A volta ao passado (*)

Eu devia ter uns 16 anos quando vi as pessoas pela primeira vez. Estava na janela de um ônibus parado no engarrafamento e olhava as pessoas passando na calçada: homens, mulheres, crianças, mendigos, gordos, magros, feios e bonitos. De repente, eu os vi. Lembro-me da emoção e do alívio que senti. Alívio, sim. Eu vivia mergulhado em mim mesmo, amarrado à angústia e à delicia de me sentir único, especial. Até então, as pessoas eram parte das ruas, dos ônibus, dos botequins, elas eram parte de um mundo onde eu não vivia. Eu queria entrar na vida, mas nunca passava pela porta estreita que levava a meus semelhantes. Mas, dessa vez, da janela do ônibus, não. Eu não estava mais ali e as pessoas se moviam sozinhas, 'livres' de mim. Eram nítidas, não mais nebulosas. Senti uma espécie de amor pelas caras diferentes da minha, amor por seus defeitos: um nariz grande, uma roupa suja, um vestido pobre para a pobre moça, uma velhinha pedindo esmola, todos na solidão de suas vidas. Senti alívio porque eu nunca vira o mundo sem me incluir nele, desfocando os 'outros'com a sombra de meu nariz, com meu 'ego' lhes fazendo sombra. E pensei: "Como me veem eles? Afinal, quem sou eu?"Precisava descobrir. Eu vivera uma ilusão de mim mesmo e agora queria me encher de experiências, pecados, o que fosse. Entrei na sofreguidão de pertencer a um mundo simples, até mesmo o 'baixo mundo', onde estava a mística da perversão, a 'pureza' das putarias. No perigo e na morte estaria uma verdade maior, sempre ocultada pelos meus pais e professores. Comecei a viver nos becos e buracos de Copacabana.

ARNALDO JABOR, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2012 | 02h13

Um dia, fui ao maior dos perigos: o Mangue; fui sozinho, pálido de minha coragem. Minha chegada à 'zona do baixo meretrício' - como chamavam - foi um soco na cara. No Mangue havia uns tapumes que a prefeitura botava na frente das esquinas, para ocultar a prostituição pobre. O Mangue era um país ao avesso. Eram quarteirões de casas toscas, porta, janela e varandinha, onde se exibiam as mercadorias: as mulheres, diante das quais os homens se postavam como em filas de açougue, em filas de emprego.

Ao primeiro olho, tudo parecia um grande comício. Havia ali mais de mil pessoas ou seria meu olhar espantado?

Muitos anos depois (já contei isso aqui), botei essa viagem ao Mangue em meu filme A Suprema Felicidade, de 2010, que talvez seja a melhor cena que filmei em toda minha vida.

O que eu vi primeiro foram as línguas e os dedos. As mulheres ficavam repetindo como bonecas mecânicas o mesmo gesto em que as línguas se batiam entre os lábios, como cobras, e os dedos indicador e polegar unidos em "o", balançavam como num gesto trêmulo de 'Parkinson', como se todas estivessem em uma dança sincronizada. Esses gestos eram um 'marketing' de suas habilidades: "pela boca e por trás", significava. Eram mulheres apinhadas nas escadinhas e portais. Havia negras, brancas, louras pintadas, mocinhas fracas e, mais espantoso, quase todas seminuas, só de calcinha e sutiã em posições sem elegância sedutora: pernas abertas, seios para fora, cabelos espichados, bocas sem dentes, batons carmesins borrados, gritos e gargalhadas num descaramento proposital, pois ali (todos sabiam) era a cloaca barata, a vala comum, ali só estava a miséria do sexo, o proletariado do desejo.

Aquele mangue entrava em mim como uma sujeira salvadora contra a pureza a que me obrigavam.

Todos que enxameavam nas ruelas tinham uma fome de escracho para esmagar qualquer ilusão.

Tomei coragem e entrei numa casinha onde os quartos eram divididos em pequenos compartimentos como baias de cavalo, onde uma caminha suja de solteiro ficava debaixo de um São Jorge com luzinha. Havia baldes, cheiro de urina, ruídos de cópula, velas acesas e os eternos veados da faxina, pobres e feios, cuidando dos sanduíches e panos de chão.

Diante das casinhas sujas, os homens se postavam, baços, pobres, pardos, avaliando com olho morto as réstias de beleza ou juventude que houvesse por ali, enquanto as mulheres em rebanho diziam frases mecânicas tipo "vem cá, boniton!", "bouché!", "bouché!" (ainda havia velhas polacas pintadas), todas fazendo os gestos de dedo e língua como num festival de mudos. Se os puteiros de classe média fingiam de casa de família, aquilo semelhava um campo de concentração. Havia um clima de guerra, de gueto de judeus, estrelas amarelas, febre no ar. Havia ali um grande escracho com a liberdade; aquela suja liberdade era uma coisa a ser enxovalhada, morta a pedradas, esfregada na cara de fregueses e putas. As mulheres eram prisioneiras livres, se vingando nas poses safadas, se vingando de si mesmas.

Foi então que aconteceu.

De uma casa, em meio a uma súbita gritaria de pânico, um marinheiro mulato surgiu correndo desabalado e sumiu na esquina do Mangue em um segundo. E, na mesma porta, em câmera lenta, uma mulher apareceu, completamente nua, muito branca, usando apenas uma fita vermelha descendo-lhe entre os seios, obliquamente até a cintura, uma fita perfeita, rubra, como uma faixa de miss. Sua mão erguida com delicadeza apontava para cima e de seus dedos pingavam estrelas vermelhas. A mulher, branca de cal, de gesso, não era uma miss com faixa; a fita vermelha perfeita era a navalhada que o amante mulato desferira, antes de sumir na rua e, de seus dedos erguidos, o sangue caía como as flores rubras.

Anos depois, eu vi num museu aquela mulher do famoso quadro de Delacroix, simbolizando a liberdade francesa, de seios nus - a 'república' à frente dos cidadãos. E me lembrei sempre da mulher muito branca com a fita de sangue no busto. Peguei o ônibus e voltei para casa, mas, naquele dia, eu descobri o Brasil.

(*) Diante da paralisia política do País, retomo minha viagem para dentro...

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