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Ignácio de Loyola Brandão
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A visão mais forte da década

Uma imagem inesquecível: o Amazonas visto do alto e batido pela chuva

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2019 | 03h00

Há duas semanas, quando o avião sobrevoou Manaus, o comandante avisou: “Devido a um temporal violento, vamos voar por mais meia hora, não há condições de pousar”. Fui olhando pela janela, assombrado com a imensidão. Emocionado. Um verde espesso, compacto, que não acaba mais e senti uma calma incrível. A visão me fazia bem. Seis milhões e meio de quilômetros quadrados de árvores, não sei a porcentagem em relação ao Brasil. Tinham me pedido que lembrasse a visão que mais me impressionou nesta década e naquele momento tive certeza. É a do Amazonas do alto batido pela chuva. Vontade de chorar. Este é o pedaço de Brasil que querem devastar. E se acabar, acabamos todos.

Manaus. Última viagem literária do ano. Vim para um ato de resistência, a 34.ª Feira de Livros do Sesc Amazonas. Esta instituição que aqui abrange nove Estados – tem sido base da cultura brasileira e se vê ameaçada pelo Guedes, que também almeja um novo AI-5. 34 anos em pé é proeza, enquanto jornadas, festas, bienais e festivais vão sendo dizimados. Como disse Eduardo Alves da Costa, “não deixemos que cortem a voz de nossas gargantas”. 

Além do Palco/ Arena com palestras e shows as coisas aconteciam no Café Literário, no Bonde das Artes, nas Intervenções Artísticas e Lançamentos. Convivi com grafiteiros, caricaturistas, contadores de histórias, vi teatro, ouvi música nas Rodas na Praça, revi o amigo Paes Loureiro. Dori Carvalho, Myriam Scotti, conheci Pollyana Furtado, poeta e mulher de Thiago de Mello, Leila Leong, Thiago Roney. Uma figura se destaca nesse panorama, Tenório Telles, agitador cultural que há 20 anos mantém uma editora, a VALER, palavra de sentido duplo, Vá Ler e Valer, que publica amazonenses e tem resgatado clássicos perdidos no tempo. Como Simá, romance histórico do Alto Amazonas, de Lourenço da Silva, lançado em 1857, mesmo ano em que Alencar publicou O Guarani. E também levou a cabo a monumental restauração de Poranduba Amazonense (Kochiyma-uara Poranunb), de João Barbosa Rodrigues, publicado em 1890. Tenório Telles trabalhou dez anos nessa reconstituição em português e na língua nhengatu com suas lendas, contos mitológicos e cânticos. Com Tenório mediando fiz a mesa que fechou a Feira falando da literatura atual, da crescente censura e dos processos de criação. Bom quando se tem ao lado um sujeito que conhece literatura, escritores, sabe de nossas manias e rompantes exibicionistas, tem paciência, intervém quando necessário (ou quando falo demais), orienta as perguntas e consegue domar o “louco da plateia”, personagem comum em debates. Falando em Tenório, na antologia O Edifício Marquês de Sade há um conto dele lírico, inocente, poético, safado, sensual safado, Os Peitos de Mamãe, que provocaria a fúria de Damares, a louca dos Ministérios.

No mesmo final de semana, Milton Hatoum voltou à sua terra para lançar seu romance, Pontos de Fuga. Nem consegui ir ao dele para abraçá-lo e agradecer a comovente mensagem quando do prêmio Juca Pato, nem ele teve como ir à Feira me encontrar. Enquanto isso, Drauzio Varella passava por cima da cidade rumo ao interior do Amazonas para participar de um documentário e a viagem lhe rendeu belo texto sobre o Rio Negro. Não fosse Drauzio um craque. 

Voltemos ao momento da chegada. O comandante avisou-nos que demoraria uns instantes para o pouso. O avião chacoalhava na turbulência. Olhando pela janela, tudo que se via era verde, verde, verde em variados tons. Pensei: se cair aí nunca mais vão me encontrar. Quanto tempo eu sobreviveria? Do alto, a floresta parece tranquila, não é como sobrevoar um oceano inquieto, ondas violentas se arrebentando. Enfim, descemos. 

Meu hotel era ao lado do Teatro Amazonas e, no sábado de manhã, saí a caminhar pela rua olhando os casarões, hoje abandonados de uma época de fausto. Se alguém acha que a 25 de Março, em São Paulo, é um fervo ou muvuca inacessível, não conhece essa rua amazonense superlotada, com camelôs brasileiros e venezuelanos a cada centímetro a vender milhões de películas de vidro e plástico para celular e também relógios, pulseiras, colares, cuecas, calcinhas, bordados hippies, água gelada, sorvete, cupuaçus e pitombas, laranjas, abacaxis, sucos, medalhas, canetas, meias, sandálias. 

Acaso? Estava a ler a manchete do jornalzinho Manaus Hoje: “A arma falha e assaltante morde a vítima”, quando me vi puxado por uma mulherzinha diminuta que me enfiou um folheto na mão e suplicou: “Venha comigo. Faça uma dentadura, não vendi nenhuma hoje e minha meta tem de ser cinco”. Meta. Parecia gerente de banco em São Paulo. Só então percebi o número enorme de dentistas oferecendo de extrações a obturações, tratamento de canal, polimento de dentes, implantes em 24 horas. 

Mais um pouco e percebi o cartaz: Lotérica no Primeiro andar. A gente sempre lê que certas megas acumuladas saem ali pelo Norte e Nordeste. Quem sabe Manaus me daria sorte? Subi e no primeiro andar deparei com um curioso salão. Tinha cara de repartição pública, de INSS, ou antessala de Pronto-Atendimento hospitalar. Pois era a lotérica. Na frente dos guichês, centenas de cadeiras e o povo sentado. Cada um apanhava sua senha e sentava-se em ordem, sem atropelo. Olhos brilhantes, futuros milionários. 

Peguei senha para os “normais” e outra para os “preferenciais”. Sabia que não ia aguentar, estava sendo atendido o 97 e meu número era 291. Eu fazia hora para fugir do calor, a loja que abriga a lotérica tinha ar condicionado. Eis que um jovem se levanta e me entrega uma senha explicando: “Tirei duas, uma para mim, outra para um amigo, ele se foi, não teve paciência. Tome, use a dele, assim não precisa esperar tanto”.

Fomos atendidos, mas ainda me sentei para desfrutar o ar geladinho. Naquela sala vi o quê? O desespero e a esperança de sair dessa, porque o governo e os deputados só estão melhorando o andar de cima. E o dinheiro da educação vai para o Fundo dos Partidos. Os do andar de baixo continuam nos porões dos navios negreiros, sufocados, escravizados. Apesar de tudo meio corrido, deu para comer uma costelinha da tambaqui assado. Bom Natal e ano-novo para todos.

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