Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A vitória de Vitória

Rainha presidiu 64 anos de estabilidade política e crescimento econômico

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2018 | 02h00

Há suspiros saudosos e românticos pela monarquia. Talvez seja a podridão da nossa República tropical. Nossa vidinha linear colabora para sonhar com casamentos reais, duques, princesas e castelos. Existe uma avidez por tronos. Avultam sucessos nas telas tratando da longeva e popular Elizabeth II. Cresce o interesse público sobre a trisavó dela: Alexandrina Vitória. A monarquia das ilhas está na moda.

Hoje, 20 de junho, há exatos 181 anos, uma jovem tímida e baixa foi acordada no seu quarto ao amanhecer. Ela fora criada de forma estrita e vigiada pela mãe. A quase adolescente deve ter intuído que chegara a notícia temida e esperada. O arcebispo de Cantuária e o lorde Cunyngham anunciavam a Vitória que seu tio, o rei Guilherme IV, falecera um pouco após as duas horas da manhã daquele dia. Ao romper da alba de quase verão, a jovem que completara 18 anos no mês anterior (24 de maio) era declarada rainha das ilhas britânicas e do crescente império.

Nossa personagem era neta do rei que mais tempo havia governado a Inglaterra: Jorge III. Seria difícil supor que alguém ultrapassaria a marca de 60 anos de reinado do monarca que havia enlouquecido no trono. Ela era uma candidata improvável, já que seus tios eram numerosos. Mortes prematuras, abortos e falta de herdeiros tramaram os fatos que derrubariam a coroa no colo de Vitória. Daquele amanhecer em 1837 até 22 de janeiro de 1901, ela faria o mais longo e brilhante reinado da casa de Hannover. A Inglaterra de Elizabeth I, Vitória e Elizabeth II reforça a crença: os reinados de mulheres anunciam uma era de prosperidade e estabilidade.

Por motivos que consumiriam dezenas de páginas, ela acabou casando com o príncipe Albert de Saxe-Coburgo Gotha. No dia da cerimônia, 10 de fevereiro de 1840, Vitória usava um pouco usual vestido branco. Diziam que era para ser localizada com facilidade pela segurança. O traje de cetim com renda Honiton não foi o primeiro a chegar ao altar, mas inaugurou a novidade que se tornaria canônica: o branco da nubente. O conjunto era matizado pela safira que ela recebera do noivo Albert. O casal repetiu a experiência pouco comum de Jorge III e esposa Carlota: foram apaixonados e fiéis a vida inteira.

Vitória e Alberto geraram nove filhos, muitos dos quais foram associados a importantes tronos europeus. Vitória acabaria sendo a grande avó da Europa, espalhando os laços e a hemofilia por diversas casas reais. Os relatos são quase unânimes: ela foi uma boa rainha, excelente esposa e péssima mãe...

O imperialismo britânico atingiu o zênite. Em 1877, a rainha foi coroada imperatriz da Índia. Das colônias, em cima de pilhas de corpos de asiáticos e africanos, afluíram toneladas de riquezas.

Londres era a capital do mundo, graças ao poder econômico da Revolução Industrial, o poder da sua marinha e a expansão financeira e das ferrovias britânicas. Cultura? Buscava-se em Paris. Dinheiro? Mirava-se Londres. Em francês, o mundo fazia diplomacia; em inglês, tratava de negócios.

Sob o poder dourado dos banqueiros, escondia-se uma realidade terrível. A pobreza de milhões na Grã-Bretanha, a fome na Irlanda e os motins causados pela escassez ou pela falta de direitos políticos. Londres temia a “mob” (multidão) raivosa e faminta, ainda que a capital não tivesse experimentado o candor revolucionário de Paris do século 19. 

Na capital inglesa, havia um emaranhado de cortiços e ruas com esgotos a céu aberto e constantes epidemias de cólera. As condições de trabalho terríveis e a insalubridade das residências tornavam a expectativa de vida dos trabalhadores muito baixa. A tuberculose e a pneumonia ceifavam vidas inumeráveis. O Tâmisa era uma fedentina abjeta. Muitas fábricas ainda funcionavam em plena área urbana e a poluição do carvão mudava a cor de prédios e de árvores. Temerosos da massa turbulenta, as elites londrinas criavam casas de trabalho (workhouses) para concentrar e disciplinar trabalhadores em organizações muito próximas aos presídios, na tentativa de eliminar o ônus da pobreza. Muitas mulheres pobres engrossavam a renda familiar com a prostituição. Na metade do século 19, falava-se oficialmente em 8.600 prostitutas pelas ruas de Londres. Havia estimativas de que o número poderia ser de mais de 120.000. Além do comércio corporal, dezenas de milhares de mendigos, alcoólatras e ladrões tornavam o hábito de flanar pela capital um exercício perigoso. Demoraria muito para que as melhorias sanitárias e trabalhistas começassem a surtir efeito sobre a massa de trabalhadores. Tudo isso ocorreu em meio ao desenvolvimento da rígida moral vitoriana sobre os corpos e desejos.

Acima dos horrores das ruas infectas e perigosas, de colônias violentas, pairava Sua Majestade, a rainha Vitória. Em 23 de setembro de 1896, ela superou a marca do avô como a mais longeva governante do trono de Saint James. No ano seguinte, comemoraria o Jubileu de Diamante. A festa foi imensa. Não estavam apenas lembrando 60 gloriosos aniversários de reinado da agora viúva; comemoravam o apogeu do império, a glória do poder econômico e militar, o liberalismo triunfante e o glorioso sol vitoriano que substituía o inverno de qualquer descontentamento. Ao final, a frágil menina daquele 20 de junho presidiu 64 anos de estabilidade política e crescimento econômico. Que inveja, não é mesmo? Boa semana para nós, um pouco menos estáveis aqui no Brasil.

Mais conteúdo sobre:
Leandro Karnal

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.