Imagem Ignácio de Loyola Brandão
Colunista
Ignácio de Loyola Brandão
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A vida melhora depois de Da Vinci

Muito antes do raio X, da tomografia, ele desenhou ossos, músculos, nervos em detalhes

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

22 de novembro de 2019 | 03h00

Quando cheguei, fiquei feliz. As filas para comprar e entrar eram longas. Mas tudo corria sem atropelos. Muitos tinham comprado pela internet e chegavam pontuais à sessão marcada. Era para um show de uma banda ou para um jogo? Não, para ver Leonardo da Vinci – 500 Anos de Um Gênio

Outra exposição sobre Da Vinci acontece simultaneamente em Paris e o mundo corre para lá. Temos a nossa e estamos bem servidos. Aquele novo pavilhão do MIS Experience na Água Branca (quase perdi a minha hora, pensando que seria Parque da Água Branca, não é, olhem lá) estava me parecendo familiar, mas eu não identificava. Fui salvo pelo próprio presidente do MIS, Marcos Mendonça. Foi ele que, quando secretário de Cultura do Estado, me presenteou com minha ficha do Dops, feita durante a ditadura militar, “aquela que não existiu”. Nela, sou acusado de ter escrito um livro sobre Cuba, cujo lançamento, segundo o agente policial, tinha sido um “fracasso”. Fracasso bom. Vendeu 450 exemplares em poucas horas.

Voltando ao MIS, aquela estrutura toda foi parte da TV Cultura, ali ficavam as marcenarias, no tempo em que havia muitos cenários a serem construídos a cada dia ou semana. Com a evolução tecnológica, o departamento esvaziou. Quando, depois de ter tentado trazer algumas exposições de arte gigantescas, como a de Van Gogh, Mendonça conseguiu Da Vinci, o enorme galpão foi remodelado, pé-direito aumentado, e assim São Paulo trouxe uma das mais belas exposições dos últimos anos. 

Naquele sábado eram crianças, jovens, adultos, idosos, mais do que idosos, deficientes físicos se misturando. Não preciso falar de Leonardo. Mas o que todos se perguntavam era: do que é feito um gênio? Como é moldado? Ouvi alguém de boa cultura sugerindo que tudo aquilo talvez tenha sido transmitido do Além. Um senhor garantia que o gênio era extraterrestre. Um terceiro – porque fico muito junto ao povo, ouvindo e anotando – assegurava que as obras eram produto de uma equipe e que Da Vinci registrava tudo em nome dele. Como se, há 500 anos, houvesse registro de marcas e patentes. Outros viam aqui um traço de Rafael, ali um de Botticelli ou de Michelangelo ou de Giotto e outros mais, confundindo datas e épocas.

É uma exposição que espanta pelo artista total que Da Vinci foi. Ficamos pequenos diante da atividade de um criador como nunca teve outro igual. Ou teve? Socorro, Rodrigo Naves! Ali está como a arte é maior do que tudo, como a criatividade humana não tem limites. Ficamos perplexos ao indagarmos: como é possível combater arte, cultura? Como espezinhá-la, ignorá-la, a não ser que se tenha uma mente tosca, xucra, áspera, panasqueira? A arte nos faz suportar a vida.

O maquinário de Da Vinci é curioso, absorvente. Ouvi certa mãe dizer ao filho: veja, esse homem inventou a roda. Tudo bem, importa que o menino tenha passado pela mostra. Diante do submarino, um senhor garantia: isso certamente afundava. Da Vinci imaginou o que viria a ser realidade somente séculos depois, em 1899 com o submarino Narval, criado por Laubeuf, depois das tentativas de Bushnell, Fulton e Zedé. O artista anteviu ainda o helicóptero, o paraquedas, a asa delta.

Mostra multimídia, há imenso salão com projeções variadas, onde todos se acomodam pelo chão, sentados em banquetas, ou deitados olhando para todos os lados e para o alto, como se fosse um moderno déjeuner sur l’herbe. Na hora em que passei, no meio de tudo havia um jovem casal em pé, se beijando e quase dando um amasso, indiferente a tudo. Será que Leonardo provoca sensações sensuais? 

Diante dos desenhos detalhadíssimos de anatomia, vê-se que antes, muito antes do raio X, da tomografia, da ressonância magnética, Da Vinci desenhou ossos, músculos, nervos em detalhes assombrosos. Pois ali, um homem se postou diante dos desenhos, enquanto seu filho fazia selfies, ele imitando a posição de braços, pernas, etc. Nosso tempo.

Há um canto em que se vê as várias “vidas” da Monalisa. São os momentos em que o retrato foi alterado pelo tempo, pelas condições de temperatura, umidade, etc. E o trabalho feito para restaurá-lo, devolvendo as cores originais. Mas ali levanta-se um mistério: La Gioconda, como foi chamada, tinha ou não sobrancelhas?

Atrás de mim caminhava um impaciente. “Veja aquela mulher? Demora para ler. Mande que ela saia. E o senhor, por favor, leia rápido. Estou com pressa.” Fiquei impassível. E daí essa recomendação. Muitas legendas são grandes, mas vá com calma, não marque nada para depois, dure quanto durar, leia, acompanhe, desfrute, usufrua, se alimente de cada instante e saia melhorado. Como há gente para tudo, ainda ouvi um casal se indagando ao sair: “Mas será mesmo que ele era gay? Li em algum lugar”. Como se importasse diante de tanta magnitude. Nossa vida é melhorada depois de mergulhar em Da Vinci.  

*

PS: Bela semana esta. Além de Da Vinci, tem O Pasquim 50 Anos (belo momento de nossa imprensa), no Sesc Ipiranga (imperdível), a estreia de A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, e o romance Essa Gente, de Chico Buarque, nas livrarias.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.