A virulência de Chabrol

O thriller Trágica Separação pertence à melhor fase do autor que morreu em 2010

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2011 | 03h08

Precursor da nouvelle vague - o movimento de renovação do cinema francês por volta de 1960 -, Claude Chabrol deu à nova onda seus primeiros grandes sucessos de público, com Nas Garras do Vício e Os Primos. Mas logo em seguida ele iniciou uma carreira errática e só no começo dos anos 1970 reencontrou o rumo. A boa fase recomeça com A Mulher Infiel - precedida por As Corças - e prossegue com A Besta Deve Morrer, O Açougueiro e Trágica Separação. Este último está saindo agora em DVD. É admirável.

Quando Chabrol morreu, em setembro do ano passado, os críticos foram unânimes em destacar que ele foi o Balzac do cinema francês. Como o grande autor da literatura, Chabrol criou as suas cenas da vida burguesa, especialmente a de província. Ele próprio explicava sua atração pelas pequenas cidades nas quais gostava de situar suas tramas. Como glutão, gostava de filmar onde se comia bem e os restaurantes do interior da França o atraíam mais que os de Paris. Há um livro de receitas de Chabrol, com os pratos que mais gostava de cada região em que ambientou seus (grandes) filmes. Trágica Separação tem caráter de exceção. Foi feito na Bélgica.

Nunca houve uma fórmula específica, mas Chabrol, prolífico como era, alternava roteiros próprios - quase sempre em parceria com Paul Gégauff - com adaptações. Adorava a literatura policial. Georges Simenon, segundo ele, era o melhor, mas Chabrol adaptou Ruth Rendell, Ellery Queen e Charlotte Armstrong. É a autora da história original de Trágica Separação. No original, é La Rupture, A Ruptura. Retrospectivamente, falando do filme no livro com a entrevista que deu a François Guérif - Um Jardin bien à Moit, Um Jardim só Meu -, Chabrol disse que a primeira coisa que lhe atraiu no livro foi a possibilidade de oferecer outro grande papel a Stéphane Audran, com quem estava casado.

Bem antes das Helenas das novelas de Manoel Carlos, as mulheres dos filmes de Chabrol já se chamavam Hélène. A Helena de Trágica Separação apanha do marido brutal (e toxicômano), Jean-Claude Drouot, mas quando ele agride o filho ela foge de casa e trata de acelerar os trâmites do divórcio. Ocorre que Drouot, um daqueles típicos monstros de província que Chabrol adorava filmar, pertence a uma família poderosa, que vai manobrar para ficar com a posse do garoto. Hélène desespera-se. A solução só pode ser a eliminação do marido.

Alguns críticos veem em Trágica Separação um certo ar de Luís Buñuel, como se o filme antecipasse O Discreto Charme da Burguesia, feito dois anos mais tarde (e que ganhou o Oscar da Academia de Hollywood). O próprio Chabrol faz uma observação interessante a Guérif. Quando o crítico lhe diz que a partitura de Pierre Jansen é uma das melhores de sua carreira, ele elogia o compositor e acrescenta que foi o único a perceber o tom viscontiano do relato. Como cinéfilo de carteirinha, Chabrol, até por gostar de thrillers, costumava emular Alfred Hitchcock e Fritz Lang, mas aqui, se teve um modelo, foi Os Deuses Malditos, a ópera antinazista do grande Luchino.

O filme trata da comédia do poder e o título de um dos últimos filmes do autor - L'Ivresse du Pouvoir, de 2006 - bem poderia servir como súmula de sua obra. Chabrol discute se os fins justificam os meios, outro tema recorrente de seu cinema, que lhe permite encarar a ética nas relações. Para um cineasta que detestava a burguesia, a ética torna-se relativa e os meios justificam, sim, certos fins. Stéphane Audran é perfeita como mais essa Helena corajosa, mas o filme também conta com participações de Jean-Pierre Cassel e de um ator que também deve a Chabrol seus mais belos papéis, Michel Bouquet.

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