A videoarte invade a intimidade

Há certos espaços no circuito institucional brasileiro que perseguem, com coerência e coragem, o fio da navalha da contemporaneidade. Esse objetivo, envolvendo muitos riscos e apostas, ficou ainda mais difícil desde que o Brasil mergulhou na recente crise cambial. Com o dólar guindado a patamares quase proibitivos à importação e fruição da arte internacional de ponta, tornou-se tarefa árdua trabalhar com obras desse segmento.É dentro desse contexto que emerge a inegável importância da coletiva Intimidade, com inauguração prevista para hoje, no Paço das Artes. Além da bem-sucedida estratégia de parceria com consulados europeus, Intimidade significa ótima escolha temática, expressa em certeira seleção de artistas e obras.O conjunto investiga o significado e o estágio atual da intimidade nas relações humanas, em tudo o que isso possa denotar de traumático pelo gradual apagamento dos limites entre público e particular. Afinal, o voyeurismo, aceito quase como norma de convívio (e controle) social, é conflito colado à experiência de todos nós, habitantes da voragem urbana.Participam da exposição nomes estrangeiros de primeiríssimo time, seja com obras referenciais de suas carreiras, seja com trabalhos estreados recentemente nos principais eventos de arte contemporânea no mundo. A curadoria, da diretora do Paço das Artes, crítica Daniela Bousso, contempla três importantes vértices da produção eletrônica internacional: Grã-Bretanha, Suíça e França. O elenco brasileiro garante diálogo de alta voltagem ao conjunto, ao mesmo tempo aproximando culturalmente o tema de nosso universo cognitivo e estabelecendo um contraponto conceitual e tecnológico.Nas palavras da curadora, "a exposição foi estruturada em torno de dois eixos: o temático (a intimidade) e o estético, que situa e comenta algumas mudanças ocorridas na produção artística na passagem dos anos 90 para a década atual". Ainda conforme Daniela, foram reunidas "representações metafóricas que revelam o significado e o estado da intimidade no mundo atual, em que a dimensão do privado como território do íntimo e do indevassável foi substituída pela noção de invasão e do controle do indivíduo".Uma das melhores obras de toda a mostra é o vídeo Flex, do artista britânico Chris Cunningham, destaque na 49.ª Bienal de Veneza, em 2001. Nesse vídeo, o artista mergulha fundo na violência física para traçar áspero perfil das relações amorosas neste século 21, contrapondo-o a um desfecho carregado de humanismo.Forte representante da vitalidade da nova geração de artistas britânicos, Sam Taylor-Wood incursiona com refinada crispação pelo universo existencial que enfeixa as obras da mostra. No vídeo Hysteria, produz angústia claustrofóbica para sublinhar as rupturas e impasses do diálogo amoroso.Entre os suíços, o destaque é Pipilotti Rist, cujas obras freqüentam com assiduidade o circuito principal das grandes mostras internacionais. A videoinstalação que apresentou na 1.ª Trienal de Yokohama (2001, Japão) foi uma das mais impactantes da extensa mostra. Rist enviou a São Paulo um vídeo realizado nos primórdios de sua carreira, quando sua ligação com a música (já teve uma banda de rock) serviu de base para ironizar as distorções de percepção, que rondam a representação do feminino na cultura de massas. Rist alcança poderosa qualidade colorista ao explorar erros de cópia e defeitos no processo de gravação do vídeo.O outro nome suíço, Christoph Draeger, é menos conhecido entre nós. Mas, pela eficácia de resultados, é fácil prever que atingirá prestígio semelhante à de Rist. Draeger traz o vídeo Schyzo, apropriação dos famosos fotogramas do homicídio no chuveiro, que imortalizaram o filme Psicose, de Alfred Hitchcock. Draeger remonta o trecho, sobrepondo as duas versões da mesma cena (a original, com Janet Leigh, e a refilmagem, com Anne Heche). Esse eco visual reconfigura significados, potencializando angústias e medos.Os franceses estão representados por Pierre Huygue e Claude Lévêque. Huygue, figura tarimbada no cenário internacional, provoca nossa memória simbólica ligada ao conto de fadas Branca de Neve, descontruindo-a através de depoimentos da dubladora profissional que faz a voz da personagem. É uma reflexão sobre a identidade feminina, fraturada entre o apego ao sonho e o inelutável da realidade.Claude Lévêque, por sua vez, embora contaminado pelo "malaise", pelo mal-estar existencial que se tornou quase atávico à cultura francesa, sabe evoluir com certo frescor dentro desse universo auto-referente e asfixiante. E, exatamente por causa disso, sintoniza-se com exatidão ao espírito da coletiva.Ao lado desse elenco estrangeiro, há uma não menos afinada presença de artistas brasileiros. São autores que consolidaram linguagens próprias no meio eletrônico, sem se deixarem seduzir pelas virtuosidades fátuas oferecidas pelo meio. Lucas Bambozzi traz o vídeo Entre Quatro Paredes, em que o espaço íntimo de um apartamento é devassado por nosso olhar, que se imiscui janela adentro, deflagrando reação que identifica e repudia a invasão.Gustavo Rezende, mantendo a marca testemunhal desenvolvida na fotografia (o auto-retrato que costuma integrar às imagens que constrói), cria seu primeiro vídeo: My Funny Valentine. É uma contundente paródia que, entre outras coisas, ri da folclorização de nossas misérias. Uma estréia promissora. Registro que se harmoniza com a obra low tech de Marepe e seu Casamentos de Discos, espécie de rústico DJ escancarando a intimidade do gosto musical do artista em fusões e sobreposições sonoras inusitadas. A presença de Marepe funciona também como uma nota de humor brincalhão, relativizando e até desmistificando certo entendimento equivocado da arte eletrônica como valor em si mesmo.Intimidade. Coletiva de videoarte. De terça a sexta, das 11h30 às 18h30; sábado e domingo, das 12h30 às 17h30. Paço das Artes. Avenida da Universidade, 1, tel. 3814-4832. Até 15/12. Abertura às 20 horas.

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