A volta de Di Melo, o ''Imorrível'' Soul Man

Um dos clássicos do soul brasileiro foi feito nos anos 70 por um cantor e violonista pernambucano radicado em São Paulo, que tocava em boates e levava vida dupla como pintor e marchand de quadros. Di Melo era seu nome e, até hoje, o disco homônimo, que tem a famosa Kilariô, nada perde para os melhores trabalhos de Gil e Jorge Ben.

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2010 | 00h00

Por isso, o fato de que é o único álbum produzido profissionalmente pelo artista em 35 anos levou quase todos à conclusão mais lógica: Di Melo morreu. O cantor já não era flor que se cheirasse. Boêmio de carteirinha, pendurou mais do que algumas contas e paparicou (diria mais tarde) mais do que uma boa leva de namoradas. Sofreu dois acidentes de carro e quando, no fim da década de 80, se estrepou em uma moto, deu ao público o motivo que faltava para que o óbito fosse atestado.

"Um dia um amigo me disse: "Di Melo, estão tocando o seu disco no exterior, dizendo que é um épico da MPB e lamentando que você tenha morrido de desastre de moto"", conta o próprio, em carne e osso, à reportagem do Estado. "Eu estava embalado. Senão, nem sei qual seria a reação. Papai do céu ajuda os bebuns e as crianças", esclarece o artista, que passa por uma espécie de renascença ultimamente.

Depois que Kilariô virou hit de festas universitárias com o ressurgimento do samba-rock, há mais de dez anos, um interesse renovado por seu trabalho tem aparecido em blogs de colecionadores internacionais. Di Melo animou uma plateia de 50 mil conterrâneos no Festival de Inverno de Garanhuns, no ano passado, e os diretores Alan Oliveira e Rubens Pásaro finalizam o documentário Di Melo - O Imorrível, batizado por uma brincadeira que o pernambucano faz sobre sua história.

Mas a verdade é simples. O artista mora, com mulher e filhos, há dez anos no Rio Pequeno. Passa por apertos financeiros (reclamou que não recebeu nada pelo relançamento de seu disco na série Odeon 100 Anos). Sobrevive vendendo o que sobrou dos quadros que adornam a sua casa. Mas a alma artística é inquieta e levou Di Melo a gastar boa parte de seu dinheiro produzindo discos amadores, com poucos músicos e bateria eletrônica. São produções muito aquém das de um artista que deveria ter chegado ao patamar de Gil e Jorge - este que, aliás, foi quem descobriu Di Melo - mas agora, amparadas por uma ótima banda que toca hoje à noite no Tapas Club da Rua Augusta, podem ser as sementes de um segundo grande disco.

DI MELO

Tapas Club. Rua Augusta, 1.246, telefone 2574-1444.

Hoje, a partir das 23 horas.

Preço: R$ 15.

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