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A vingança da pedra

Drummond não passou recibo dos ataques a seu poema da pedra. Fez melhor: publicou-os

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2018 | 02h00

Macaco velho faria bem em manter acesa, num canto da mente, a lembrança de uma passagem na biografia de André Gide, tão célebre quanto pedagógica. 

Como nem todo macaco é velho, e muitos, na verdade, ainda nem sequer subiram na árvore, convém contar o que se passou com o grande escritor francês num dia de dezembro de 1912. 

Já solidamente instalado nas letras, o futuro ganhador do Nobel (1947) era um dos fundadores da Nouvelle Revue Française (NRF), recém-associada à editora Gallimard, e integrava o comitê encarregado de avaliar originais. Instado a se pronunciar sobre um dos manuscritos, o autor de A Porta Estreita valeu-se de brevíssimas palavras para descartar o romance, com o argumento, não de todo caricatural, de que nele havia “duquesas demais”. 

Para seu infortúnio, tratava-se de nada menos que Du côté de chez Swann (numa tradução brasileira, Do lado de Swann), o primeiro dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, cujo lançamento, por outra editora, no ano seguinte, começaria a consagrar Marcel Proust como um dos grandes romancistas de todos os tempos. 

Voltei a pensar no escorregão de André Gide neste mês de julho, em que se completaram 90 anos da publicação, na Revista de Antropofagia, do poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade, objeto de um dos mais famosos, estridentes e duradouros escândalos da literatura brasileira – capaz, dirá mais tarde o autor, de dividir o Brasil “em duas categorias mentais”. 

Drummond, assim como o editor da revista, Oswald de Andrade, possivelmente não desconfiava de todo o potencial polêmico daqueles 10 versos, nos quais o jovem poeta itabirano empregara 61 palavras, 51 delas repetidas, sendo que 3 com especial insistência: “meio” e “caminho”, 6 vezes cada uma, e “pedra”, 7. 

Mário de Andrade, com quem Drummond se correspondia, tinha elogiado o poema, escrito em 1924. “Formidável”, qualificara o mestre, encantado com o que considerou exemplo “forte” de “cansaço intelectual”. Outros veteranos de boa cepa, entre eles Manuel Bandeira, também gostaram. Na contramão, ergueu-se aos poucos um coro de opiniões contrárias, que viraria vagalhão de deboche e até manifestações de hostilidade pessoal a partir de 1930, quando saiu Alguma Poesia, o primeiro livro de Drummond. 

Entre as bordoadas, desferidas ao longo de décadas, não faltaram alusões – corajosamente não assinadas... – ao fato de que o poeta era chefe de gabinete do ministro da Educação, seu amigo Gustavo Capanema. Os admiradores de Drummond, escreveu um anônimo no diário carioca O Radical, eram gente com “interesses extraliterários junto ao Ministério da Educação”, e que por isso tinham o autor de “No meio do caminho” na conta de “uma espécie de Goethe nacional”.

Previsivelmente, houve quem saísse em defesa da língua portuguesa, puxando as orelhas do poeta por ter escrito “tinha uma pedra” onde a ortodoxia mandava escrever que “havia uma pedra”. Paladinos da velha ordem poética só não chamaram a polícia. Eloy Pontes, que nas páginas de O Globo jamais daria trégua a Drummond – para ele, autor de “pilhérias em forma de estrofes” –, seguia achando, 22 anos depois da Semana de Arte de 1922, “que a poesia dita ‘modernista’” era “um artifício idiota, que o senso comum despreza”. 

“Homem!”, clamou Gondim da Fonseca no Correio da Manhã, “e não houve uma alma caridosa que pegasse nessa pedra e lhe esborrachasse o crânio?” Para ele, “No meio do caminho” não passava de “papagaiada”, e o autor, “Drummond Pedreira”, alguém de cujo cérebro, por espremido que fosse, não sairia nada. O mesmo Gondim tentou fazer graça ao compor uma paródia: “Numa casca de banana em tropecei agora./ Caí para trás desamparadamente,/e rasguei os fundilhos das calças!”. 

Nenhum dos críticos, estava claro, tinha envergadura que de longe pudesse comparar-se à de um André Gide. E, salvo dois ou três, nenhum deles teve mais tarde a humildade de refazer seu julgamento – ao contrário do Nobel francês, que, pouco depois de haver alegado excesso de duquesas em Du côté de chez Swann, escreveu a Marcel Proust, penitenciando-se da desastrada avaliação. 

Talvez por isso, pela minusculidade de seus detratores, Drummond não se animou a lhes dar troco. Arquivista meticuloso, não guardou apenas os louvores; fez como fará mais tarde Guimarães Rosa – mas Rosa, em seus álbuns de recortes, limitou-se a colar de cabeça para baixo as opiniões negativas sobre sua prosa. 

Sem dispêndio de saliva nem de cola, Drummond foi além: em 1967, ao se aproximarem os 40 anos de publicação do poema, juntou tudo, prós e contras, e, estimulado pelo escritor português Arnaldo Saraiva, estudioso de sua obra, mandou para as livrarias Uma pedra no meio do caminho – Biografia de um poema, coletânea que, esgotada fazia décadas, voltaria em 2010 em edição ampliada, aos cuidados de Eucanaã Ferraz, num primoroso lançamento do Instituto Moreira Salles. A refinada vingança terá lavado a alma do poeta – ao mesmo tempo que proporcionava sobrevida a seus algozes, em sua maioria escribas cuja obra, se um dia existiu, o tempo varreu do caminho.

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