A vinda do autor da 'aventura poética'

UBIRATAN BRASIL

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2012 | 03h09

O francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, vencedor do Nobel de Literatura de 2008, foi confirmado como mais um convidado para a próxima edição da Festa Literária Internacional de Paraty, que ocorre entre os dias 4 e 8 de julho, na cidade fluminense. Trata-se do quarto laureado com o maior prêmio da literatura mundial a participar à festa, depois de Toni Morrison (2006), J.M. Coetzee e Nadine Gordimer (ambos em 2007) - quando veio em 2005, Orhan Pamuk ainda não havia sido eleito, o que só aconteceu no ano seguinte.

A eleição de Le Clézio, aliás, não escondeu um viés antissegregacionista da Academia Sueca, que justificou a decisão por ser ele um "escritor da ruptura, da aventura poética e do êxtase sensual, explorador de um humanismo que está além da sociedade dominante". De fato, os personagens de Le Clézio vivem em meio a preconceitos e intolerâncias, buscando espaço em um mundo em que a globalização não é usufruída por todos.

E sua escrita, como observou Gilles Lapouge em artigo publicado no Estado, "é sólida, poética, ágil, e suas inspirações generosas, com frequência debruçadas sobre povos deserdados, México, Tailândia, homens e mulheres pobres, os abandonados. É o que chamamos de 'escritor viajante'".

Uma denominação que o aproxima de Paul Theroux, outro autor cujo combustível da imaginação é o eterno movimentar-se. Descendente de uma família da Bretanha que emigrou para a Ilha Maurício, no Oceano Índico, no século 19, Le Clézio nasceu em Nice, na França, em abril de 1940, mas viveu em diversos lugares, graças às viagens constantes dos pais. Em vez de acentuar sua timidez, essa migração infinita incentivou a imaginação, pois, quando o pai, que era médico, foi designado para a Nigéria, ele escreveu, no barco que os conduzia, suas duas primeiras obras, Un Long Voyage e Oradi Noir. Detalhe: tinha apenas 7 anos.

A estreia profissional se deu aos 23, quando publicou Le Procès-Verbal, em 1963, causando sensação: partindo das últimas consequências do existencialismo e do nouveau roman, Le Clézio conseguiu resgatar as palavras do estado degenerado da linguagem cotidiana e a elas devolveu a força para invocar uma realidade existencial. Foi o início de uma fase em que explorou os entornos da loucura e os problemas da escritura, o que lhe valeu a admiração dos pensadores Michel Foucault e Gilles Deleuze.

Na fase seguinte, iniciada em 1975, o escritor adotou um estilo aventureiro, relembrando o período em que viveu em meio a índios no México e Panamá. "Essa experiência mudou minha vida, minhas ideais sobre a arte, minha maneira de ser, de andar, de comer, de dormir, de amar e até de sonhar", disse ele em entrevista publicada nos anos 1990. Graças às culturas com que vivenciou, aliás, inclusive a latino-americana, Le Clézio é fluente no francês, inglês e espanhol.

Entre suas influências, Os Sertões, de Euclides da Cunha, revelou-se decisiva - na entrevista coletiva que concedeu quando ganhou o Nobel, Le Clézio, estimulado pelo Estado, confessou sua admiração pelo autor brasileiro. "Euclides é surpreendente, impactante. Sua obra é uma aventura, e sua narração me faz pensar além, nos escravos libertados do Brasil. É algo extraordinário." Não satisfeito, continuou: "Não falamos o suficiente dessa cultura, não abordamos como deveríamos a revolta dos escravos ou dos oprimidos contra seus mestres. Os Sertões é uma obra linda, sobretudo em sua forma quase jornalística, surpreendente. Creio ser um dos livros que mais me emocionaram."

Por conta da vinda do escritor ao Brasil, para participar da Flip, a editora Cosac Naify lançará em junho História do Pé, seu livro mais recente, publicado na França no fim de 2011. O título reúne dez novelas sobre mulheres corajosas, que recusam o cinismo e a brutalidade do mundo.

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