A volta da seleção inglesa

Colunista comenta fiasco dos jogadores ingleses na África do Sul.

Ivan Lessa, BBC

30 de junho de 2010 | 06h57

A brava rapaziada inglesa voltou a botar o pé em solo britânico por volta das sete da manhã de terça-feira, dia 29. Deu-se o sucedido no aeroporto de Heathrow. Voaram em classe econômica. Para rimar com o futebol praticado, por certo.

Bem armado o ferrolho, os adversários ocasionais, que são os jornalistas locais, estavam em sua maioria dormindo no ponto. Ou em suas casas ou casas de grandes amigos e de grandissíssimas amigas. Ninguém em Heathrow.

Foram, os subjugados do 4º poder driblados vergonhosamente pelos bravos rapazes comandados por... por... como é o nome do capitão mesmo? Bola entre as pernas, bola no ângulo, bola de lençol. Ninguém para segurar num time que tem Rooney, Paul Terry, Stanley Matthews e aquelas outras feras todas.

Aliás, eu que sou jornalista, embora sem diploma, já me coloquei a mim mesmo na banheira. Stanley Matthews foi há séculos e já morreu tem décadas. Senhor juiz uruguaio, senhores bandeirinhas, não fiquem aí parados feito uns dois de paus. Anulem-me logo. Cartão vermelho para mim. Não tomo parte da próxima Copa.

Tudo isso para explicar porque, embora profissional dedicado, não tenha comparecido a Heathrow às sete da manhã de um dia danado de quente. Não era preciso, fiquem certos.

Por volta de 10 da manhã, como um bom profissional, fui até o indiano da esquina (por sinal paquistanês, mas dá tudo na mesmo segundo as atuais tendências multiculturais) e comprei dois jornalões e dois tablóides. The Guardian e The Times, o primeiro liberal como aqueles béquis de antigamente (os líberos, lembram?) e o segundo conservador como um discípulo do Tio Patinhas. Em matéria de povão, e eu sou um democrata solto pela esquerda, beirando, em termos anglo-saxões, o petismo popular responsável de um Lula e uma Dilma, levei também The Daily Express e The Sun, ambos chegados à plebe rude, embora sábia, dando o devido desconto, como os melhores árbitros da Fifa, às suas atitudes direitistas, que não passam de fricote, tentativa de vender mais jornal, esses cacoetes capitalistas. Pão e circo querem? Pão e circo têm.

Eu queria saber o que estão os ingleses achando da hecatombe sofrida diante de uma Alemanha jovem, moderna e maliciosa, redimindo-se de tudo aquilo que a técnica das fábricas de armamentos pesados da outrora acachapante (e achacapante também), a Krupp, impingia aos, digamos, carrosséis holandeses.

Heathrow ou África do Sul não é lugar para se saber dessas coisas. Há muito jornalista com credencial, diploma e pelo menos 3 anos de Alcoólicos Anônimos atrapalhando o trabalho dos profissionais credenciados e para valer.

Jornalista, em pessoa, e de viva voz, ou laptop de porte médio, é algo que só dá um mau nome à profissão, que já conheceu dias melhores. Já as frutas de seu trabalho, depois de passar por um monte de gente alfabetizada numa redação abafada, dão o chamado recado. Ali, no meio daquela besteirada desenfreada, e mocinha mostrando o busto nu na página 3, dá para se catar, além das frutas (goiaba, pitanga, melancia), alguns frutos razoáveis. Texto limpinho, pouquíssimos erros gramaticais, ortografia de dar inveja a indivíduo com primário completo, e assim por diante.

Captei, após algumas horas de leitura, que a maior parte dos torcedores ingleses não estava satisfeita com o resultado final. Do jogo com a Alemanha e da campanha toda rumo ao Mundial. Não apreciavam principalmente o gol legítimo de Frank Lampard (acho, não ficou claro) anulado por um - vejam vocês, queixavam-se os mais exaltados - por um sul-americano qualquer e seus (ele que assim os chamou) "asseclas".

Ainda há ironia vencendo a barreira jornalística deste país. Mark Blithe, de 46 anos, natural de Doncaster, ponderou: "Os jogadores deveriam nos agradecer. Tiveram o melhor apoio no setor de transportes a que qualquer país pode ambicionar."

Nessa declaração, após 78 páginas lidas consegui um resumo e foi a única coisa digna de retenção mental.

Ufa! Duram est vita iornalistae, conforme sentenciou Sêneca num dia mais chato que os outros.

O que vem rendendo mesmo em matéria de discussão é o técnico. Outro de origem estrangeira, além do mais italiana, como se não bastasse suas outras faltas de qualidade (eles que dizem, insisto), tal de Flávio, ou Fábio, Capello. O agora notório "Homem dos Nove Milhões de Dólares" por ano, ou 6 milhões de libras, se quiserem fazer mais barato.

Não se demitiu depois do vexame sul-africano. Disse, sereno, que vai aguardar, sereno, mais umas serenas semanas até que a serena Federação Inglesa tome uma serena providência. Não, não vai tomar, claro. A 200 mil dólares por semana ou 30 mil dólares por dia, há que haver um Golfo do México cuspindo fora serenidades.

Já Portugal... Bem, vamos respeitar a memória de José Saramago. Pelo menos até sexta-feira.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Tudo o que sabemos sobre:
ivan lessacoluna

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.