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A volta de Scarface

Steven Bauer lembra o cult de De Palma, que sai em Blu-Ray

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2011 | 00h00

Entrevista

Steven Bauer

ATOR

Foi um dia importante, no circuito de arte dos EUA. Na noite de 31 de agosto, salas em todo o país exibiram, em digital, a versão remasterizada de Scarface, a versão de 1983, assinada por Brian De Palma. O Brasil ficou de fora, mas, a partir de hoje, o Blu-Ray chega às lojas, e com todos os extras a que o cinéfilo tem direito. É curioso observar que, na época do lançamento, o Scarface de De Palma, compreensivelmente, foi comparado ao de Howard Hawks, com Paul Muni, nos anos 1930. Muitos críticos não perdoaram o diretor aquilo que lhes parecia vulgaridade. Com o tempo, Scarface virou cult - a obra-prima do diretor? Numa entrevista por telefone, Steven Bauer, que interpreta o lugar-tenente do gângster Al Pacino - Manny Ray (de Manny Ribera) -, lembra como foi fazer o papel.

São quase 30 anos de Scarface e um filme desses marca uma trajetória. Ele foi uma bênção ou uma maldição em sua carreira?

Entendo a sua pergunta e percebo que você está querendo dizer que eu não fiz nada tão marcante, depois disso. Não é muito lisonjeiro, mas a verdade é que a experiência de Scarface foi uma dessas coisas que acontecem uma vez na vida de cada ator. Tínhamos a sensação de estar fazendo alguma coisa importante e, aí, quando o filme estreou, foi aquele massacre. Os críticos diziam que o filme era horrível, que nenhum de nós deveria ter orgulho de haver feito aquela "piece of sheet". Mas os fãs já apoiavam Scarface na época e o culto ao filme nunca parou de crescer. O Blu-Ray deve renovar ainda mais a velha paixão. Até hoje as pessoas me lembram quem eu fui no filme, como ele é grande. Não devem dizer isso para Al (Pacino), mas com certeza dizem para Brian (De Palma). Virou a nossa maldição, mas participar de obra tão grande é como entrar para o panteão do cinema.

Você é cubano, não deve ter sido um problema entrar na pele de Manny. Sim ou não?

Aí é que você se engana. Nasci em Cuba, mas vim muito pequeno para a América. Na época, fazia um show de TV, justamente sobre jovens cubanos nos EUA. Brian (De Palma) tinha um roteiro muito detalhado, escrito por Oliver Stone, que fez uma pesquisa brilhante. Brian sabia exatamente o que queria, mas nos liberou, a Al (Pacino) e a mim, para que encontrássemos imigrantes cubanos na Flórida. Foi um choque. Aqueles jovens odiavam Fidel (Castro) e seu regime. Haviam endurecido, na luta pela sobrevivência. Não tinham oportunidades, a América não desenhava outra via para eles que não a da violência. Eu, pelo contrário, tive uma juventude mais mansa e estava tendo a maior oportunidade de minha vida. Isso afetou minha maneira de interpretar o personagem.

Em que sentido?

Me forçou a olhar para Manny de outra maneira. As falas escritas no papel ganharam vida e eu pude entender suas motivações mais profundas. Brian exagerava, com certeza, mas hoje é possível ver que todo aquele exagero não era só uma coisa de estilo, mas a convicção que ele tinha de que só assim conseguiria captar a essência daquelas figuras e do seu estilo de vida. Se você reparar, esse exagero já está em O Poderoso Chefão - Parte 2, nas cenas que retratam o cabaré, em Havana.

Você está citando (Francis Ford) Coppola, e um filme com Al Pacino. De Palma começou emulando Alfred Hitchcock. Ele sempre foi um cinéfilo. Vocês conversavam sobre cinema?

Demais, e foi o que nos aproximou. Eu era bem jovem, louco para absorver. Brian era, como você diz, um cinéfilo. Filmar com ele foi como fazer um curso intensivo de cinema. Neste sentido, Scarface foi a maior bênção de minha carreira. Não me lembro de outro período tão intenso nem mais feliz.

Você era casado com Melanie Griffith. Isso ajudou para que ela fizesse Dublê de Corpo com o diretor no ano seguinte?

Estava junto, num churrasco (barbecue), quando Brian lhe propôs o papel. Dei a maior força para que ela fizesse. Assim como comigo, Brian teve um papel decisivo na carreira de Melanie.

Mas vocês fizeram só mais um filme juntos, A Síndrome de Caim. Você mantém contato com De Palma?

Ele morou muito tempo na França, se afastou da gente, mas quando nos encontramos o clima é sempre afetivo. Acho que, no imaginário dele, continuo sendo seu garoto. Ele próprio me disse que lamentou muito por não poder me incluir no elenco de O Pagamento Final (Carlitos"s Way), também com Al (Pacino). Simplesmente não havia papel para mim.

E Pacino?

Ele já era um astro, você sabe. Foi muito generoso comigo. Só vê-lo atuar já era um privilégio. Compartilhar as cenas com ele foi mais - um sonho.

SCARFACE

Direção: Brian de Palma

Distribuição: Universal

Elenco: Al Pacino, Steven Bauer

Preço: R$ 59,90

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