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Ignácio de Loyola Brandão
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A vida, o que fizemos dela?

A Semana Santa começava na véspera de um dia especial, o Domingo de Ramos. Saíamos todos num final de tarde, indo à periferia - e a minha periferia começava na rua de trás de minha casa - buscar arbustos, palmas, o que houvesse disponível nos capões de mato. Uns levavam carrinhos de mão, outros jacás, cestos, sacos de estopa, o que houvesse. De noite, as mulheres faziam ramalhetes ornamentados que, na manhã seguinte, levaríamos para a matriz, onde se realizava, ao redor do largo, a Procissão de Ramos, que representava a entrada de Jesus em Jerusalém. Era o início da vida, paixão e morte.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2015 | 02h06

Dia festivo, havia cores nos vestidos, nas flores, nas imagens, a banda tocava músicas alegres, sacudíamos nossos ramos recepcionando o Senhor. Igreja cheia, praça cheia, alto-falantes transmitiam as músicas do órgão tocado pela Zilah Borges, a mesma que na procissão da sexta-feira, a do Senhor Morto, cantaria como Verônica, desenrolando o rosto de Cristo impresso em sangue num tecido diáfano.

No domingo, todos os ramos eram bentos, ou benzidos como dizíamos. Depois, em casa, guardávamos com cuidado, eram nossas armas contra a tempestades violentas, raios e trovões. Quando a água caía torrencial e as enxurradas cresciam, tomando as calçadas, púnhamos os ramos no fogo, invocávamos Santa Barbara e Santa Escolástica, a fumaça subia com nossas preces, os céus ouviam, diminuíam a intensidade das águas. Ao menos nas minha lembranças.

Como eram teatrais. Como nos tocavam as liturgias da Semana Santa (tudo se escrevia com maiúsculas), superproduções, cantadas em uma língua misteriosa que nos fazia tremer de emoção. Tantum ergum sacramentum, veneremur cernui. As orações latinas eram compostas de maneira que, ditas em conjunto, ressoassem pela nave da igreja, tomadas pela fumaça do incenso dos turíbulos, nos penetrassem. O incenso dava um barato em todo mundo. Se havia alegria no Domingo de Ramos e no Sábado de Aleluia, havia tristeza na morte de Jesus e na comoção no Sermão das Sete Palavras - para o qual se contratavam padres-oradores que nos levavam ao choro, eram talentos.

Tristeza na procissão do Senhor Morto e no Encontro Doloroso. Uma procissão com mulheres seguindo Nossa Senhora com manto roxo saía para um lado. Para o outro, seguia a procissão dos homens levando o esquife - eu adorava essa palavra - debaixo do pálio. Eram milhares de pessoas em filas, divididas por associações. Apagavam-se as luzes da cidade inteira, levávamos velas nas mãos. À certa altura, numa praça, encontravam-se a Virgem Maria, trespassada pela dor, e seu filho. Um sermão lancinante nos abalava. À esta altura, era madrugada. Crianças, adorávamos esta procissão, podíamos quase atravessar a noite toda.

Superprodução, a Semana Santa pegava todos de jeito. Era teatro, filme, telenovela. Os que não estavam na procissão, estavam nas janelas adornadas com as mais belas toalhas de mesa, castiçais e velas. A rádio emudecia. Os quadros nas casas e na igreja eram ocultos por panos roxos. Não se tocava a campainha, apenas a matraca, som lúgubre de ferro sobre a madeira. Nas peças do Zé Celso Martinez do teatro Oficina, estão embutidos muitos rituais da liturgia da Semana Santa, ele não perdia nada, fascinado, levado por dona Angelina, sua mãe.

Sábado de manhã, chegava a alegria. Cristo tinha ressuscitado e subira aos céus, o que nunca entendi quando criança, mas aceitava. Na missa da aleluia, na momento do Glória, acendiam as luzes, caiam os panos, tocavam os sinos, carros buzinavam, as locomotivas das ferrovias apitavam sem parar. Saíamos, porrete na mão, a malhar os Judas, bonecos de palha, vestidos com roupas velhas, rasgadas, amarfanhadas. Um dia entendi porque, ao sair de casa mal arrumado, as mães diziam: "Não me vá sair por aí como um Judas".

Se elas vissem hoje os jeans rasgados, as camisetas deploráveis, o que diriam? Um ou dois anos atrás, estava em minha cidade e, do alto do prédio em que me hospedo, vi sair a procissão da Sexta-feira Santa. Melancólico. Meia dúzia de gatos pingados, junto a um caminhãozinho de som rouco, como se fosse trio elétrico. A procissão andou três quadras, começou uma chuvinha, o padre abandonou o rebanho, correu para a igreja. Os fiéis com as velas apagadas pela água também encurtaram o trajeto, tentaram proteger Cristo morto com um pano e voltaram, enquanto nas casas e nos edifícios, as pessoas jantavam, assistiam novelas ou telejornais, mandavam mensagens, instagrans. Quantas coisas se foram sem nada a substituí-las. Foi ficando um conjunto de vazios que não sabemos como preencher, a fé, o sonho, a ética, a integridade dos que governam, o respeito um pelo outro, a crença no País, o desejo de lutar por mudanças, a educação, as conversas. Como diz aquele filme Lucy (de Luc Besson, com Scarlett Johansson), a vida tem bilhões de anos e o que fizemos dela?

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