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Mario Vargas Llosa
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A Vida sem Dono

Szyszlo, um dos grandes pintores do nosso tempo,é meu melhor amigo, do qual mais me lembro e mais sinto falta

Mario Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

03 Janeiro 2017 | 02h00

As memórias publicadas por Fernando de Szyszlo são tão belas quanto o título de seu livro: La Vida sin Dueño. Um sopro de liberdade percorre essas páginas em que evoca sua vida, sem eufemismos, grosserias ou censura, com franqueza, inteligência e lucidez. Sua palavra conduz o leitor por uma rica experiência de nove décadas na qual a vocação de pintor e a pintura são as protagonistas. Junto delas, desfilam grandes artistas e intelectuais que conheceu e com os quais conviveu na Europa e Estados Unidos; e a cultura e a política peruana do último século; e sua vida pública e privada, suas alegrias e tristezas, ilusões e frustrações, e os amores apaixonados – três, precisamente – que iluminaram essa longa existência. 

Szyszlo é um dos grandes pintores de nosso tempo e seria mais conhecido do que é se, como fizeram muitos outros artistas latino-americanos – Lam, Matta, Botero e outros –, tivesse ficado nos Estados Unidos ou Europa, numa época em que Paris e Nova York decidiam o prestígio artístico. Mas ele preferiu voltar ao limbo, que era então o Peru culturalmente falando, porque, como outro companheiro de sua geração de quem fala com carinho no livro, o poeta e dramaturgo Sebastián Salazar Bondy, precisava da presença física do país, mesmo que fosse apenas para dar o combate cotidiano a tudo que nele ia mal e o irritava. Essa foi sua maneira de viver, de criar, esforçando-se não apenas para chegar a níveis cada vez mais altos de originalidade e perfeição em sua arte, mas também para tirar a vida cívica que o cercava do subdesenvolvimento, do provincianismo, do isolamento.

Antes de Sartre desenvolver a ideia do “compromisso”, Szyszlo já era um artista comprometido até a medula. Essa foi a batalha de toda sua vida, e de certo modo, ele a venceu. Mas o extraordinário é que continue combatendo, incansável, exigindo tudo de si como se estivesse começando, em todas as horas que passa diariamente em seu estúdio ao som ensurdecedor de música clássica, e pronunciando-se sem parar em cartas, reportagens, artigos, sobre todos os grandes temas da atualidade, com uma coerência sem censura a favor da democracia, da liberdade, dos direitos humanos e de uma arte e uma cultura sem fronteiras e armadilhas, sem complexos de superioridade ou inferioridade, demonstrando, com a própria obra, que a arte pré-hispânica pode fundir-se com as mais ricas descobertas da modernidade plástica e atingir a universalidade sem cair no pitoresco, no corriqueiro. 

Szyszlo foi o primeiro artista abstrato do Peru e sua primeira exposição provocou um coro de vozes críticas. Quando já era famoso internacionalmente, um grupo de empresários peruanos, vendo que havia um museu dedicado a Tamayo no México e que até Guayasamín tinha o próprio museu no Equador, quis fundar um Museu Szyszlo no Peru. Mas houve um abaixo-assinado de dezenas de pintores peruanos, um protesto que exalava uma inveja vitriólica. Szyszlo lembra-se do episódio, quando renunciou imediatamente ao projeto, com certa pena, mas só porque entre os que assinaram o protesto havia um discípulo de quem gostava e promovera. É uma historinha sem importância, mas ilustra muito bem a afirmação de Inca Garcilaso de La Vega, que, embora amasse tanto o Peru como Szyszlo, chamava a terra natal de “madrasta de seus filhos”. 

Quem o conhece sabe que Szyszlo, diferentemente de outros bons pintores que pintam só com as mãos (e pintam muito bem), é um homem muito culto, sobretudo em literatura, grande leitor de poesia, e entre as influências que recebeu, ao lado das de artistas como Hartung, Rothko e Tamayo, ele menciona Octavio Paz, José María Arguedas, André Breton e a leitura de Thomas Mann, Paul Valéry e – principalmente – Proust, que costuma citar de memória. As ideias sempre lhe importaram tanto quanto os objetos estéticos e, por isso, as páginas que dedica a seu trabalho de pintor estão entre as mais sedutoras e originais de seu livro. Não é comum que um pintor explique com tanta pertinência o modo como vai forjando cada quadro, o esboço, traços, linhas, contornos que desencadeiam o processo, a intensidade das emoções que essa aventura cotidiana despertam nele, e suspeito de que tudo aquilo venha das profundezas do inconsciente, a ilusão com que trabalha e, em seguida, diz ele, a comprovação de que o quadro terminado está sempre abaixo do concebido como ideia, mas tenta plasmar a cada dia, repetidamente, sabendo que é impossível porque a perfeição absoluta é um demônio em desabalada corrida que o criador nunca alcança. 

Szyszlo é meu melhor amigo, do qual mais me lembro e mais sinto falta, e achava que o conhecia bem, mas suas memórias me revelaram que, sob essa sobriedade tão austera – que ele chama de timidez – há uma personalidade menos firme do que parecia, mais delicada e vulnerável, na qual as traições e decepções – que sem dúvida influem também em seu trabalho – deixam uma impressão profunda, como a mítica paixão frustrada de sua juventude, paixão que esconde atrás do pseudônimo Laura e descreve nas memórias com uma elegância que não consegue dissimular que, apesar de transcorridos tantos anos, existe uma ferida que ainda sangra. 

A morte do filho Lorenzo, num acidente de aviação, afetou-o de maneira terrível, dividindo sua vida em antes e depois. E, ainda que todos os que o conhecem já soubessem disso, agora, depois das páginas desgarradas com que evoca essa tragédia, a conhecemos melhor, e também sabemos que nunca haverá cura para essa ausência que o fez ver de perto aquela “boca da sombra”que tanto o intrigava desde que encontrou essa expressão em um livro, sem saber o que queria dizer e de onde vinha, para descobrir, com os anos, que havia sido inventada por Victor Hugo e era uma das muitas metáforas que os homens criam para não chamar a morte pelo nome. 

É bom viver os 91 anos que Szyszlo viveu, se os vivemos como ele, mantendo-se sempre ativo e beligerante, trabalhando sem trégua no sonho impossível do quadro perfeito, fiel sempre a um punhado de princípios – a lealdade, a amizade, a verdade, a liberdade, o amor – que lhe trouxeram, tanto como seu talento criativo, a autoridade moral de que goza em seu país e o apreço e admiração de tanta gente. Ainda que ele seja comedido – e me recuso a forçar sua intimidade – e, embora em pequenos grupos ninguém seja mais cordial e divertido que ele, em La Vida sin Dueño Szyszlo revela muitas coisas íntimas – como também o faz Lila, sua mulher, numa carta deliciosa que se infiltrou entre as páginas –, consciente de que um livro de memórias só tem razão de ser se for escrito (ou ditado, como parece ser o caso de pelo menos parte desse livro) a sério, com o mesmo arrojo e temeridade com que um genuíno criador escreve um poema, compõe uma sinfonia ou pinta um quadro. Lê-se seu livro com prazer e, alguns trechos, com a mesma nostalgia com que ele evoca tantas coisas que existiram e já não existem e tantas pessoas que agora aparecem como lembranças que os dias vão apagando. E também, em cada página, mesmo nas mais dolorosas, vemos essa convicção profunda de que a vida, por ingrata que possa ser, é também a coisa mais maravilhosa que nos acontece – e por isso devemos aproveitá-la até a última gota.

/ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ. MARIO VARGAS LLOSA  É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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