A vida louca de Freud

Neto do criador da psicanálise é visto por biógrafo como compulsivo sexual e brigão

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2013 | 19h39

A porta de entrada do ateliê do pintor Lucian Freud em Holland Park, na zona oeste de Londres, tinha uma placa de aço de 6 milímetros de espessura. Não era para proteger seus quadros, “mas para protegê-lo dos marginais que conhecia”, segundo o biógrafo Geordie Greig, que lança, no dia 8 de novembro, o livro Café com Lucian Freud pela Editora Record. A biografia, que mostra Freud envolvido com agiotas, ladrões e outros proscritos chega a tempo de o leitor conferir ao vivo algumas das obras citadas no livro e expostas na mostra Lucian Freud: Corpos e Rostos. A exposição, que seria encerrada no domingo passado, vai ficar aberta no Museu de Arte de São Paulo (Masp) até 15 de dezembro.

O biógrafo e jornalista Greig, ex-editor da revista Tatler, era amigo íntimo do pintor. Foi nessa condição que conheceu detalhes da vida privada de Lucian Freud, neto do criador da psicanálise, mantida a sete chaves atrás de sua porta de aço. Ela é tão desconcertante quanto seus insólitos nus, um deles na mostra do Masp – uma jovem nua deitada ao lado de um ovo sobre a mesa. Quando se discute justamente a invasão da privacidade por biógrafos, Greig presta um bom serviço ao leitor invadindo a de Lucian, ao relacionar brutais imagens produzidas pelo pintor à incontrolada hiperssexualidade do artista e seu apego ao avô psicanalista.

Para Greig, a vida de Lucian “apresenta uma ligação indestrutível com a de seu avô” – e isso não só porque a atividade do pintor, como lembra o biógrafo, “consistia em fazer com que pessoas se sentassem em camas ou sofás e revelassem muito mais do que talvez pretendessem revelar”. O avô psicanalista, zoólogo capaz de diferenciar até o sexo das enguias, exerceu tremenda influência sobre o neto, apaixonado por animais, a ponto de usar ratos e cachorros interagindo com seus modelos.

O biógrafo descobriu que o modelo do primeiro nu masculino pintado por Lucian Freud, que mostra um rato imóvel na parte superior da sua coxa, era Raymond Jones, decorador de interiores. Ele foi apresentado ao pintor por George Dyer, um ladrão londrino que arrombou o ateliê de Francis Bacon para se tornar seu amante. Raymond comprou o retrato do ladrão pintado por Lucian, a quem emprestou muitas vezes dinheiro para saldar dívidas de jogo.

Por que Lucian Freud queria que seu primeiro nu masculino, de 1977, tivesse um rato como coadjuvante? Teria ele a intenção de associar Raymond ao “homem dos ratos” do avô Freud, procurado em 1907 por um paciente com transtorno obsessivo-compulsivo? O modelo nunca ousou perguntar ao pintor, limitando-se a embriagar o rato com champanhe e sonífero para que o bicho permanecesse imóvel sobre sua coxa. Depois, Lucian o fez posar novamente, desta vez com o companheiro John, vestido com um pijama emprestado pelo pintor. Vovô Freud explicaria?

Talvez, considerando que os melhores amigos de Lucian eram os pintores Francis Bacon e David Hockney, homossexuais assumidos. Acontece que Lucian Freud era um mulherengo. Casou-se duas vezes e assumiu a paternidade de 14 filhos, tendo pelo menos o dobro de ilegítimos (o biógrafo arrisca que eles podem chegar a 30 e revela que o pintor passou sete décadas preocupado com a possibilidade de ser ele mesmo um filho bastardo, portanto sem parentesco com o avô Freud). O certo é que ele pintou alguns de seus filhos já grandes – nus, como de hábito – e Greig insinua uma aproximação quase incestuosa dos garotos, tanto as meninas como os meninos, enquanto Lucian explorava o contorno de seus corpos.

Greig também menciona o caso amoroso de Lucian com o poeta e romancista inglês Stephen Spender (1909-1995), que foi casado por duas vezes e processou David Leavitt por explorar sua relação com Tony Hyndman. Virginia Woolf, porém, sustentava que Spender e Lucian Freud tiveram um love affair. O filho do poeta, Matthew Spender, reforça a suspeita. Diz que “Lucian era muito atraído por homossexuais, tendo prazer em provocar os homens”. Matthew revela ainda que o pintor, com sua cara de Harpo Marx, era o tipo físico do pai. “Ele o achava muito atraente”.

Como todas as outras grandes amizades de Lucian, essa também chegou ao fim. O artista era egoísta, briguento, voluntarioso e podia ser bastante grosseiro quando insinuavam algo a respeito de sua virilidade. Entretanto, Francis Bacon referia-se a Lucian como “ela”, reduzindo-o a uma “rainha de pantomima”, segundo o biógrafo. A ex-mulher de Lucian, lady Caroline Blackwood, herdeira da Guinness, descreveu o ex-marido como “um Mefistófeles nu e paranoico, destruindo feito louco o que está em sua volta”. Caroline, que morreu de câncer em 1996, referia-se, então, a um dos inúmeros autorretratos do artista – talvez o que mais explorou o gênero depois de Rembrandt.

A pintura e o ato sexual não estavam dissociados um do outro, observa o biógrafo, recorrendo à opinião do amigo John Richardson. Este defendeu que arte e sexo eram intercambiáveis para o pintor. No entanto, a nudez de seus modelos não traduz necessariamente franqueza, intervém o biógrafo. “A identidade deles costumava permanecer em segredo, o que contrastava com a forma com a qual eram revelados em poses verdadeiramente explícitas.” Todos sabem que seis das “oito pernas” mencionadas como subtítulo da tela> Sunny Morning são do assistente de Freud, David Dawson, e do lebréu do pintor, Pluto. Mas a quem pertencem as pernas masculinas escondidas sob a cama?

No Clarke’s, onde o biógrafo costumava tomar o café da manhã com Lucian Freud, este revelou que essas eram as pernas do próprio modelo. O artista aceitava uma interpretação narrativa, mas não simbolista, de sua pintura. Odiava a mistificação e particularmente Baselitz, o pintor alemão que seu ex-marchand Anthony d’Offay expôs em sua galeria, antecipando o fim de uma mostra de Freud. Ele abandonou seis de seus marchands, acumulando, mesmo assim, uma fortuna de 96 milhões de libras. Morto em 2011, aos 88 anos, Lucian Freud, três anos antes, já era autor da tela mais cara vendida pela Christie's, a bizarra Benefits Supervisor Sleeping, vendida por US$ 33,6 milhões.

CAFÉ COM LUCIAN FREUD

Autor: Geordie Greig

Tradução: Waldéa Barcellos

Editora: Record (308 págs., R$ 49)

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