descobrindo pérolas da música popular que posta para nós. Meu amigo Claudio Edinger, um militante do Facebook, nos dá aulas da história de filosofia e de arte com aforismos diários extraídos de grandes pensadores. Minha mulher Luli coloca um desenho de vez em quando. Meu pai reproduz um artigo sobre como uma nova invenção vai mudar o futuro da humanidade. E por aí vai.

Também ?acompanho o progresso das fazendas daqueles que participam do jogo de Farmville no Facebook. Quem ganhou uma vaca nova. Quem precisa de ajuda para adubar suas melancias. Às vezes, sinto que moramos todos em uma pequena cidade rural e o Facebook é o nosso jornalzinho. É esse o seu segredo. Quanto mais as pessoas se globalizam, espalhando-se pelo mundo, mais elas anseiam pelos velhos e bons laços de comunidade.

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