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Sérgio Augusto
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A vida na ponta da faca

Norman perdeu o pai ainda menino. Encontrou-o morto no chão da garagem. Para superar o trauma e buscar uma nova vida, Norma, mãe de Norman, carregou o filho até uma cidade costeira e lá comprou um motel, que batizou com o nome da família: Bates Motel.

Sérgio Augusto,

23 de março de 2013 | 02h00

Assim tem início a homônima minissérie que o canal a cabo CW começou a exibir no início desta semana, contando a vida pregressa de Norman Bates e sua macabra Jocasta, agora de carne e osso e interpretada por Vera Farmiga. Do que ocorreu depois que Norman, já adulto, matou a mãe e seu amante, o mundo inteiro tomou conhecimento no filme Psicose. Dos seus antecedentes, só agora saberemos, com detalhes não revelados pela terceira reencarnação da série, também na TV, 23 anos atrás.

Psicose virou uma psicose coletiva, um manjar da crítica, um poço sem fundo de interpretações psicanalíticas, uma mina de incidentes pitorescos. Da instalação conceitual de Douglas Gordon, 24 Hour Psycho, com todo o filme exibido a dois quadros por segundo, sem som, no MoMa, com a qual Don Lillo abre seu último romance aqui traduzido, Ponto Ômega, ao filme (Hitchcock) que Sacha Gervasi extraiu do livro de Stephen Rebello sobre as filmagens de Psicose, publicado pela Intrínseca, nenhuma outra obra do cineasta o supera em popularidade e influência pervasiva sobre o cinema, conforme demonstrado pelo crítico David Thomson nas 183 páginas de The Moment of Psycho, editado há quatro anos pela Basic Books.

A minissérie Bates Motel, em dez capítulos, é o que no jargão do show business americano chamam de prequel. A palavra é tão medonha quanto o seu antônimo, sequel, e não tem tradução em português, embora muitos insistam em traduzi-las por prequela e sequela.

As sequels - e Psicose teve duas e meia - continuam mais numerosas, nos filmes e nos livros, não necessariamente com um "De volta a..." ou alguma indicação numérica no título, mas a incidência de prequels, que só eram novidade quando Wagner compôs O Anel do Nibelungo e Siegfried e C.S. Lewis escreveu As Crônicas de Nárnia, cresceu um bocado nos últimos tempos, sobretudo ao embalo de franquias como Guerra nas Estrelas e pretéritas fantasias em torno de heróis, como Indiana Jones, Super-homem, Sherlock Holmes, sem exclusão de vilões do naipe de Hannibal Lecter, de cuja juventude na Europa nos deu conta o mais recente filme da série.

Paródias, pastiches e recriações correlatas pertencem a outro departamento. Nessa categoria eu poria a saga de ...E o Vento Levou recontada pela meia-irmã de Scarlett O’Hara no romance The Wind Gone Done, de Alice Randall, a história de Lolita por ela própria (Diário de Lo, de Pia Pera), e a aventura de Robinson Crusoe revivida do ponto de vista de Sexta-Feira por Michael Tournier, em Sexta-Feira ou a Vida Selvagem. Há quem os qualifique de "romances paralelos", rótulo satisfatório e igualmente aplicável ao que Jean Rhys fez com Jane Eyre, de Charlotte Brontë, John Updike com Hamlet, Valerie Martin com O Médico e o Monstro e Sena Jeter Naslund com Moby Dick.

Em Vasto Mar de Sargaços, Rhys retoma não a vida de Jane Eyre, mas de seu marido, Rochester, e sua primeira mulher, Antoinette, "a louca do sótão". Em Gertrudes e Cláudio, Updike se fixa no casal traidor e assassino da tragédia shakespeariana. Em Mary Reilly, Martin refaz o drama de Stevenson pelos olhos da criada do dr. Jekyll. Já no título de Ahab’s Wife (A Esposa de Ahab), Naslund revela quem comanda a narrativa de sua "parallel novel" sobre o messiânico comandante da baleeira Pequod.

O mágico e as bruxas de Oz e a "galinha" yuppie Carrie Bradshaw, de Sex and the City, foram as últimas adesões à voga das, vá lá, prequelas. Enquanto Oz, Mágico e Poderoso, dirigido por Sam Raimi, em exibição nestas bandas, investe no passado do prestidigitador vigarista, o musical Wicked, sucesso na Broadway, concentra-se nas bruxas de Oz, antes e depois de Dorothy ser arrastada para além do arco-íris por aquele tornado. Na telessérie The Carrie Diaries, também do canal a cabo CW, somos apresentados à adolescente Carrie Bradshaw, que, para surpresa de ninguém, já era fissurada em sexo quando ainda usava meia soquete.

Voltemos ao passado de Norman, "o anti-Édipo avant la lettre", segundo o lacaniano Slavoj Zizek. Pequenas surpresas alteram os rumos de sua vida e vão lhe deformando o caráter fragilizado pelo tratamento opressivo que lhe dispensa a mãe, sempre com as melhores intenções. Tímido, arredio e emasculado por seu (alter ego? superego? id?) materno, Norman não tinha mesmo escapatória. Um crítico considerou Bates Motel menos um espetáculo de horror do que um Bildungsroman (romance de formação) de um psicopata à beira do matricídio.

Ali pela metade do primeiro episódio, uma cena tão capital quanto a do esfaqueamento de Marion (Janet Leigh) no filme de Hitchcock. Estuprada pelo antigo dono do motel, um beberrão inconformado com a perda do imóvel, Norma só não morre porque Norman chega a tempo de derrubar o brutamontes com um golpe na cabeça. Entre chamar a polícia e despejar no intruso suas acumuladas frustrações (sexuais, inclusive), Norma escolhe enfiar uma faca na barriga do estuprador e dar sumiço no corpo.

"Por que você não chamou a polícia?", pergunta o filho. "Quem iria se hospedar num motel onde houve um estupro e um assassinato?", argumenta a mãe. Estava criado um padrão: o padrão Bates de psicopatia. De mãe para filho há não sei quantos anos.

Quantos anos a minissérie não nos ajuda a calcular, pois toda a ação se passa, estranhamente, nos dias correntes. Ou seja, num pretérito tão imperfeito que virou futuro do pretérito.

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