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A visita

Ela entra empurrando a porta – que faz um barulho agudo de dobradiças esganiçadas

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2021 | 03h00

Na mesa posta, duas moscas sobrevoam um bolo de laranja. O meu café é sem açúcar. O dela, se não me engano, leva três colheres cheias. 

Na parede, o relógio cuco voltou a funcionar. Alguns chamariam isso de milagre.

Ao invés de usar a campainha, ela prefere bater palmas – como se estivesse em uma pacata cidade do interior. 

Não deixa de ser engraçado, já que ela poderia materializar-se na minha sala a qualquer momento.

Entendo que a nossa relação é especial e, por isso, é preciso manter certos códigos e pequenas cerimônias.

Preciso verbalizar: “Pode entrar”.

E ela entra empurrando a porta – que faz um barulho agudo de dobradiças esganiçadas. Percebo, veja só, que o primeiro passo dela para dentro de casa é, propositalmente (e até caricaturalmente), com o pé direito.

Não nos abraçamos. Não faz parte do nosso relacionamento. Um leve menear de cabeça, um sorriso de canto de boca e pronto.

Ela está cansada. Desaba na minha cadeira. Respira. Arruma o cabelo atrás da orelha. Seria ousado demais descrevê-la como “bonita”. 

Corto o bolo de laranja. Ela exagera no açúcar. Tudo está em silêncio. Só ouço o barulho da colher batendo na xícara.

Nunca me sinto suficientemente seguro para puxar assunto: “E aí?”. 

Ela fecha os olhos depois da primeira mordida no bolo: “Eu tô cansada”. 

“Eu não sou de reclamar, mas estou cansada. O que aconteceu com vocês? O que vocês ainda não entenderam? Meus braços podem dar conta da humanidade inteira, mas minha alma está um trapo. Vocês chamam isso de burnout, não é? Preciso de férias. Preciso que vocês tenham inteligência. Preciso que vocês parem de negar o óbvio. Não são vocês que amam tanto a vida? Não são vocês que choram à simples menção do meu nome? O que aconteceu? Por que, agora, desprezam tanto aquilo que sempre foi o mais sagrado? Desculpe o desabafo... No mais, caro amigo, sou uma artista, uma artesã. Não uma máquina, não uma retroescavadeira ou uma burocrata qualquer. Vocês estão me matando...”

Depois de um breve silêncio, conseguimos rir da ironia do “vocês estão me matando”. 

Ela voltou ao bolo de laranja. Mas não tinha muito tempo.

O cuco saiu da toca. 

Ela bebeu o resto do café em um gole só.

Antes de ir embora, agradeceu a hospitalidade, me olhou nos olhos e pediu para que eu me cuidasse: “Faça um teste. Fique em casa por duas semanas. Não receba mais nenhuma visita. Combinado?”. 

Respondo sim – e acho que sinto um pouco de febre.

É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’ E OBSERVADOR DA VIDA URBANA

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