A violência sonora do pantera

Edição de luxo comemora os 20 anos de um dos álbuns que mantiveram o heavy metal vivo durante o furacão grunge

MARCELO MOREIRA, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2012 | 03h07

A única banda de heavy metal capaz de enfrentar o então insipiente movimento grunge de Seattle. O quarteto texano Pantera foi obrigado a conviver com este pesado fardo quando lançou o clássico Vulgar Display of Power, em 1992, o sexto álbum de sua carreira, mas o segundo após a mudança radical de sonoridade.

Enquanto Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden enterravam o som comercial e artificial que tomou conta do hard rock do final dos anos 80, as bandas mais pesadas e as clássicas entravam em parafuso na falta de criatividade e nas crises internas - Black Sabbath, Judas Priest, Iron Maiden e Guns N'Roses, por exemplo. Só a criatividade e inteligência do Metallica e a guitarra feroz e inventiva de Dimebag Darrell, o motor melódico do Pantera, poderiam fazer frente às bandas de Seattle.

Vulgar Display of Power, que ganha agora, 20 anos depois, uma versão de luxo com CD e DVD, conseguiu reunir em um só trabalho um peso absurdo, violência sonora e uma agressividade que era rara naquele ano de 1992. Mas só isso não bastava: era preciso também conter hits e clássicos capazes de sobreviver ao tempo, metas atingidas com sucesso e muito trabalho.

A versão de luxo que chega agora às lojas - lançada no exterior pela Rhino Records e no Brasil pela Warner -, traz uma música inédita, uma sobra de estúdio da época, a música Piss. O DVD bônus é curto, trazendo três videoclipes e cinco músicas gravadas em um show na Itália em 1992.

Mas qual a grande novidade que o quarteto apresentava, já que o metal extremo (thrash, death e black metal) estava bem estabelecido, ainda que no underground? Por que o som agressivo e pesado do Pantera caiu no gosto do grande público em geral, sendo que gigantes do metal como Exodus, Testament, Overkill e Anthrax não tinham atingido tal patamar?

Correndo o risco de cometer injustiças, pode-se dizer que a resposta imediata está em Diamond "Dimebag" Darrell, o guitarrista insano e criativo que colocou um groove até então inexistente no som pesado. Ele já era o destaque da banda na primeira fase, quando o Pantera lançou quatro álbuns entre 1984 e 1988 na linha do hard rock mais farofa que existia, na trilha de Motley Crüe e Poison.

Suas melodias eram diferentes e variadas, com trocas de escalas inspiradas e uma velocidade incomum para o estilo. Quando o cantor Terry Glaze decidiu sair em 1989, abriu-se um novo mundo para o Pantera. Phil Anselmo assumiu os vocais, e Terry Date a produção de Cowboys from Hell, de 1990, uma porrada em todos os sentidos, com uma sonoridade quase thrash e vocais insanos e desesperados de um vocalista que berrava como se estivesse sendo acossado por algo assustador.

O sucesso do álbum foi a chama para avançar ainda mais em Vulgar. A produção melhorou e a bateria de Vinnie Paul (Vincent Abbott, seu nome verdadeiro), irmão de Dimebag, cresceu de tal forma que se tornou parte indissociável da música criada pelo Pantera, com sua sonoridade que mesclava o peso e a intensidade de John Bonham (Led Zeppelin) com a versatilidade de Cozy Powell (Rainbow, Whitesnake, Black Sabbath).

O crescimento de importância instrumental da bateria, por sua vez, teve grande impacto na seção rítmica. Rex Brown, o baixista, sempre demonstrou ser o mais "radical" no mergulho dentro do heavy metal e acabou estimulado a perseguir Darrell na busca por novos timbres e sonoridades, enquanto teve que dar suporte ao volume sonoro criado por Vinnie Paul.

"Vulgar Display of Power é provavelmente o melhor... Ele está lá em cima como um dos meus favoritos registros do Pantera. E honestamente, considerando tempo, considerando nossa idade, nossa mentalidade, foi um disco muito importante", disse Phil Anselmo ao site Blabbermouth nesta semana.

O disco todo é excelente, mas ainda assim há destaques, como a pedrada Mouth For War, a agressiva Fucking Hostile, a veloz e potente Walk e as baladas heavy This Love e Hollow.

Dimebag Darrell seguiu guiando o Pantera até o fim do grupo, em 2002, após desavenças dele e de Vinnie Paul com Anselmo. Os irmãos logo formaram o Damageplan, que terminou tragicamente com o assassinato do guitarrista em pleno palco, em 2004, na turnê de divulgação do primeiro trabalho do grupo.

Dimebag estava no solo da primeira música em uma apresentação em uma pequena casa noturna nos arredores de Columbus, no Estado de Ohio, quando um fã furou o frágil bloqueio de seguranças, invadiu o palco e atirou duas vezes no guitarrista, gritando "Você ferrou o Phil (Anselmo)". O assassino acabou abatido quase imediatamente, alvejado por um policial, e morreu minutos depois. Foi o primeiro astro do rock a ser assassinado em pleno palco.

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