A vida secreta de Hitch

Dois filmes sobre o cineasta realçam a importância de sua mulher, Alma Reville

JOHN ANDERSON, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2012 | 02h10

Norman Bates e sua mãe eram eficientes na eliminação dos hóspedes do motel. Mas foi Alma Reville quem de fato matou Janeth Leigh na cena do chuveiro de Psicose. "Eles estavam examinando um corte feito no filme", lembrou o ator e produtor Norman Lloyd, referindo-se a Alma e seu marido, Alfred Hitchcock. "E Alma disse, 'você não pode - Janet Leith engoliu uma vez quando estava morta no banheiro'. Era um quadro apenas. Ninguém notou isso, exceto Alma."

Hitchcock, que morreu em 1980, está recebendo muita atenção este ano. Sua obra-prima de 1958, Vertigo - Um Corpo Que Cai, há muito ocupou o lugar de Cidadão Kane como o filme número 1 de todos os tempos na conhecida pesquisa britânica Sight & Sound. Dois novos filmes - o longa Hitchcock, que traz uma visão alternadamente cômica e demente da produção de Psicose, e The Girl, da HBO, que examina a destruição da atriz Tippi Hedren - têm o divertido, ácido e gorducho Hitchcock no centro.

Mas foi Alma Reville que atraiu a atenção, mais do que devida, do público. Como historiadores e pessoas mais familiarizadas sabem, Alma assumiu papel indispensável na produção dos filmes do marido, como consultora, editora do roteiro, encarregada da continuidade e do som em geral. Era sua mais confiável aliada. Quando se conheceram na Berlim dos anos 20, Alma era já uma estrela do estúdio alemão de cinema Ufa e Alfred, aspirante a diretor de arte com um portfólio de publicidade embaixo do braço. Como senhora Hitchcock, ela se tornou a heroína por excelência não celebrada.

Mas hoje, com duas grandes atrizes fazendo o papel dela no cinema (Helen Mirren e Imelda Staunton), Alma é levada à frente das câmeras. "Está na hora de as pessoas saberem quem é ela", disse Mary Stone, uma das três filhas de Patricia Hitchcock, única filha de Alfred e Alma, que morreu em 1982. "Ela merece 100% do reconhecimento que está obtendo".

Falando em nome da família, Mary declarou que jamais foi consultada sobre The Girl, que estreou no mês passado e retrata Hitchcock como predador sexual e sádico, atormentando Tippi durante a gravação de Os Pássaros (1963). A família sabia do filme Hitchcock lançado na sexta-feira, disse ela, mas, apesar do elenco que inclui Anthony Hopkins como seu avô, ela preferiu não se envolver. Mary não especificou os motivos, mas a trama é provocativa.

Helen Mirren interpreta Alma, mulher impaciente com a conhecida obsessão do marido pelas loiras e flertes e, ao mesmo tempo, mantém affair com Whitfield Cook (Danny Huston), escritor com quem ela trabalhou em Pavor nos Bastidores e Pacto Sinistro.

Helen admite que o romance ilícito da personagem foi inventado. "Esse homem existiu e escreveram juntos um roteiro", explicou ela em entrevista pelo telefone. "E foi sugerido numa das biografias que tiveram um caso, mas nada foi provado." A atriz lamentou não corresponder fisicamente à figura de Alma. "Ela era uma mulher pequena, não tinha mais do que 1,50 m, mas com personalidade incrível. E intimidava um pouco, pelo que li."

Boa parte da familiaridade de Helen com sua personagem veio da biografia Alma Hitchcock: The Woman Behind the Man, escrita por Patricia Hitchcock com Laurent Bouzereau. Mary Stone disse que sua mãe, hoje com 84 anos, não tem boa saúde e não concede entrevistas, mas Helen aponta o livro de Patrícia como o mais fiel a Alma. "Era a filha de Hitchcock e decidiu escrever o livro sobre sua mãe."

Lloyd, hoje com 98 anos, que aparece nos filmes de Hitchcock Quando Fala o Coração e O Sabotador (é ele que cai da Estátua da Liberdade) e foi produtor e diretor das séries para TV de cineasta, conta que "Alma era muito prática quanto ao que era bom para o filme. Ela observava tudo e ele ficava atento a tudo o que ela dizia. A admiração dele por Alma era enorme".

Hitchcock aborda a comida, as obsessões e os riscos financeiros que Hitchcock assumiu com Psicose. Seu diretor, Sasha Gervasi, diz que o filme incluem as contribuições de Alma para a obra do marido, em especial Psicose. "Ele não queria a música de Bernard Herrmann naquela cena de Psicose, mas Alma insistiu. E foi pela confiança que ele tinha nela que a música foi inserida. Quando você lembra aquela cena e da música, percebe como Alma teve papel crucial não só nessa cena, mas na história do cinema."

O instinto de Alma para a coisa certa está gravado na obra de Hitchcock, disse Gervasi. "Não acho que as pessoas de um modo geral saibam até que ponto Alma contribuiu para o gênio de Hitchcock. Mas ela não estava interessada nos refletores. Sabia qual era seu papel. E reconheceu que Hitchcock era Hitchcock. Ela só quis tornar seus filmes um pouco mais geniais."

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