A vitória e a maldade do homem imoral

Em Ladrão de Cadáveres, Patrícia Melo trata de impunidade e perdas

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2010 | 00h00

A escritora. Primeira obra inédita de Patrícia Melo é lançada nesta terça, 8, pela editora Rocco.

 

As perdas inspiram o novo romance de Patrícia Melo, Ladrão de Cadáveres, seu primeiro inédito pela editora Rocco. Na trama, o rapaz que serve de narrador troca São Paulo, onde vivia atrelado a uma rotina angustiante e competitiva, por Corumbá, cidade mais solar e tranquila. A situação muda quando ele se apodera da cocaína e do corpo de um traficante, filho de um rico fazendeiro da região, que morreu em um acidente de avião. É o suficiente para reavivar a ganância que conduz ao crime. "O que me interessa são as perdas", conta a autora, influenciada ainda por problemas pessoais, como relata nesta entrevista.

Você diria que o mal está embutido no homem?

Essa é uma questão complicada. Pouco tempo atrás saiu uma matéria no New York Times dizendo exatamente o contrário, que a bondade humana tem causas biológicas. Não consigo acreditar que a moralidade, nosso senso de justiça, a bondade humana sejam inatos ao homem. Pelo contrário, são construções da civilização. Claro que o meio é importante, mas não determinante. Na minha opinião, o homem é um animal cruel e feroz. Um ser voltado para destruição. A civilização é uma coleira, uma gaiola, para essa nossa selvageria. De vez em quando, escapamos da coleira e aí...

Depois de deixar a violência em um segundo plano, é o mal que lhe interessa mais?

Em Ladrão de Cadáveres, sim. Mas o romance fala também sobre perdas, em diferentes aspectos: referência moral, afetos, e também da morte. Meus interesses são cambiantes. Têm a ver também com a minha vida. Os últimos anos foram de muitas perdas. Perdi minha mãe. Minha única filha entrou na faculdade e foi morar longe de mim. Perdi amigos queridos. Vivi com John (Neschling) um momento difícil, que foi a forma deselegante como ele foi mandado embora da Osesp, uma espécie de morte para ele. John ficou muito tempo de luto. Minha analista, depois que acabei o livro, me disse: "Você precisava enterrar alguns cadáveres." No fundo, a gente escreve sobre o que precisa entender ? aceitar, pelo menos.

A luz de Corumbá contrasta com a ação sombria da narrativa.

Nós temos a ilusão de que, numa cidade pequena, onde todos se conhecem, onde a natureza é generosa, onde o ambiente é solar, a vida é melhor e o perigo, menor. Achamos que há mais fraternidade. Eu quis brincar com isso. É como se esse ambiente iluminado disfarçasse a maldade do meu personagem. Ele é íntimo, solícito, até gosta de você. No entanto, nada disso o impede de destruir a nossa vida.

Ladrão de Cadáveres, aliás, traz muita movimentação, diferente do anterior, Jonas, o Copromanta, marcado por uma violência mais mental que física.

Quando começo um livro, sempre quero experimentar, em termos de narrativa, de dicção, de composição de personagens. Jonas é meu personagem mais delirante, e eu quis escrever um livro em que a ação vertiginosa acontecia apenas dentro de sua cabeça confusa, a partir de uma realidade miserável e sem sentido, que ele recriava, de forma fantasiosa e significativa. Em Ladrão de Cadáveres, eu queria um personagem que age de modo imoral o tempo todo. E tudo dá certo para ele. Na verdade, é um pouco parecido com a situação do Brasil hoje: políticos roubam, enfiam dinheiro na cueca, na meia e, no final, todos se safam.

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