André Dusek/ Estadão
André Dusek/ Estadão

A volta de Ariano Suassuna

Autor retoma suas longas viagens após sofrer AVC e infarto

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2014 | 02h06

O passo rateia um pouco e a voz, por vezes, fraqueja. Mas a disposição se revela imbatível, assim com o humor afiado - Ariano Suassuna está de volta à estrada. Depois de sofrer, em agosto, um infarto e um aneurisma cerebral, que o deixaram em repouso forçado, o escritor e dramaturgo paraibano de 86 anos retomou, nesta semana, em Brasília, as viagens a longa distância para ministrar suas famosas aulas-espetáculos .

Na Capital Federal, Ariano foi homenageado pela 2ª Bienal do Livro e da Leitura, tornando-se o segundo ídolo pop do evento, depois do uruguaio Eduardo Galeano, a arrastar uma pequena multidão para assistir à sua apresentação, na terça-feira. Com uma agenda agora mais restrita - fará no máximo duas longas viagens pelo Brasil a cada mês -, Ariano, em conversa com o Estado, depois de um bem servido café da manhã, comprovou que sua ironia permanece intacta.

"Tive um infarto e um AVC", contou ele. "Mas escapei dos dois. Eu não acreditava em praga, de médico sobretudo, mas agora acredito. Cinco dias antes, participei de um congresso de cardiologia, em Ribeirão Preto, e o foco era hipertensão. Depois da minha aula, me pediram para participar de uma mesa redonda com cinco médicos. Foi quando brinquei com eles: 'Não sei o que estou fazendo aqui. Não sirvo como cliente para vocês: tenho 86 anos, minha pressão é 12/8, não tenho nenhum problema do coração, meu perigo é o câncer'. Voltei para casa e, cinco dias depois, sofri um enfarto. Que bicho traiçoeiro que é médico..."

Ainda em Brasília, Ariano participou da oficialização da candidatura de Eduardo Campos (PSB) à presidência da República. Sem esconder sua decepção com o atual governo do PT, o escritor acredita que só Campos, a quem conhece desde garoto, tem condições "de continuar o trabalho político e social iniciado por Lula".

Militância, no entanto, apenas a política - jamais a cultural. "Não gosto da chamada arte engajada, prefiro colocar meu trabalho a serviço de minhas ideias", comenta. "As ideias de um escritor podem - e até devem - aparecer no que ele escreve, mas o autor não deve colocar sua obra a serviço de ideias. Gosto quando as ideias são visíveis na obra de um escritor, como acontece com Sartre. Mas, a minha militância em defesa da cultura brasileira é sustentada pela minha obra."

"Tenho uma pretensão danada", diverte-se Ariano Suassuna quando perguntado sobre A Ilumiara, romance em sete volumes no qual trabalha há 33 anos e cujo primeiro livro, O Jumento Sedutor, depois de inúmeros adiamentos, poderá ser lançando até o fim do ano. "Meu processo de escrita é meio estranho, mesmo. Quando me vem uma nova ideia, tenho de mexer no texto. A história do enfarte, por exemplo, precisa entrar. Não no primeiro volume, cuja escrita está pronta, esperando pelas ilustrações, todas feitas a mão, assim como é o texto, pois gosto do corpo a corpo com o livro."

Aquela que deverá ser a obra de sua vida vai unir romance, poesia, teatro e gravura. Estão previstas homenagens, como ao artista plástico Gilvan Samico, que morreu em novembro do ano passado. "Éramos amigos fraternos e, em um próximo volume, haverá um personagem que vai se chamar Gilvânio Simarco", comenta Ariano. "Foi o maior gravador do Brasil de todos os tempos e, no meio da minha tristeza, fiquei um pouco alegre quando li a manchete de um jornal, que anunciava: 'Mundo perde a genialidade de Samico'. Um raro caso em que o adjetivo foi bem empregado."

O comentário serve como motivo para Ariano levantar sua eterna defesa da verdadeira cultura. "Outro dia, saiu no jornal que um determinado guitarrista era genial. Sou escritor brasileiro, escrevo em português, assim, se aceitar que Chimbinha é genial, como vou qualificar Beethoven, Bach, Vivaldi, Mozart? Como de hábito, reclamei."

O mau humor, no entanto, é aparente - Ariano é homem de um sorriso acolhedor e a felicidade se espalha pela sua obra. Na noite de terça, falando a um grande público em Brasília, ele comprovou seu talento cômico. "Gosto de rir e de fazer rir. O que mais me fascina é saber por que rimos de determinadas histórias."

Para explicar o fenômeno do humor, lembrou de Aristóteles, que, na cultura ocidental, foi perfeito ao postular que "o cômico é uma desarmonia de pequenas proporções sem consequências desastrosas". "É difícil caricaturar uma mulher bonita, por exemplo, já eu, um cabra comprido, careca, narigudo e com sobrancelhas de taturana, é outra coisa. Eu sou uma caricatura", disse, completando: "Já passei por uma humilhação por parte da minha própria filha que, quando pequena, atrevida que era, ao ver uma caricatura minha publicada, disse que não era caricatura, mas o meu próprio retrato".

Suassuna ressaltou ainda o aspecto picaresco de suas novelas e romances, em que a "astúcia aparece como a coragem do pobre". De acordo com ele, "a picardia do homem do povo é bem diferente do trambique dos poderosos, pois se trata de uma questão legítima de sobrevivência". O encontro terminou com o escritor confessando sua "resolução de não morrer", exemplo do otimismo com que também vê o Brasil. "Não fiquem amargos e pessimistas com este País, é apenas uma minoria que não presta."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.