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A vida em caixas de papelão

O transitório nos faz ser o que somos, pois sem ele seríamos todos tediosa e perigosamente iguais

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2022 | 03h00

Um dos meus professores me disse que sua vida profissional cabia em caixas de papelão. “Em 42 caixas, para ser preciso!”, afirmou, irônico.

Não entendi bem o “Mestre” pois, aos 20 anos, como eu ia entender um cara com suas 80 e tantas primaveras? 

“Como 42 caixas?”, repliquei agastado com o que tomava como uma autodesvalorização. “O senhor tem uma bela carreira e seus livros são importantes. Sua trajetória é impecável.”

“Você não entendeu. Falo de uma vida encaixotada que vai para um depósito para ser, dizem, pesquisada, mas que será esquecida como ocorre com todas as vidas. Roída por traças, como diria um duro Machado de Assis que, por sinal, não foi esquecido...”

Lembrei-me de uma frase do livro Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D. Yalom. Nele, li que Nietzsche teria dito: “Morrer é duro. Sempre senti que a recompensa final dos mortos é não morrer nunca mais”.

Naquela época, eu só havia vivido mortes apropriadas e, digamos, leves como a de vovô Raul. O demasiado humano é, sem dúvida, a finitude. O transitório nos faz ser o que somos, pois sem ele seríamos todos tediosa e perigosamente iguais. Acho que entendo o “Mestre”.

Meus avós, pais, tios e professores não morrem mais e estão recompensados. Todos foram encaixotados. O morto comum é, com o perdão do trocadilho, encaixotado apenas uma vez. O “Mestre” supostamente ilustre é colocado em múltiplas caixas. Um pedaço importante de sua vida vira um arquivo. Tudo é enquadrado, menos suas lágrimas, angústias e desespero, bem como a esperança dos escritos encaixotados.

A vida se abre diante de nós por etapa. A morte igualmente chega aos rodeios. Primeiro, avós e tios, depois pais e, finalmente, irmãos. O mais duro, diria eu ao filósofo, não é somente morrer, é honrar o morto quando a morte leva um filho. O sangue do seu sangue.

Escrevo essa melancólica crônica pensando nos mortos de uma Petrópolis na qual um dilúvio trouxe a morte em torrentes. É o vale de lágrimas sendo novamente provado nestes tempos em que se faz presente em todos os lugares e corações.

Quando meus irmãos e eu chegamos na casa onde meu avô jazia morto na então enorme “cama de casal”, minha avó Emerentina não deixou que nos aproximássemos do corpo porque estávamos – meus quatro irmãos, um primo e eu – engravatados e prontos para ir a um baile.

“Vocês não têm nada que fazer aqui”, disse vovó disfarçando o choro dos seus trinta anos de casamento. “Vocês vão para o baile. Dancem, namorem, divirtam-se e amanhã vocês vão chorar a morte do seu avô.” 

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