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A volta de um pioneiro do nonsense

Textos e desenhos de Edward Gorey, que influenciaram artistas como Tim Burton, ganham primeira edição brasileira

DIRCE WALTRICK DO AMARANTE, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2013 | 02h11

Escrito em 1969, A Bicicleta Epiplética (Cosac Naify), de Edward Gorey (1925-2000), é o primeiro livro do escritor e desenhista norte-americano publicado no Brasil.

Com seus textos e desenhos, beirando o grotesco, Gorey influenciou artistas e escritores como Tim Burton e Lemony Snicket (autor de Desventuras em Série), e foi seguramente influenciado pelo nonsense vitoriano, quando o escritor e desenhista inglês Edward Lear passou a escrever e ilustrar textos desse gênero para crianças.

A Bicicleta Epiplética começa com um paradoxo próprio das narrativas nonsense: "Já não era mais terça-feira, mas ainda não era quarta". Se o bom senso é uma direção, um senso único e, como lembra Gilles Deleuze, exprime a existência de uma ordem com a qual é preciso escolher uma direção e se fixar nela. Os paradoxos, ao contrário, nos apresentam sempre duas direções, dois sentidos ao mesmo tempo. Eles são passado-futuro, mas nunca presente, ainda segundo Deleuze. Se a essência do bom senso é a singularidade, a do paradoxo é a pluralidade e a apresentação de dois sentidos ao mesmo tempo.

O livro de Gorey está dividido em capítulos aleatoriamente numerados: do capítulo dois pula-se para quatro, do quatro para o sete, do sete para o 11, sem que o leitor consiga entender a lógica dessa numeração. Isso só ressalta o fato de que as "leis normais" não são seguidas pelo narrador. Caberia lembrar aqui do diálogo entre o Chapeleiro louco e a Alice, em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll: "Já decifrou o enigma?, indagou o Chapeleiro, voltando-se de novo para Alice. 'Não, desisto', Alice respondeu. 'Qual é a resposta?'. 'Não tenho a menor ideia', disse o Chapeleiro".

Logo no início de Alice no País das Maravilhas, Alice reflete: "De que serve um livro sem figuras e diálogos?". Carroll não decepcionaria sua personagem, ele mesmo ilustrou as aventuras de Alice, embora fosse um desenhista amador. Seu contemporâneo Edward Lear, desenhista profissional, ilustrou praticamente todos os textos de sua autoria, assim como fez Edward Gorey mais recentemente, seguindo essa mesma tradição nonsense, na qual os textos dialogam com as ilustrações.

Assim, não só o texto de Gorey incorpora características do nonsense vitoriano, como também suas ilustrações são muito semelhantes às de Lear.

Os desenhos mais surpreendentes de Lear, em parte por causa de sua simplicidade, são aqueles de seres humanos que saltam excitados nas pontas dos pés com os bracinhos para trás como se quisessem voar. Todos têm um olhar fixo, como se estivessem alucinados ou fossem sonâmbulos. Os desenhos de Gorey incorporam essas características learianas.

As ilustrações de textos nonsense não produzem apenas humor, mas são também responsáveis pelo aparecimento do elemento propriamente grotesco.

Ao discutir a obra de Lewis Carroll, Roger Simpson afirma que, "para uma criancinha, ao folhear as páginas dos dois livros de Alice, o sentimento dominante nas ilustrações (se não me falha a memória) não é de comédia, mas de ameaça".

Na época em que os livros nonsense de Lear foram publicados, suas ilustrações não mereceram elogios incondicionais. Lear recorda um comentário feito por uma senhora, que afirmou nunca ter permitido "que seus netos olhassem meus livros, pois suas figuras distorcidas prejudicariam o senso de beleza das crianças".

As ilustrações nonsense de Edward Gorey, como já se falou, beiram o grotesco, o gótico, e, muitas vezes, "assustam", causando mais estranheza do que uma boa gargalhada.   DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É AUTORA DE AS ANTENAS DO CARACOL: NOTAS SOBRE LITERATURA INFANTOJUVENIL (ILUMINURAS, 2012)

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