A vida que se leva

Acho que as crianças foram embora pensando que é possível ser feliz em uma biblioteca

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

29 Abril 2018 | 02h00

Uma das muitas – tantas, várias, quase intermináveis – dificuldades da saga de quem tenta escrever uma tese de doutorado (ou uma dissertação de mestrado, ou uma monografia de pós, ou um TCC, ou um pós-doc, ou uma livre-docência, ou qualquer outra coisa que exija foco, pesquisa e concentração) é encontrar uma boa biblioteca. Não apenas por causa dos livros, mas por causa de tudo. 

É muito longe? Tem tomada perto da mesa? Pode entrar com a mochila? Fica muito lotada? Pode entrar com garrafinha de água? É muito abafada? É muito gelada? Tem adolescentes que vão estudar juntos e ficam dando gargalhadas? Tem lugar para almoçar? Tem Wi-Fi? Tem cadeira acolchoada para aguentar 12 horas sentada? Realmente não é uma tarefa fácil.

Em meio a essa sedenta busca, fui, então, pela primeira vez, pesquisar e escrever em uma biblioteca municipal perto da minha casa, aqui em Lisboa. Caminhei uns 20 minutos pela manhã fria, até chegar ao Campo Pequeno, carregando nos ombros uma mochila preta cheia de livros, computador, carregador, marmita, garrafa de água, óculos, nécessaire e tudo mais que me faria apanhar de qualquer ortopedista, fisiatra ou fisioterapeuta, com toda razão.

Ao chegar, fiquei absolutamente maravilhada. A biblioteca, instalada num antigo palácio cheio de afrescos, era quentinha, confortável e tinha inúmeras obras interessantes para a tese. Não tinha grupos de adolescentes barulhentos, era permitido entrar com a mochila, tinha tomada em todas as mesas e, de quebra, ainda havia uma linda varanda ensolarada onde se podia almoçar.

Estava verdadeiramente radiante com minha nova descoberta, acomodada na minha mesa, rodeada de livros gorduchos, novos e antigos, em português, inglês, francês, espanhol, uma maravilha. Tudo corria lindamente. Até que – pausa dramática, música de filme de suspense – começou a entrar na sala uma excursão de escola com cerca de 50 crianças na casa dos seus 6 anos. Fiquei paralisada. Não sabia o que sentir acerca daquela situação. A alma cinzenta e rabugenta que existe dentro de todos nós ameaçou gritar dentro do meu peito “Vo. Cê. Tá. De. Sa. Ca. Na. Gem. Co. Mi. Go”. 

Mas assim que baixei o livro do Stiglitz, dei de cara com o primeiro menino da fila, ao lado da professora. Uma belezinha banguela, de óculos de grau azuis e bem descabelado, como quem acordou na última meia hora e ainda não entendeu nada. Ainda que eu não estivesse com a expressão mais amigável do mundo, o menino sorriu para mim na hora. Eu, desarmada, sorri de volta e dei um tchauzinho. 

Nisso, o menino que estava atrás dele – gordinho e igualmente sem o dente da frente – também me deu tchau. E eu devolvi. E assim eu fui fazendo até o final da fila. Todos – meninos, meninas, brancos, negros, asiáticos, tímidos, desinibidos, curiosos – sorriram, devolveram o tchau e olharam para os meus livros quase infinitos, empilhados na mesa.

A excursão escolar não demorou nem 10 minutos para sair da sala na qual eu estava. Voltei para o Stiglitz e percebi que meu astral era outro, abastecido por pelo menos uns 48 sorrisos banguelas. Podia ter mantido a cara amarrada, considerado que perdi 10 sagrados minutos de trabalho com aquelas crianças que me atrapalharam o raciocínio. Ou podia beber a energia daqueles pequenos sorridentes naqueles 10 sagrados minutos da presença deles.

E, no fundo, acho que eles foram embora pensando que é possível ser feliz dentro de uma biblioteca. Não acharam que aquele é um lugar amargo, que deixa todo mundo mal-humorado, aborrecido e de cara feia. Talvez meu sorriso também tenha valido alguma coisa para eles.

De fato, tem muita coisa na vida que está fora do nosso controle. Mas a verdade é que a gente tem essa grande e preciosa liberdade de poder decidir se vamos viver de um jeito ou de outro.

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