A volta da onda espírita

E a Vida Continua quer chegar ao público em um ano difícil para a produção do País

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2012 | 03h02

E a onda espírita continua no cinema brasileiro. Iniciada com o longa de Glauber Filho sobre Bezerra de Menezes, prosseguiu com Nosso Lar, de Wagner de Assis, e Chico Xavier, de Daniel Filho, o melhor dos três. Os demais filmes da tendência não se deram bem. O ciclo ainda tem apelo? É a pergunta que cerca a estreia de E a Vida Continua. O filme de Paulo Figueiredo baseia-se no livro ditado ao médium Chico Xavier pelo espírito André Luiz.

André Luiz irrompeu no mercado editorial brasileiro em 1944, com um livro que se tornou clássico do espiritismo. Por certas características - era médico sanitarista, exerceu a função no Rio -, há quem sustente que se trata do espírito de Carlos Chagas. Em Nosso Lar, ele descreve uma cidade espiritual próxima à Terra, para onde vão os espíritos que acabaram de desencarnar.

Na forma de uma estrela de seis pontas, contém no centro a governadoria e é formada por módulos, cada um contendo a torre do seu ministério, como num centro administrativo. E a Vida Continua não deixa de ser um prolongamento de Nosso Lar, embora não seja o 2 do megassucesso, que o diretor Assis e a produtora Iafa Britz prometem. Os mortos do filme vão parar num hospital, cercado por um imenso jardim. A ideia do filme, como do livro, é de que a prática do autoexame é essencial para o aprimoramento espiritual, dentro da certeza de que a vida continua após a morte.

O filme segue as vidas cruzadas de uma mulher que vai se submeter a uma cirurgia delicada. É católica, mas a prática religiosa não preenche o espaço das dúvidas que a consomem. O marido tem outra e só espera por sua morte para legalizar a nova união. Ela conhece esse homem, que também vai passar pela prova de uma cirurgia. As vidas de ambos se cruzam numa teia de culpas, adultérios, rancores, assassinatos. Todas essas almas precisam se purgar.

O ano não está sendo bom para o cinema brasileiro. Com raríssimas exceções - a comédia E Aí, Comeu? -, a maioria, senão todos os filmes têm entrado em cartaz para sofrer a rejeição do público. Existem 1.001 tentativas de explicação para isso e há críticos que batem na tecla da mediocrização crescente da produção massificada. E a Vida Continua será exceção? Vai faturar? Ator de TV e cinema, Figueiredo dirigiu Médium: A Verdade sobre a Reencarnação, em 1980. O filme é menos kitsch que Nosso Lar, em termos de cenários e figurinos, sem chegar a ser, e nem é o objetivo, sofisticado. Os diálogos são excessivamente didáticos e expositivos, no seu afã de passar uma 'mensagem', e há um piano de fundo que produz exasperação. Lima Duarte diz seu texto com entonação solene. A única que faz diferença é Amanda Costa. A estrela de musicais tem carisma. É um oásis nesse deserto de boas intenções e mau cinema.

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