A visão do horror do século passado

Chegam às livrarias do País Tudo o Que Tenho Levo Comigo e A Pianista, de duas vencedoras do Nobel - Herta Müller (2009) e Elfriede Jelinek (2004) -, que atestam o vigor da narrativa feminina em alemão

Marcelo Backes, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2011 | 00h00

Quando Herta Müller ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2009, a surpresa foi grande. Quem era Herta Müller? Com o perdão pelo "eu", fiquei ao telefone das 8 da manhã às 6 da tarde do insigne dia tentando explicar. Sempre comendo pelas beiradas no prato bem servido da literatura germânica, que deu ao mundo três Nobéis entre 1999 e 2009, a autora se caracteriza pela linguagem pontilhada de metáforas e pelo lirismo da locução pouco usual, fundamentada num alemão às vezes um tanto arcaico. Tudo o Que Tenho Levo Comigo, seu terceiro romance no Brasil, dá mais uma prova disso.

Herta Müller - de quem eu traduzi o conto Canção de Marchar, incluído na antologia Escombros e Caprichos (2004), que organizei com Rolf Günter Renner para a L&PM e trazia também o primeiro texto de Elfriede Jelinek publicado no País -nasceu em 1953 em Nitchidorf, na região de colonização alemã do Banat, na Romênia. Seu pai foi membro da SS e sua mãe prisioneira num gulag. Herta estudou Germanística e Romanística em Temeswar e trabalhou como tradutora e professora de alemão. Negou-se a espionar para a Securitate, a polícia secreta romena, e foi presa e interrogada várias vezes. Em 1987 pôde abandonar o país, passando a viver em Berlim Ocidental.

Seguindo os rastros intelectuais de Georg Trakl e Paul Celan, Herta Müller é uma vítima do exílio e estuda o fenecer lento e irreversível das relações humanas. Já sua obra de estreia, Depressões (Niederungen, 1982), publicada no Brasil em 2009, chamou a atenção do público e da crítica. As narrativas do livro são breves, pouco mais que esboços marcados pela realidade da vida camponesa na Romênia, suas normas morais e sua tacanhice. As obras anteriores a Tudo o Que Tenho Levo Comigo tratam do ser humano abandonado a si mesmo, obrigado a abrir mão da pátria, a desconfiar do melhor amigo, a encarar o Estado como um inimigo. Elas quebram o silêncio, arrancam a mordaça, investigam o estigma, averiguam em que medida é irreversível a avaria anímica causada pelo tacão de um Estado que invadiu casa, família e ser (Herta Müller descobriu que até sua melhor amiga a espionava).

Tudo o Que Tenho Levo Comigo (Atemschaukel no original, um título que põe a respiração na gangorra), sua obra mais recente, saiu na Alemanha no mesmo ano do Nobel. Estamos na Romênia, 15 de janeiro de 1945, 3 da madrugada, 15 graus negativos, e a minoria alemã do país vive com medo. Leopold Auberg, homossexual de 17 anos, é levado de Hermannstadt ao campo de trabalhos forçados, o gulag de Nowo-Gorlowka, na Ucrânia. Ele nem sente medo dos russos, quer fugir ao gládio do Estado e da família que ameaça sua opção sexual. A viagem dura 12 dias: "Enquanto estamos viajando, nada pode nos acontecer".

Sua maleta é a caixa de um gramofone em que leva todos seus pertences, Fausto e Zaratustra entre os livros escolhidos. Eles vão ao fundo da maleta, dando sustentação à precariedade de seus objetos. Na prisão, Leo acaba trocando-os por alimentos, e 50 páginas do Zaratustra para enrolar cigarros lhe rendem uma medida de sal.

O gulag é um universo acabado. Tem acordeonista, barbeiro - profissão que rende privilégios -, uma débil mental que jamais descobre onde está, um bebum que morre preparando aguardente com hulha, um marido que rouba a sopa de sua mulher até ela morrer de fome. Não há honra que resista, conveniência que sobreviva, segurança que persista. O horror da fome é onipresente e a nostalgia, mandada embora com canções populares. Os famintos não são mais homens ou mulheres, não podem mais ser diferenciados, são objetos neutros. Leo esquece o homossexualismo, a pulsão que impera - solitária - é a fome: "Vou comer uma soneca", diz a certa altura. Quando até a erva daninha termina, os pratos são feitos apenas de palavras e as receitas de nada. Somos lembrados do cozinheiro de Günter Grass em Nas Peles da Cebola, mostrando com gestos entusiasmados e toda a verve como se prepara um assado sem ter carne - no nada.

A miséria absoluta é lavrada em beleza poética. A fome sai de Leo e se atira a seu prato como um cão esfaimado, salivas alongam a sopa, frangos magros parecem "farrapos de nuvens". O gulag é um mundo prático: os mortos são desnudados antes de o corpo enrijecer para que a roupa possa ser aproveitada - e antes que outro preso dispute o espólio. Na prisão, Leo, estranhado de si mesmo, apátrida, irremediavelmente machucado, só recebe uma carta, da mãe, comunicando laconicamente que tem um irmão: Robert, "nasc." em 1947. Ele vê um substituto no irmão, e que a mãe está lhe dizendo que ele pode bem morrer, pois isso apenas significaria mais espaço em casa. Depois de quatro anos, a vida melhora e todos recebem um salário para comida e roupas. Voltam a se tornar homens e mulheres e vivem uma segunda puberdade. Leo um dia ganha um lenço tão delicado (de uma russa que vê nele a imagem do filho desaparecido) que não tem coragem de usá-lo e o guarda.

Depois de cinco anos, quem não se suicidou, não foi fuzilado nem morreu de fome volta para casa. Mas nada diz, a tortura e a humilhação são maiores. E quando alguém consegue dizer algo, ninguém quer ouvir. As questões históricas não são debatidas, pelo menos não diretamente. A Romênia fora aliada de Hitler até agosto de 1944, depois, com a deposição do ditador Ion Antonescu e a invasão soviética, declarara guerra aos alemães, fazendo acordos que previam a entrega de todos os teuto-romenos. A deportação - 80 mil presos ajudaram a reconstruir a União Soviética - foi sempre um tabu, pois lembrava o passado fascista do país.

Leo também volta para Hermannstadt. Sai do gulag, mas o gulag não sai de dentro dele. O relógio da sala de seus pais embala a respiração, é a Atemschaukel do título original. Leo procura as termas homossexuais do passado usando o codinome de "o piano", mas não consegue reatar a vida onde ela terminou, é "o piano que não toca mais". Quando casa, ao voltar, e se muda para Bucareste, torna a frequentar parques escusos. O casamento dura 11 anos, mas quando dois de seus parceiros são presos, inventa uma mentira e foge para a Áustria.

Herta Müller jamais poupou seus conterrâneos teuto-romenos que aderiram ao nazismo. Em Tudo o Que Tenho Levo Comigo enfim concede voz aos inocentes. Não narra, ao contrário do que acontece em outras obras, sua própria experiência com os horrores do regime, como em O Compromisso, de 1997, também traduzida no Brasil - no original Heute Wär Ich Mir Lieber Nicht Begegnet (Hoje Eu Teria Preferido Não Me Encontrar Comigo) -, que aborda os rituais dos interrogatórios da Securitate e as viagens de trem da personagem central até o agente. Como num pesadelo, a vida passa pela cabeça da personagem. A estação final é o absurdo e o fluxo da consciência é interrompido ritmicamente pela entrada e saída de passageiros. O denuncismo e a traição são onipresentes, o medo acaba sempre vencendo e a loucura da realidade é tanta que a felicidade necessariamente se torna impossível. Assim como em Tudo o Que Tenho... não são feitas perguntas, não há pontos de interrogação, muito menos exclamações.

Vários dos capítulos de Tudo o Que Tenho Levo Comigo são meras resenhas sobre detalhes do gulag. Há momentos em que se percebe como é difícil gritar do interior do inferno estando fora dele. O artifício vence a sensibilidade. Há nuvens demais, muita lua, flores, noite, olhos e corações de um registro romântico. Desconfiamos de um narrador que joga com a única coisa que lhe restou, as palavras, e vemos algum perfume misturado ao sangue. A indignação poética não parece autêntica, apesar do horror. Imre Kertész e Primo Levi foram mais sisudos, mais contidos no verbo, e mais convincentes. Varlam Chalamov relatando a vida no gulag em Contos de Kolyma chega mais fundo. Louve-se, porém, uma autora capaz de inventar uma linguagem que lhe permite um acesso peculiar aos horrores do século 20, desde suas experiências pessoais com o regime de Ceausescu às experiências de outros nas prisões soviéticas.

No breve epílogo (posfácio, na verdade), Herta Müller esclarece que elabora, na autobiografia ficcional de Leo Auberg, as conversas com o poeta Oskar Pastior, seu conterrâneo, obrigado a encarar a vida num gulag após o fim da 2.ª Guerra Mundial, mais os relatos de outros sobreviventes, coletados desde 2001, e o que soube de sua mãe, que teve o mesmo destino: a autora nasceu três anos depois de a mãe voltar do gulag e é, portanto, um produto da capacidade humana de sobreviver. O plano era escrever um livro com Pastior, mas ele morreu em 2006. Só três anos depois Herta decide usar as recordações do poeta, anotadas em vários cadernos, aproveitando inclusive algumas de suas vigorosas criações como o Hungerengel (Anjo da Fome), companheiro onipresente de Leo.

Recentemente, descobriu-se que Oskar Pastior teria espionado outros escritores para a Securitate, um dos quais, Georg Hoprich, acabou se suicidando. Pastior foi chantageado pelo sistema, mas Herta também foi, e ainda assim resistiu. Mircea Dinescu, poeta romeno que pensou sob o mesmo sistema, defendeu Pastior e disse que era bom que ele estivesse morto, não vivenciando seu desmascaramento. Herta Müller se proclamou horrorizada, alegando que se soubesse do fato não teria colaborado com Pastior. Se foi só o acaso que permitiu Tudo o Que Tenho Levo Comigo, nós ganhamos com o acaso mais uma vez...

MARCELO BACKES É ESCRITOR, TRADUTOR, PROFESSOR E ENSAÍSTA, DOUTOR EM GERMANÍSTICA E ROMANÍSTICA PELA UNIVERSIDADE DE FREIBURG, NA ALEMANHA. AUTOR DE ESTILHAÇOS, MAISQUEMEMÓRIA E TRÊS TRAIDORES E UNS OUTROS, TODOS PUBLICADOS PELA EDITORA RECORD

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