A vida nos casarões mineiros

Pesquisador analisa engenho e arte das moradias rurais do sul de Minas

Benedito Lima de Toledo, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2010 | 00h00

Fazendas do Sul de Minas Gerais,de Cícero Ferraz Cruz (Iphan, 2010), nos coloca diante de um pesquisador com muitos recursos, a começar por seu trabalho de campo. A documentação é rigorosa parecendo seguir a definição de Lúcio Costa. Pode-se definir arquitetura como "construção concebida com o propósito de organizar e ordenar plasticamente o espaço e os volumes decorrentes, em função de uma determinada época, de um determinado meio, de uma determinada técnica, de um determinado programa e de uma determinada intenção."

Cada exemplar arrolado é exposto seguindo os mesmos passos: época, programa, implantação, acompanhados de informações históricas e desenhos à margem do texto. A se notar a excelente qualidade da documentação fotográfica, dotada de caráter documental, e não apenas ilustrativo, o que igualmente podemos dizer dos desenhos a mão livre que abrem os capítulos com muita propriedade. A obra, porém, seria enriquecida com o acréscimo de um índice relativo aos nomes das fazendas, o que muito facilitaria sua remissão. Fotos de Portugal, mereceriam melhor qualidade.

A falta de estudos sobre fazendas e, em particular, as fazendas mineiras, vêm de longa data preocupando autoridades em assuntos dessa natureza. Em 1964, a Escola de Arquitetura da Universidade de Minas Gerais, dentro da série Documentário Arquitetônico, publicou um estudo do professor Ivo Porto de Menezes intitulado Fazendas Mineiras. Tal obra refere-se a três fazendas: Fazenda Boa Esperança, no município de Belo Vale, Fazenda Quebra Canoa, em Ponte Nova, e Fazenda Rio de São João, em Bom Jesus do Amparo. Essa última comparece igualmente no livro de Cícero Ferraz Cruz à página 338, aqui com excelente foto.

Menezes informa ter sido proprietário dessa fazenda João da Motta Ribeiro, "pioneiro na fabricação de tecidos, instalando teares em sua fazenda". Outros equipamentos foram instalados, alguns "sob modelo trazido pelo Barão de Eschwege". No que respeita à moradia, Menezes pondera "se tanta visão possuía para seus negócios, era natural que desse à sede de sua fazenda uma majestade e amplidão compatíveis com suas necessidades e posição." Pelo que se pode notar, vamos encontrar nessas residências rurais atividades manufatureiras, revelando um certo pioneirismo, como já foi observado

Dois capítulos, por seu elevado interesse arquitetônico e minucioso estudo dos sistemas construtivos, já justificariam a presente edição. São respectivamente "Intenção plástica e preceitos estéticos" e "Técnica construtiva". Depois de ter apresentado um estudo sobre o programa dessas residências, temos diante dos olhos, demonstrado e dissecado, o que poderíamos chamar de os "segredos dos construtores". Esse conhecimento passado de geração em geração envolve domínio da estereotomia, do conhecimento de madeiras, das sambladuras.

Carpintaria. A formação dos profissionais apresentava caminhos curiosos, como aconteceu na Fazenda Três Barras no Município de Carmo de Minas. "Em 1864, Gabriel Ribeiro Junqueira tomou emprestado de seu avô, o Velho do Campo Alegre, Gabriel Francisco Junqueira (primeiro Barão de Alfenas), um escravo mestre em carpintaria. A obra durou 13 meses. Querendo devolver o escravo o mais rápido possível, ergueu um casarão que classificou de simples e sem luxo."

"Um escavo mestre em carpintaria." Pelo visto, o referido "escravo" seria um consumado mestre de obras, capaz de enfrentar a obra no curto espaço de tempo requerido. Habitualmente esse tipo de profissional não é considerado. Faltam estudos que mostrem que o aprendizado com os mestres portugueses frutificou e desdobrou-se entre esses grupos menos favorecidos.

O Sindicato Nacional dos Arquitetos realiza seu famoso Inquérito de Arquitectura Popular em Portugal (Lisboa, 1961), obra que evidencia uma constatação contida neste livro: "Sabe-se também que a especificidade da arquitetura portuguesa está na forma como interpretou os modelos exteriores e os adaptou à sua realidade, gerando séries tipológicas de grande perenidade. Nesse sentido, o que menos importa é o modelo erudito, mas sim seus desdobramentos."

Francisco de Paula Dias de Andrade cita Rainville em sua obra - O Vinhola Brazileiro - reproduzido neste livro: "Devemos aconselhar uma grande simplicidade na ornamentação, o bom gosto na architectura nasce do caráter individual, da harmonia das partes entre si, e da graça do todo; isso pode obter-se tão bem em uma simples casinha, como em um monumento grandioso." Obras dessa natureza enriquecem a história da arquitetura no Brasil e seus múltiplos desdobramentos, constituindo referências insubstituíveis em nossa cultura.

BENEDITO LIMA DE TOLEDO É ARQUITETO E HISTORIADOR DA FAU-USP

FAZENDAS DO SUL DE MINAS

GERAIS

Autor: Cícero Ferraz Cruz

Editora: Monumenta/Iphan

Preço: R$ 70

Onde comprar: sob encomenda pelo email do autor (ciceroferrazcruz@gmail.com)

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